Niobe Xandó
O mistério das letras
Niobe Xandó não é o tipo de artista que se resume
a uma biografia. Sua ação plástica como pintora e desenhista autodidata
tem diversas facetas, das quais as mais conhecidas são formas
vegetais,
como
flores, ramos, folhas e raízes, seres
enigmáticos da natureza e máscaras. As técnicas também variam muito e
incluem guache,
óleo,
colagem,
acrílico, nanquim e
spray.
Uma das mais fascinantes está na
maneira como trata a letra e como estabelece inclusive um alfabeto, em
que há correspondências explícitas entre as letras latinas e as próprias
criações. No entanto, essa lógica por ela mesma elaborada é pouco
seguida, deixando o observador com uma interrogação no rosto e diversos
questionamentos na mente.
Tentar
ligar o
desenvolvimento desses
alfabetos e
letras
absolutamente
maravilhosos
em
termos
plásticos a
manifestações
precoces do
Mal de Alzheimer constitui uma
visão simplificada de
todo
um
processo de
construção
que
comporta a
complexa
visão do
mundo de uma
artista
que
nunca se filiou a
grupos.
Ela preferiu
seguir a
sua
carreira de
forma
independente,
inclusive
em
termos de
produzir,
para
desespero do
mercado de
arte,
em diversas
frentes simultaneamente.
O
próprio
fato de Niobe
utilizar numerosas
assinaturas ao
longo de
sua
trajetória põe
por
terra
qualquer
interpretação
puramente neurológica da
paixão dela pelas
letras e
por
suas possibilidades
plásticas. Ao
que
tudo indica,
ela
via a
letra
não
pelo
seu
significado
pragmático,
como
um
elemento de
comunicação,
mas
como
um
desenho, uma
forma do
indivíduo se
expressar.
É
muito
curioso
verificar
como a
escrita da
artista
trabalha
com
dois
pólos
que se interligam. Há a
idéia da
comunicação,
mas
também a de
compreensão da transitoriedade da
vida, da
onipresença do mutável e do
conceito do
lúdico.
Esse
segundo
aspecto valoriza
sobremaneira o
movimento, o
fluxo da
vida e o
predomínio do
conceito de
mudança
eterna.
Paralelamente, as letras criadas por
Niobe, em muitos casos, têm a função evidente de comunicação, de maneira
não tão obscura como na proposta estética acima mencionada. Isso ocorre
principalmente na escrita do nome do segundo marido Alexandre e das
filhas Lourdes e Chlóris, sem contar a grafia do próprio nome.
A
forma dessa
escrita reúne
ainda
elementos
sagrados
sob
algum
aspecto. Os
mistérios
que
ela
comporta apontam
para
elementos
afros
que se relacionam
com as
máscaras desenvolvidas
pela
artista e
com uma
expressão
visual marcada
por
grande
liberdade
associada a
presença de
sistemas de
graus
distintos de decodificação.
Assim como o
arado
sulca a
terra e possibilita a sua fertilização, as letras de
Niobe ocupam o papel ou a tela para fertilizar o pensamento. A letra
torna-se assim um espaço individual de manifestação de emoções e
pensamentos. A maioria das pessoas faz isso pela própria caligrafia, mas
é na criação de alfabetos que esse poder da escrita se manifesta em sua
escala mais avançada, pois gera elos entre cada uma delas e promove suas
combinações.
Elaborar
um
alfabeto é uma
maneira de
instaurar
um
fórum de
opinião,
um
local
particular que espelha um conhecimento.
Decifrar essa
jornada exige
muita
atenção do
observador e,
por
mais
que se possa
ver nesse
trabalho
um
diálogo
com Letrismo de Isadores Isou e de Maurice
LeMaître
com
suas
propostas de
uso de
códigos
alfabéticos
que a
artista conheceu
em Paris,
seus
elementos
gráficos parecem
mais
próximos da
visão da
letra
como
um
desenho,
nem
sempre necessariamente atrelado a
um
significado,
mesmo sendo
possível
ler
nomes
próprios de
pessoas, do
país
ou de
estados
brasileiros,
como o
Amazonas.
As letras de Niobe, nesse sentido,
podem
ser vistas
como uma
forma de
escrita ligada ao sono e ao sonho. A
artista se expressa com autenticidade, num pensamento que funde algum
racionalismo na composição com alguns aspectos surrealistas, como a
escrita automática, a significação
simbólica de
mensagens cifradas
ou
sem nexo e variadas
famílias tipográficas.
O fascinante é que cada família de letras, como se
fosse um conjunto de pessoas, vive um paradoxo. Embora precise ter
elementos comuns entre si, necessita também manter características
diferenciadas enquanto signos que formam a identidade que um alfabeto
necessita. Semelhanças e diferenças são assim essenciais para que o
grupo de letras viva em harmonia.
A
poética se instaura
quando
dois
universos se cruzam. No
mundo da
razão, ocorrem as mudanças nas
famílias tipográficas
enquanto, no
universo do
sono, num
mundo
que
não está
preocupado
em
tornar a
leitura
visível e
inteligível, as
letras de Niobe Xandó prosseguem
seu misterioso percurso de
adivinhação, criptografias, alfabetos
metafóricos e
códigos
secretos.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).