por Oscar D'Ambrosio


 

 


Newton Mesquita

 

            A valorização da imagem

 

            Muitas vezes, ao se falar da pintura contemporânea, corre-se o risco de cair numa simplificação de análise. Parece que dois mundos antagônicos lutam para conquistar espaço: o do assunto, em que a temática é o que chama a atenção da pintura; e o da expressão, em que o como fazer se torna mais importante do que aquilo que é feito.

            A pintura de Newton Mesquita, exposta, de 3 a 23 de abril de 2006, no Museu Brasileiro da Escultura (Mube), em São Paulo, SP, mostra como essa discussão é reducionista e pobre intelectualmente. O pintor, escultor, desenhista, fotógrafo, gravador, artista gráfico, ilustrador e cenógrafo oferece uma excelente oportunidade de verificar como diversos assuntos, se tratados dentro de uma bem definida proposta estética, podem caminhar não só em paralelo, mas grudados em sua riqueza e possibilidade artística.

            Nascido em São Paulo, SP, em 6 de junho de 1949, Mesquita é arquiteto e desenvolve várias atividades profissionais, mas é na maneira de tratar a imagem plástica que atinge a excelência. Seja no uso de rolos reticulados, como faz Cláudio Tozzi, ou na diversidade colorística que desenvolve, encanta pelo poder de experimentar.

            Uma mesma imagem, como a de uma cotidiana xícara de café pode ganhar novas dimensões não apenas pelo uso de cores diferentes, mas por alertar como o ser humano contemporâneo vem perdendo a capacidade de refletir sobre o mundo que está ao seu redor. Muito se fala, mas pouco se prática a célebre máxima de “ver com novos olhos”.

            Outro assunto que Mesquita trata é o dos beijos. Trata-se de uma temática muito própria do mestre Rubens Gerchman, mas ganha, no pintor paulista, visões que se aproximam da abstração, no sentido que, algumas vezes, mal se reconhece o casal encostando os lábios, tal o encantamento gerado pela cor e por alguns traços ainda visíveis.

            O amor à arquitetura e ao espaço evidencia-se nas cenas de largas avenidas. A mudança de cor possibilita vislumbrar o mundo urbano sob novas perspectivas. O mesmo ocorre em líricas cenas de chuva. O chão molhado, guarda-chuvas abertos e pessoas cobrindo a cabeça criam uma atmosfera em que é possível desfazer aquilo que se vê da discussão técnica de como foi alcançado tal resultado.

            O forte elo do indivíduo com o entorno é enfocado, por exemplo, na imagem de um idoso lendo jornal numa praça. Além da variação cromática, está ali um documento de uma situação vivencial em que acompanhar o tempo passar pode ser uma tortura. Sem engajamento social ou econômico explícito, Mesquita traz uma discussão existencial muitas vezes distante da arte atual, mais preocupada, na maioria dos casos, em debates conceituais do que em tratar de estados da alma.

            Nus femininos, detalhes de flores ou de rostos, como um olho e sobrancelha retomam o questionamento de que a arte de trabalhar plasticamente imagens está justamente no desenvolvimento de um pensamento sobre o mundo que nos leva a saber ver. Isso significa praticar, como faz Newton Mesquita, um exercício constante do enxergar, criando estados líricos, que unem assuntos cotidianos e progressivo apuro técnico, em cada nova imagem.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

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Domingo no parque
acrílico sobre tela 100 x 100 cm 1980

Newton Mesquita

 

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