Newman
Schutze
O pincel como espada
De acordo com os ensinamentos do Bum Bu Ryo Do, um samurai deve
ser igualmente educado no domínio das artes que comandam a pena e a
espada. Guardadas as proporções, os desenhos de Newman Schutze
expostos na galeria Eduardo H. Fernandes, em São Paulo, SP, de 29 de
novembro a 23 de dezembro de 2005, concretizam esse ideal.
Nascido em
Adamantina, SP, em19 de agosto de 1960, o pintor apresenta um respeitável
currículo, com exposições individuais na capital paulista, em
Salvador, BA, nos EUA e na Alemanha. Nessa trajetória, partiu de um
figurativismo amplamente expressivo, como Bóias Frias, de
1982, por exemplo, passando por diversas experiências, com uso de técnicas
diversas como óleo, têmpera e retalhos de pano sobre tela ou lona.
Mesmo no
início do século XXI, quando a abstração começa a ser dominante,
em trabalhos em óleo ou acrílico, prevalece uma certa ordenação
nas pinceladas, com cores
justapostas em blocos horizontais em harmônicas composições que
evocam contidas pautas musicais com uso parcimonioso da cor.
Nos
desenhos em nanquim sobre papel da exposição de 2005, surgem novas
possibilidades de interpretação, pois a pintura se revela mais solta
do que nunca. Há alguns elementos orientais muito presentes, algo que
evoca diversas filosofias da região, como o Zen, o Xintoísmo e o
Confucionismo.
Do Zen, a
arte de Schutze apresenta o extremo controle e disciplina necessários
para atingir a sua atual fase. Embora jovem, seus traços revelam uma
serenidade assustadora, daquelas que parece mostrar que pintar é fácil,
desde que se tenha a coragem de arriscar e a mente aberta para fazê-lo.
Do Xintoísmo,
o artista parece evocar a negação da dicotomia entre corpo e mente.
No momento em que se acredite que eles são um só, torna-se mais
simples fruir as pinceladas de Schutze, pois é a cabeça que comanda
o pulso que faz o gesto que resulta na imagem que encanta. Ao mesmo
tempo, o pulso tem recursos para obedecer ao impulso cerebral, numa
harmonia rara e altamente qualificada.
Do
Confucionismo, brota uma relação implícita na obra dos artista que
amadurecem ao longo da trajetória. Eles percebem que se a vida é, em
certos aspectos, limitada, um nome pode ser lembrado para sempre se
for honrado a cada instante. É isso que o artista faz com seu novo
trabalho, criando motivo para que ele mesmo e aqueles que contemplam a
sua obra possam recordar
de quem a fez e como atingir esse nível.
A arte dos
samurais lembra que a habilidade no manobrar a espada e a pena,
responsável pela caligrafia e pelo desenho, estão na união de cabeça
e corpo. Os trabalhos em nanquim sobre papel de Newman Schutze são,
portanto, fusão desses dois elementos. Há neles a sabedoria oriental
que, de forma consciente ou não, torna o nome do artista inesquecível
para quem contempla, com paciência e atenção, cada uma de suas
obras.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio
Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do
pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo).