Nice
Araújo Aravena
Em
nome da cor
O
universo da cor é um dos mais ricos para quem trabalha com artes
plásticas. Não há limites e um criador pode ficar a vida
inteira concentrado apenas no estudo de uma cor básica e suas
nuances, sem contar as infinitas possibilidades de misturas na
palheta. Esse raciocínio pode ser aplicado ao universo pictórico
de Nice Araújo Aravena. Sua técnica tem a cor como elemento
principal de experimentação e de conquista da atenção do
observador.
Nascida
em São Roque, SP, em 8 de outubro de 1973, Nice iniciou seus
passos na arte, ainda adolescente, com desenhos de papéis
amassados, em que valorizava as linhas, ou desenhos de observação.
Frutas, auto-retratos, mãos e pés foram também motivos dos
primeiros trabalhos.
A
pintura, desenvolvida em seguida, passou pelo desafio de transpor
paisagens para a tela, mas é nas naturezas mortas que ela parece
alcançar o seu melhor resultado artístico. Nos anos 1990, ao
conhecer o atual esposo Enrique Aravena, desenvolveu ainda mais o
seu talento, principalmente na forma de trabalhar com as cores.
O
caminho da artista parece ser cada vez mais deixar de lado as
formas para se voltar justamente para a pesquisa da cor. Um passo
nesse sentido é verificar como o fundo de suas naturezas mortas
ganham cada vez maior importância estética. A luz utilizada e a
técnica da espátula valorizam a presença de alguns objetos, mas
as telas de maior impacto são aquelas em que a diluição das
formas contribui para a criação dos jogos com a cor.
Em
telas como Prato ou Quadro dentro de um quadro,
evidencia-se que a artista usa a cor como principal forma de
expressão de sua poética. A concepção visual mais tradicional
da primeira e o jogo metalingüístico da segunda são menos
importantes do que a afirmação do uso da cor como desafio à
necessidade da artista de criar.
Licenciada
em Pedagogia, com trabalho de conclusão de curso sobre os elos
entre artes visuais e educação, Nice realizou a sua primeira
coletiva em 1998 e a primeira individual em 2001. Nesse percurso,
a busca por uma melhor composição de formas paulatinamente foi
derrotada pela crescente necessidade de encontrar na cor uma
resposta estética adequada.
A
diluição de referentes concretos pode ser um caminho muito rico
para que essa paixão pela cor encontre a sua expressão mais
completa. Eles permanecerão prsentes, mas de forma cada vez mais
diluída, talvez imperceptível. Como pontos de partida cada vez
menos visíveis e mais sutilmente sugeridos.
Frutas,
flores, garrafas e copos devem pouco a pouco ser motes de uma
pintura que se abastece da própria pintura, ou seja do dilema e
desafio artístico de tomar a cor como matéria-prima máxima e
primordial de uma jornada técnica em que NiceAravena faz o seu
talento colorístico explodir sem compromisso algum com as formas
que serviram de ponto de partida.
Oscar D’Ambrosio, jornalista,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha
América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo).