por Oscar D'Ambrosio


 

 


Neri Andrade

 

Memórias afetivas

 

Um dos locais mais agradáveis e mágicos de Florianópolis é o bairro de Santo Antonio de Lisboa. Ali, o modo de falar e de viver da cultura açoriana é preservado de uma maneira quase inacreditável. Trata-se de um microcosmo em que o passado se torna presente sem conflitos, mas com uma pitada de saudade.

O artista naïf Neri Agenor De Andrade, que assina suas telas como Neri Andrade, cristaliza bem essas tradições. Consegue trazer ao seu trabalho imagens do local, mas com um estilo peculiar, em que se vale muito dos vazios de espaço, deixando as figuras respirar dentro de composições que seguem construções bastante equilibradas e de efeitos muitas vezes inesperados.

Nascido em Florianópolis, Estado de Santa Catarina, em 26/05/1954, Andrade tem um poética em que duas vertentes se fazem muito presentes: a da cultura do litoral e a da cultura rural. Na primeira, predominam cenas de pescarias, em que as cores se tornam fundamentais no mecanismo de composição. Na segunda, engenhos, casarios e roças são os destaques.

            Foi o artista plástico Rodrigo de Haro que percebeu o interesse e o talento de Neri Andrade pelas artes plásticas. Inicialmente, presenteou-o com uma tela, tintas e pincéis. Mais tarde, ao comprar rendas de bilro com a mãe do jovem artista viu, na parede, uma imagem de um casarão da segunda metade do século XIX que lhe chamou a atenção.

            Com alegria, Haro soube que era Andrade o autor daquela obra, uma pintura do local onde o pescador e então pintor novato nascera e que a família conserva até hoje. Néri, recebeu, com o elogio do mestre a quem respeitava, um estímulo decisivo para desenvolver o seu trabalho, cada vez com mais afinco, rumo à profissionalização.

            Pescador como boa parte dos habitantes do local, Neri Andrade, casado, quatro filhos, alimenta seu imagético justamente do local privilegiado onde habita. Um dos recursos plásticos que costuma utilizar é o uso das figuras humanas geralmente em pequena escala. Desse modo, consegue ter mais espaço para o uso de suas construções plásticas, em que meias-luas se fazem muito presentes no aproveitamento da tela.

A comunidade açoriana de Santo Antonio de Lisboa torna-se o mote, o assunto das pinturas de Neri Andrade, mas nunca constitui um elemento limitador. Pelo contrário, quando se debruça no mencionado casarão ou no engenho, consegue retirar deles respostas visuais não-repetitivas.

O mesmo ocorre quando mergulha literalmente num mundo que conhece por experiência profissional, o da pesca artesanal. O segredo está em não oferecer o óbvio, mas criar uma visão pessoal  de um universo no qual se sente à vontade por conviver com ele desde criança.

Cada novo quadro torna-se então uma memória afetiva de um local que perdeu suas características originais. O bairro que ele pinta não existe mais da maneira que Neri Andrade o retrata, mas é preservado pela sua memória, pela forma como transforma suas lembranças em quadros bem elaborados.

Independente do caráter pitoresco de preservação de uma cultura, cada trabalho é realizado com extremo cuidado e técnica apurada, com exímia atenção na composição de cada figura e na criação de atmosferas líricas que constituem um retorno a uma Santo Antonio de Lisboa que se extinguiu com a modernização, mas que se mantém nas composições equilibradas e cores serenas e harmoniosamente distribuídas do pintor catarinense.

 

Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

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 Pescaria noturna 
acrílica sobre tela 50x70 cm 2006

Neri Andrade

 

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