Newton
Mesquita
A valorização da imagem
Muitas vezes, ao se falar da
pintura contemporânea, corre-se o risco de cair numa simplificação de
análise. Parece que dois mundos antagônicos lutam para conquistar espaço:
o do assunto, em que a temática é o que chama a atenção da pintura;
e o da expressão, em que o como fazer se torna mais importante do que
aquilo que é feito.
A pintura de
Newton Mesquita, exposta, de 3 a 23 de abril de 2006, no Museu
Brasileiro da Escultura (Mube), em São Paulo, SP, mostra como essa
discussão é reducionista e pobre intelectualmente. O pintor, escultor,
desenhista, fotógrafo, gravador, artista gráfico, ilustrador e cenógrafo
oferece uma excelente oportunidade de verificar como diversos assuntos,
se tratados dentro de uma bem definida proposta estética, podem
caminhar não só em paralelo, mas grudados em sua riqueza e
possibilidade artística.
Nascido em São
Paulo, SP, em 6 de junho de 1949, Mesquita é arquiteto e desenvolve várias
atividades profissionais, mas é na maneira de tratar a imagem plástica
que atinge a excelência. Seja no uso de rolos reticulados, como faz Cláudio
Tozzi, ou na diversidade colorística que desenvolve, encanta pelo poder
de experimentar.
Uma mesma
imagem, como a de uma cotidiana xícara de café pode ganhar novas
dimensões não apenas pelo uso de cores diferentes, mas por alertar
como o ser humano contemporâneo vem perdendo a capacidade de refletir
sobre o mundo que está ao seu redor. Muito se fala, mas pouco se prática
a célebre máxima de “ver com novos olhos”.
Outro
assunto que Mesquita trata é o dos beijos. Trata-se de uma temática
muito própria do mestre Rubens Gerchman, mas ganha, no pintor paulista,
visões que se aproximam da abstração, no sentido que, algumas vezes,
mal se reconhece o casal encostando os lábios, tal o encantamento
gerado pela cor e por alguns traços ainda visíveis.
O amor à
arquitetura e ao espaço evidencia-se nas cenas de largas avenidas. A
mudança de cor possibilita vislumbrar o mundo urbano sob novas
perspectivas. O mesmo ocorre em líricas cenas de chuva. O chão
molhado, guarda-chuvas abertos e pessoas cobrindo a cabeça criam uma
atmosfera em que é possível desfazer aquilo que se vê da discussão técnica
de como foi alcançado tal resultado.
O forte elo
do indivíduo com o entorno é enfocado, por exemplo, na imagem de um
idoso lendo jornal numa praça. Além da variação cromática, está
ali um documento de uma situação vivencial em que acompanhar o tempo
passar pode ser uma tortura. Sem engajamento social ou econômico explícito,
Mesquita traz uma discussão existencial muitas vezes distante da arte
atual, mais preocupada, na maioria dos casos, em debates conceituais do
que em tratar de estados da alma.
Nus femininos, detalhes de flores ou de rostos, como um olho e
sobrancelha retomam o questionamento de que a arte de trabalhar
plasticamente imagens está justamente no desenvolvimento de um
pensamento sobre o mundo que nos leva a saber ver. Isso significa
praticar, como faz Newton Mesquita, um exercício constante do enxergar,
criando estados líricos, que unem assuntos cotidianos e progressivo
apuro técnico, em cada nova imagem.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de
Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo).