por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Niobe Xandó

 

O mistério das letras

 

Niobe Xandó não é o tipo de artista que se resume a uma biografia. Sua ação plástica como pintora e desenhista autodidata tem diversas facetas, das quais as mais conhecidas são formas vegetais, como flores, ramos, folhas e raízes,  seres enigmáticos da natureza e máscaras. As técnicas também variam muito e incluem guache, óleo, colagem, acrílico, nanquim e spray.

            Uma das mais fascinantes está na maneira como trata a letra e como estabelece inclusive um alfabeto, em que há correspondências explícitas entre as letras latinas e as próprias criações. No entanto, essa lógica por ela mesma elaborada é pouco seguida, deixando o observador com uma interrogação no rosto e diversos questionamentos na mente.

            Tentar ligar o desenvolvimento desses alfabetos e letras absolutamente maravilhosos em termos plásticos a manifestações precoces do Mal de Alzheimer constitui uma visão simplificada de todo um processo de construção que comporta a complexa visão do mundo de uma artista que nunca se filiou a grupos. Ela preferiu seguir a sua carreira de forma independente, inclusive em termos de produzir, para desespero do mercado de arte, em diversas frentes simultaneamente.

            O próprio fato de Niobe utilizar numerosas assinaturas ao longo de sua trajetória põe por terra qualquer interpretação puramente neurológica da paixão dela pelas letras e por suas possibilidades plásticas. Ao que tudo indica, ela via a letra não pelo seu significado pragmático, como um elemento de comunicação, mas como um desenho, uma forma do indivíduo se expressar.

            É muito curioso verificar como a escrita da artista trabalha com dois pólos que se interligam. Há a idéia da comunicação, mas também a de compreensão da transitoriedade da vida, da onipresença do mutável e do conceito do lúdico. Esse segundo aspecto valoriza sobremaneira o movimento, o fluxo da vida e o predomínio do conceito de mudança eterna.

            Paralelamente, as letras criadas por Niobe, em muitos casos, têm a função evidente de comunicação, de maneira não tão obscura como na proposta estética acima mencionada. Isso ocorre principalmente na escrita do nome do segundo marido Alexandre e das filhas Lourdes e Chlóris, sem contar a grafia do próprio nome.

A forma dessa escrita reúne ainda elementos sagrados sob algum aspecto. Os mistérios que ela comporta apontam para elementos afros que se relacionam com as máscaras desenvolvidas pela artista e com uma expressão visual marcada por grande liberdade associada a presença de sistemas de graus distintos de decodificação.

Assim como o arado sulca a terra e possibilita a sua fertilização, as letras de Niobe ocupam o papel ou a tela para fertilizar o pensamento. A letra torna-se assim um espaço individual de manifestação de emoções e pensamentos. A maioria das pessoas faz isso pela própria caligrafia, mas é na criação de alfabetos que esse poder da escrita se manifesta em sua escala mais avançada, pois gera elos entre cada uma delas e promove suas combinações.

            Elaborar um alfabeto é uma maneira de instaurar um fórum de opinião, um local particular que espelha um conhecimento. Decifrar essa jornada exige muita atenção do observador e, por mais que se possa ver nesse trabalho um diálogo com Letrismo de Isadores Isou e de Maurice LeMaître com suas propostas de uso de códigos alfabéticos que a artista conheceu em Paris, seus elementos gráficos parecem mais próximos da visão da letra como um desenho, nem sempre necessariamente atrelado a um significado, mesmo sendo possível ler nomes próprios de pessoas, do país ou de estados brasileiros, como o Amazonas.

            As letras de Niobe, nesse sentido, podem ser vistas como uma forma de escrita ligada ao sono e ao sonho. A artista se expressa com autenticidade, num pensamento que funde algum racionalismo na composição com alguns aspectos surrealistas, como a escrita automática, a significação simbólica de mensagens cifradas ou sem nexo e variadas famílias tipográficas.

O fascinante é que cada família de letras, como se fosse um conjunto de pessoas, vive um paradoxo. Embora precise ter elementos comuns entre si, necessita também manter características diferenciadas enquanto signos que formam a identidade que um alfabeto necessita. Semelhanças e diferenças são assim essenciais para que o grupo de letras viva em harmonia.

A poética se instaura quando dois universos se cruzam. No mundo da razão, ocorrem as mudanças nas famílias tipográficas enquanto, no universo do sono, num mundo que não está preocupado em tornar a leitura visível e inteligível, as letras de Niobe Xandó prosseguem seu misterioso percurso de adivinhação, criptografias,  alfabetos metafóricos e códigos secretos.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Sertão
 hidrográfica sobre papel 16 x 35 cm coleção da família 1977

Niobe Xandó

 

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