por Oscar D'Ambrosio


 

 


Néle Azevedo

 

            A escultura máxima

 

            O trabalho da artista plástica Néle Azevedo é associado com o conceito de monumento mínimo de maneira quase automática, numa espécie de reflexo lingüístico que pode fazer com que comecem a se perder aspectos importantes de seu trabalho em termos das diversas reflexões que ele engloba.

            Duas delas são essenciais. A primeira é o fato de as obras não retratarem, ao contrário dos grandes monumentos urbanos, pessoas célebres, mas seres comuns, anônimos, iguais, cotidianos, como todos nós, imensos em sua humanidade, mas esquecidos pela história.

            A segunda aponta para o fato de as pesquisas com o corpo realizadas, seja em desenhos, expostos em São Paulo, em 2008, na DConcept Galeria, cobertos por uma superfície de acrílico, esculturas em resina ou em ferro, passam, da existência para a diluição, pela escolha com suporte do gelo, que se desfaz pela ação da temperatura.

            Esse pensamento, geralmente visto apenas como performance, guarda no seu processo facetas muitas vezes negligenciadas. Existe o ato de colar água nas formas, congelá-las e, depois, dar o acabamento numa ação de modelagem de pequenas peças de aproximadamente 20 cm, em número que chega ao milhar.

            Isso sem contar o armazenamento das esculturas antes de sua colocação em local público e o transporte delas até o local escolhido, seja uma praça, como ocorreu Florença, em outubro de 2008, ou em outro espaço, sempre onde elas possam interagir com o público.

            Cidades como São Paulo, Ribeirão Preto, Paris e Porto, entre outras, viram esse ato de entrega à passagem do tempo que exige grande generosidade do artista plástico. Aceitar a finitude de seu trabalho, por mais que ele se materializa em fotografias ou vídeo é um exercício de humildade.

            O conceito de monumento mínimo guarda a idéia da escultura máxima. Escultura, por haver a prática da modelagem e da repetição que exige paciência e o pôr em prática um conceito, no presente caso, o de lidar com  o efêmero; máxima, por ser uma expressão maiúscula de um exercício de desaparecimento da arte que consagra a impermanência física como uma única permanência possível e verdadeiramente importante.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da Unesp, câmpus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

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   bonecos de gelo

 instalação local e dimensões variáveis

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