Nilson Pimenta
Imagens do Brasil
Há pintores naïfs que
vão perdendo sua autenticidade e originalidade ao longo da
carreira. O contato com o mundo urbano, os críticos de arte e os
jornalistas faz com que deixem de lado a espontaneidade que os
caracteriza como criadores talentosos e representantes da cultura
de uma nação.
Nilson Pimenta percorre
trajetória inversa. Ao longo dos anos, seus olhos se voltam cada
vez mais para o Brasil. Em suas telas, revela aspectos
multifacetados de um país caracterizado pelo trabalho árduo,
pela natureza frondosa e por um grau de violência rural e urbana
cada vez maior.
Nascido em Caravelas,
BA, em 1956, Pimenta saiu de lá nos braços maternos rumo a Prata
dos Bainos, ES. Aos seis anos, mudou-se para Mato Grosso,
percorrendo, durante 15 anos, diversas cidades da região leste do
Estado, como Irenópolis, Jaciara, Barra do Garças, Brasilândia
e Finca-Finca.
Ao longo desses anos, trabalhou em
plantações não mecanizadas de arroz, milho e feijão, e como peão.
Conheceu a vida da roça e o cotidiano das fazendas, derrubando
matas e arando a terra, mas não colhendo os frutos. Roceiro nômade,
também cortou e moeu cana para usinas de açúcar e participou de
mutirões, festas e caçadas.
Na infância, rabiscava em papéis
avulsos e mesmo em carteiras de cigarro vazias. Com pedaços de
carvão, deixava suas marcas em tocos de madeira e cancelas de
fazendas; com gravetos, no chão; e com os dedos, sobre a poeira
na carroceria de automóveis.A partir de 1978, Pimenta, sem ter
terra própria para trabalhar, passou a morar em Cuiabá.
O ano seguinte foi muito importante.
Primeiro, começou a desenhar com lápis de cor sobre papel;
segundo, passou a trabalhar como guarda de campo. Como o serviço
era pouco, este Henri Rousseau brasileiro, de revólver na cintura
como a função exigia, aproveitava o tempo livre para representar
graficamente seu passado recente.
Os primeiros desenhos
foram feito com lápis de cor em papel; e a crítica Aline
Figueiredo tomou conhecimento deles, ainda em 1979, graças ao
pintor Adir Sodré, morador do bairro do Pedregal, em Cuiabá, que
desenvolve diversas atividades artísticas, formando, desde o
final dos anos 1970, um núcleo artístico popular, com dezenas de
artistas jovens que, como ele, encontram na arte uma resposta aos
seus anseios existenciais.
Em 1980, Humberto Espíndola, então
diretor do Museu de Arte e de Cultura Popular, presenteou Pimenta
com as primeiras tintas a óleo, introduzindo-o no mundo da
pintura.Assim surgiram as telas de grandes dimensões em que são
retratadas cenas dramáticas ou bucólicas. Como aponta Aline, o
artista pinta, desde então, "estórias que lhe contam, fatos
da atualidade, enredos inventados, recriados ou recordados".
Além disso, em 1981, ele passou a trabalhar no Ateliê Livre da
Universidade Federal do Mato Grosso, onde continua atuando como
supervisor.
Um exemplo da pujança
visual do trabalho de Pimenta é Queimada do Xingu. Animais
mortos em meio ao fogo são vistos próximos a bombeiros que, com
suas mangueiras vermelhas, lutam para conseguir vencer as chamas.
No centro da tela, índios fogem com seus arcos, atravessando a
tela numa diagonal que vai do canto inferior esquerdo ao superior
direito.
Merece destaque na tela a vegetação,
destruída na metade inferior da imagem, e ainda de pé na
superior, embora com poucas folhas, ressecada pelo calor. A cena
transmite intenso vigor, e as cores quentes passam ao observador
toda a agonia de uma mata destruída em proporções cada vez
maiores.
Festival dos índios
é ainda mais significativa pela composição utilizada. Centenas
de indígenas, inicialmente retratados de corpo inteiro e em traços
cada vez mais precisos de acordo com a proximidade do observador,
cercam um homem que, com um machado, corta uma árvore, na qual um
macaco se pendura pelo rabo. No chão, há diversos arcos com
flechas preparadas para serem lançadas e, perto do destruidor da
mata, algumas ocas indígenas se espalham.
O resultado é de
grande efeito visual. As moradias e o homem estão dentro de uma
figura quase geométrica que remete à imagem de útero materno,
como se os índios estivessem tentando proteger a única árvore
que resta, enquanto ela está sendo covardemente destruída.
Festival de mulheres
já é bem mais colorido, com predomínio do verde e do amarelo,
as cores nacionais. Dezenas de brasileiras são mostradas bebendo
e dançando em rituais de celebração. Ao fundo, dezenas de biquínis
parecem estar voando, soltos em busca de corpos diluídos na
imagem. O resultado final oferece alegria e dinamismo.
Um quadro de características
distintas é Vila do Serrado. Um povoado é mostrado em
suas atividades primordiais, como o retorno de uma carroça com
frutas, um homem jogando sinuca, um vendedor de aves mortas,
mulheres trabalhando e crianças brincando. Comparecem ainda
elementos religiosos católicos e o trabalho numa rede elétrica.
Assim, a modernidade se integra à
imagem, fato não muito comum nos quadros do artista, mais
caracterizado por quadros como Onça, que mostra dois
felinos em primeiro plano, com sua pele rica em garatujas
contrastando com flores vermelhas desabrochando, que combinam com
as línguas dos animais.
Ao fundo, homens em canoas compõem o
ambiente, dialogando com a água em delicado tom azul. A
grandiosidade das feras parece mostrar que, de fato, elas detêm o
poder na região. Pimenta sabe disso muito bem, porque conviveu
com esses animais. "É o bicho que mais dá trabalho para
matar", diz.
Os grandes temas
nacionais também surgem na sua pintura Movimento dos sem terra,
por exemplo, mostra dezenas de trabalhadores rurais com enxadas,
inclusive crianças, tomando posse de terras. A cena possui
intenso movimento e cativa pelo uso de espaços amarelos à Van
Gogh. O intenso colorido dá uma idéia de frenesi, transmitindo a
pujança do movimento.
Colheita da
castanha-do-pará, embora não tenha um conteúdo social, é
uma das telas melhor realizadas em termos de cromatismo e composição.
Homens com carabina nos ombros que puxam animais que carregam
cestos do produto, mulheres com cestos na cabeça, uma onça próxima
a uma armadilha e índios em frente a suas ocas compõem a cena.
Desde a primeira mostra individual no
Museu de Arte e de Cultura Popular na UFMT, em 1981, a arte de
Pimenta foi se consolidando. Na Bienal Naïfs do Brasil de 1998,
em Piracicaba, SP, por exemplo, ele mostrou dois trabalhos: Fazendo
pamonha e Carro de boi. O primeiro mostra quatro
pessoas se protegendo do sol inclemente e trabalhando
incessantemente.
No fundo, o céu azul e as árvores
completam o cenário. Merece destaque a forma como é mostrado o
chão, com pinceladas breves, numa espécie de pontilhismo muito
particular, enquanto as telhas, por seu turno, feitas com extrema
cuidado, contrastam com as figuras humanas, realizadas com a
desproporção típica da arte naïf, em que os olhos e o cabelo
das mulheres predominam.
Carro de boi
coloca dois pares de bois carregando melancias. As frutas se
espalham pelo chão e o cenário reúne ainda quatro cabanas, e a
vegetação típica do Brasil central. O vermelho interno das
melancias se espalha em pequenos pontos ao longo da tela, reforçando
a importância dessa cor, que, embora levemente presente,
transmite energia e vibração às imagens expressas no quadro.
Na Bienal seguinte, em
2000, Nilson Pimenta obteve o Prêmio Aquisição com a tela Moto
Boy, que trata, com incrível crueza de Francisco de Assis
Pereira, que trabalhava nessa função e violentou e matou, em
1998, dez mulheres, levando-as ao Parque do Estado, região Sul da
Capital paulista.
A moto e os corpos em decomposição
das mulheres se destacam na tela, assim como a desproporção
entre o assassino, conhecido como "Maníaco do Parque",
que pegou mais de 120 anos de prisão, e a mulher que ele está
estrangulando. Ela, muito maior do que ele, será a próxima a se
juntar àquelas que surgem espalhadas na tela. Bolsas de mão, calças,
calcinhas, sapatos e um guarda-chuva contribuem para acentuar o
clima de dramaticidade e de registro interpretativo de um fato
jornalístico.
Pela sua força intrínseca, a imagem
chamou a atenção da Comissão Julgadora, que também teve a
oportunidade de ver, na mesma exposição, Nordeste, tela
em que a miséria da seca é a temática. Um avião militar
aparece em terra, parado, enquanto militares distribuem alimentos
às esfomeadas vítimas da seca.
Mulheres carregam jarros na cabeça,
uma mulher grávida segura um calango e uma bandeira do Divino Espírito
Santo, que insiste em se manter de pé, representando a esperança
de toda uma população. As carcaças de animais e as árvores
secas integram esse cenário de miséria, que os soldados procuram
reduzir.
Pimenta, orientador do
Ateliê Livre do Museu de Arte e Cultura Popular da Universidade
Federal de Mato Grosso desde 1980, é hoje um legítimo
representante das artes plásticas mato-grossenses é um de seus
principais destaques. Para Miguel Jorge, da Associação Paulista
de Críticos de Arte (APCA), as telas de Pimenta são "feitas
com amor, humor e com suas cores vivas e a luminosidade da região
do Pantanal".
Aline Figueiredo, por sua vez, ao discorrer sobre os
quadros do artista, diz: "Plasticamente a pintura é rica
pela sensibilidade das massas coloridas e pela espontaneidade do
traço que resulta sem erro, limpo e seco. A composição é
cheia, e a ação da pintura tem objetividade graças à
expressividade das formas e de sua singular colocação nas cenas,
como se obedecessem uma ‘ordem’ irreverente mas que resulta
harmoniosa. As cores são vivas, com o predomínio do verde, cor
da natureza. Mato, bicho e gente fazem a trilogia do seu
tema."
De fato, homens
derrubando matas, incêndios, antas, caititus, jacarés, sucuris,
macacos e homens com enxada nas costas ou espingarda oferecem um
painel do trabalho dos moradores da região, que convivem
diariamente com as maravilhas e os caprichos da natureza, podendo
usufruir de seus frutos e riquezas, mas também convivendo com
seus perigos, como as mencionadas onças e queimadas.
Os homens e mulheres não são
mostrados apenas nas atividades na roça ou com gado que Pimenta
conhece tão bem. O artista inclui em seu repertório imagético
cenas não muito comuns nos naïfs, como a polícia jogando corpo
em despenhadeiros. Assim, o artista realiza a sua crítica social
num estilo em que o ambiente sempre predomina sobre o indivíduo,
que se integra ao todo não como agressor, mas como mais um
integrante de um todo que funcionaria harmonicamente se não fosse
o poder destruidor do ser humano.
Com o estímulo da
obtenção do Grande Prêmio no V Salão Jovem Arte Mato-grossense
(Fundação Cutural de Mato Grosso), em 1981, Pimenta vem se
dedicando com afinco à atividade artística. No começo de 1996,
por exemplo, sem interromper a pintura, ele começou a realizar
experiências escultóricas. Sobre pequenos blocos de pedra,
moldou figuras com areias das Praias do Rio Coxipó ou das
cachoeiras da Chapada dos Guimarães.
Aline Figueiredo conta
que, naquele ano, a prefeitura depositou um caminhão de pedras,
tipo brita, num terreno próximo à sua casa, no bairro Pedregal.
O material era duro e difícil de esculpir, mas sugeriu ao artista
relevos de pequenas montanhas, colinas e barrancos. "Com
massa plástica, a mesma usada na lataria de automóvel, ele
modela pequenas figuras e as aplica firmemente na superfície da
pedra", diz Aline Guimarães, que identifica o erótico e o cômico
nesse trabalho de Nilson Pimenta. "O resultado final é tosco
e bruto, mas interessa pela diversidade e espontaneidade."
Com história digna de
um romance e talento espontâneo identificável em cada um de seus
quadros, Nilson Pimenta oferece uma visão de Brasil duplamente
interessante. Por um lado, mostra, em tons de amarelo, verde e
vermelho, imagens de um País rude e sofrido de trabalhadores com
enxadas ou no lombo de cavalos; por outro, trata da violência
social com crueza e originalidade, lembrando que o Brasil, além
do carnaval e do futebol, está repleto de cidadãos que lutam por
melhores condições de trabalho e que enfrentam o alto índice de
violência social que se espalha por toda parte.