por Oscar D'Ambrosio


 



Nirceu de Bragança

A prática pictórica e do restauro

 

"Não se deve pintar o objeto, mas o efeito que ele produz". Os quadros de Nirceu de Bragança ilustram as palavras do pintor impressionista francês Monet e trazem à tona imagens que revivificam o conceito do poeta simbolista Mallarmé de que a arte não deve nomear as coisas, mas sim degluti-las e devolvê-las ao observador sob uma nova perspectiva.

Tal fato é particularmente visível nas representações de figuras femininas realizadas por Nirceu. Surgem em seus quadros visões esfumaçadas que variam do azul ao vermelho, incluindo diversos tons de amarelo, gerando efeitos que se associam, muitas vezes, a uma explosão de sentimentos.

Não se trata, porém, de expressionismo à Munch. Não há a tristeza que caracteriza o pintor norueguês, mas sim um trabalho sobre as formas que dilui o referente. Porém, este não chega a se perder como em certas obras impressionistas. O espectador sabe o que está vendo, reconhece o objeto pintado, mas o descobre sob um nova ótica.

Nascido em Bragança Paulista, Interior de São Paulo, em 16 de outubro de 1940, Nirceu Apparecido Helena, artisticamente conhecido como Nirceu de Bragança, realizou curso de escultura na Faculdade de Belas Artes de São Paulo e de especialização em Artes Plásticas na PUC- SP. Com essa bagagem, foi professor de Artes Plásticas, em diversas escolas de primeiro e segundo graus do Estado de São Paulo, e de Educação Artística, na Faculdade de Ciências e Letras de Bragança Paulista.

Se Nirceu pinta trabalhadores, como cortadores de cana e seringueiros, também realiza diversas quadros a partir de figuras femininas nuas, em diversos tons. Algumas mulheres ganham máscaras, o que aumenta o jogo de ambigüidades que a pintura do artissta traz à tona.

O ludismo é uma característica dos quadros do artista. O jogo mostrar/revelar e ser/parecer ganha força, pois as figuras extrapolam as dimensões do quadro em busca de vida e a ganham na consciência de cada espectador, que busca, na pintura, uma forma diferenciada de ver o mundo, que mescla intuição e técnica, sensibilidade e rigor intelectual das composições.

Seja nos quadros figurativos ou nas formas mais abstratas, o universo das cores criadas por Nirceu desperta a atenção graças a um livre leque de tonalidades, em que predominam as quentes (vermelho, amarelo e laranja) rumo a um mergulho no mundo das sensações. Peixes, animais e paisagens destacam-se pelas tonalidades alcançadas, assim como as figuras de trabalhadores rurais em busca de um amanhecer mas digno.

Especialmente ao se debruçar sobre a natureza, Nirceu confirma a máxima de Picasso de que, para deformar a realidade, é necessário saber pintá-la muito bem. Enquanto suas flores se aproximam dos modelos reais, os nus femininos revelam a expressão e a transformação de sentimentos interiores, que ganham a tela com a intensidade de uma eficaz sessão de psicanálise.

As temáticas, variando de cenas do interior, do universo indígena ou de plantas ou aves, têm como ponto em comum a filosofia pictórica de Monet de que o essencial é ver o que está além da realidade aparente. Isso significa trabalhar formas e cores de maneira incessante até que a arte do sentir se cristalize em cada pincelada. Assim, cortadores de cana numa estrada de terra alcançam a mesma dimensão poética de um belo corpo feminino e nus ganham a leveza de aves de rapina em busca de paz.

Nirceu domina várias técnicas, como comprova seu currículo. Entre 1963 e 1986, participou de várias exposições coletivas e individuais, tendo recebido, no Salão Paulista de Belas Artes, em 1963 e em 1964, respectivamente, uma menção honrosa e uma medalha de bronze por trabalhos com escultura. Em 1985, obteve ainda menção honrosa em gravura no 15º Salão Ararense de Artes Plásticas, além de medalha de ouro de pintura, em 1986, em Tampa Bay, na Flórida (EUA).

Paralelamente, confirmando seu talento, o artista desenvolve uma carreira de restaurador. Entre 1986/8, realizou cursos de restauração no Instituto Técnico de Restauro (SP), o que o levou a ser professor de restauro, com especialização em madeiras, no Museu de Arte Moderna (1992/3) e no Instituto Paulista de Restauro (1986/98). Além disso, em 1989, restaurou mais de 80 peças do Palácio do Itamaraty, hoje Museu do Itamaraty, no Rio de Janeiro – RJ.

Nirceu até conta o carinho e a dedicação que uma obra de arte danificada exige: "A tela é retirada do chassi original. São verificadas as lesões e eventuais deformações. A camada pictórica é protegida. Procede-se, pela face posterior, à limpeza do tecido da tela e aos reparos necessários. É feita a reentelagem usando linho aplicado com cola animal e beva, material sintético reversível desenvolvido nos EUA. A obra recebe um novo chassi. É executada a limpeza da face pictórica com solventes específicos. São realizados os nivelamentos essenciais e os retoques com pigmentos especiais. Em seguida, aplica-se o verniz e, por último, é escolhida a moldura adequada ao estilo do quadro."

Lendo essas linhas, fica evidente que pintar e restaurar são, para Nirceu, os mais inteligentes exercícios de criação artística. A realidade é o ponto de partida para uma relativização de formas e conceitos que conduz para uma nova visão de mundo. A arte pictórica recria assim a realidade e gera oportunidades para a reflexão. Criar lúdica e artisticamente com as cores é uma oportunidade de revisitar o mundo, prática que o artista de Bragança Paulista, que possui, há mais de 20 anos, a única Galeria de Arte da cidade, realiza com maestria. Ao recriar o que vê, ele nos possibilita ver com novos olhos o que julgávamos repetitivo. Desse modo, cumpre a função mas gloriosa da atividade artística: conseguir que o cotidiano atinja a dimensão do inesquecível.




Oscar D'Ambrosio

O autor é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP, 1999).

 
 

 

 

 

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