por Oscar D'Ambrosio


 

 



Natal das letras

"Não há muito que dizer: Uma canção sobre um berço/ Um verso, talvez, de amor". As palavras de Vinícius de Moraes podem desanimar qualquer tentativa de percorrer os as veredas do Natal na poesia e na prosa brasileiras. Porém, com a o devido respeito e vênia do poetinha, talvez seja possível ser original ao tratar da dia em que os cristãos festejam o nascimento do Menino Jesus. Basta verificar a variedade de formas utilizada por contistas, cronistas e poetas brasileiros para enfocar o tema.

Mestre das palavras, Aurélio Buarque de Holanda deu ao substantivo natal três sentidos: 1- dia do nascimento; 2 - dia em que se comemora o nascimento de Cristo, situação em que deve ser escrito com letra maiúscula; e 3 – qualquer canção de caráter popular inspirada nos festejos ou personagens natalinos. Em seu conto "Numa Véspera de Natal", porém, a rigidez normativa cede espaço à história de um esquisitão, meio maluco, marginal da sociedade, caminhando só, no silêncio da noite – "cada vez mais longe da compreensão humana".

Mas o homem que virou sinônimo de dicionário não é o único a colocar um outsider na literatura pátria sobre o Natal. Bernardo Élis também trata daqueles que vêem a festa pelos vidros das janelas e das vitrines, sem fartura ou presentes. Em "Papai Noel Ladrão", um menino pobre coloca o único sapato da mãe, cozinheira, na porta da casa, esperando a chegada de Papai Noel.O bom velhinho não só não vem como é substituído por um cão vadio que leva o valioso calçado. Resultado: uma sova em jejum de uma mãe irada bem no dia de Natal.

        É fácil verificar, portanto, que não foram poucos os que abordaram as ceias de Natal, o presépio e as relações humanas durante a festa. É possível, num esforço rápido de memória, puxar, no mínimo, uma dezena deles, desde o pai da nossa literatura moderna, Machado de Assis, ao irônico João Antônio, na prosa; e ao conciso e denso José Paulo Paes, na poesia.

O Bruxo de Cosme Velho tratou do tema, literalmente, em verso e prosa. No poema "Soneto de Natal", encontramos um poeta, em plena Noite Feliz, lutando contra a folha de papel em branco, tentando inutilmente escrever um poema, que morre no primeiro verso ("Mudaria o Matal ou mudei eu?"). E como esquecer do célebre conto "Missa do Galo", em que o narrador, em seus românticos 17 anos, descreve seu diálogo com a trintona D. Conceição, que o hospedava. Surge, após a leitura, uma dúvida: o clima de sedução e de interditos descrito pelo narrador ocorreu de fato ou tudo não passou apenas de fruto da imaginação do rapaz?

Mesma atmosfera dúbia, plena de incerteza e ambigüidades de sentido, é criada pelo modernista Mário de Andrade. Em "O Peru de Natal", estabelece, no cérebro do narrador, a luta entre a ave prestes a ser devorada pela família reunida em volta da mesa, na tradicional ceia, e a imagem que o menino guarda do pai, falecido cinco meses antes da data do nascimento de Jesus. Ler o conto antes da noite de Natal é um convite ao jejum; lê-los depois, pode levar a uma indigestão.

Mas Mario não é o único modernista que se debruçou sobre o Natal. Manuel Bandeira, para muitos o maior poeta brasileiro, escreveu versos em que evoca "o menino que todos os anos na véspera de Natal/ Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta". Poucas e sábias palavras do mestre da pneumonia e do pessimismo irônico e bem-humorado. Afinal, quem é que não volta a ser um pouco criança no Natal com a expectativa de ganhar aquele desejado presente?

Quanto mais se lê sobre o Natal, mais diversificado ele parece. No extremo sul do País, o gaúcho Simões Lopes Neto enfoca o tema, mas o localiza numa estância, com todo o vocabulário e as expressões regionais que o consagraram. E irmãos poéticos por excelência, como Jorge de Lima e Murilo Mendes trataram o Natal cada um a seu modo. Lima evoca o futuro do Menino ("Ó meu Jesus, quando você/ ficar assim maiorzinho/ venha para darmos um passeio/ que eu também gosto das crianças"), enquanto Mendes descreve um Natal com tons surrealistas ("Anjos morenos sobrevoam o mar, os morros e arranha-céus").

Carlos Drummond de Andrade opta por outra vertente. Assim como Machado, enfoca o tema em dois gêneros, em seu caso, crônica e poesia. Curiosamente, em ambos trata do presépio. No texto, enquanto observa atentamente a Sagrada Família e os reis magos, a protagonista pensa em seu amor, Abelardo, que se confunde com a figura de Jesus. Paralelamente, o cigarro de seu amado aparece ardendo na areia do presépio. Já no poema "Os animais do presépio", Os olhos do poeta recaem sobre a vaca, o burro e as ovelhas ("Salve, reino animal:/ todo o peso celeste/ suportas no teu ermo").

Se o presépio do mineiro de Itabira dá destaque à simplicidade dos animais que comparecem na cena sagrada da Natividade, o contista Breno Accioly prefere recordar aquele que arma os presépios. Evoca, para isso, o seu Hermídio, um artesão que construía, na pequena cidade alagoana de Santana do Ipanema, um presépio com figuras madeira que se moviam ao serem depositadas moedas, engolidas "sem cerimônia como um insaciável estômago uivante".

O Natal não se resume ao espaço sacro da ceia, do presépio e dos presentes. João Antônio narra como a festa – ou melhor, a ausência dela – se dá quando um soldado, após bater o caminhão do Exército, além de se ferir, é penalizado a ficar detido no quartel, não podendo visitar a família. Mas o episódio não é melancólico como parece, pois revela a solidariedade um sargento, imbuído do espírito de que Deus fecha uma porta, mas abre uma janela.

Nem todos os artistas nacionais da palavra apresentam essa visão pincelada de otimismo. João Cabral de Melo Neto escreve: "reinaugurando essa criança/ pensam os homens/ reinaugurar a sua vida", numa visão concreta e lúcida da ilusão que cerca o Natal. Visão semelhante tem José Paulo Paes, em "Time is money", "ele não nasceu... não ouvem o galo?/ vamos correndo crucifica-lo!".

Talvez a melhor saída para escapar dos chavões sobre o Natal, no entanto, esteja em repeti-los, como faz Millôr Fernandes, no poema "Saudação natalícia", publicado na revista Senhor, de dezembro de 1963. Em certo momento, diz: "Que seja esse um momento de pura alegria/ de sadia fé/ no largo mundo conflagrado". Mas, após 53 versos, finaliza: "Que tenham todos o mais feliz natal/ cheio de paz e amor". Não será que o poetinha estava certo afinal?

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naìf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

       


       

 
 

 

 

 

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