Naguib
Elias Abdula
Um Guimarães
Rosa das artes visuais
Há
artistas de cunho regional que só podem ser apreendidos com o
conhecimento da realidade que, de alguma maneira, os gerou e embalou.
Outros provém de um caldo cultural universal, com trabalhos que
parecem ser feitos acima de quaisquer variações geográficas. Um
terceiro grupo, no entanto, funde o local e o universal com rara
harmonia.
O mineiro,
brasileiro e universal Guimarães Rosa ilustra esse terceiro tipo de
criador na literatura. Seus jagunços provém do sertão de Minas
Gerais, mas contém os sentimentos mais densos da alma humana, desde
os mais profundos aos mais vis, tudo tratado com inventividade e
inimitável mágica.
A exposição
de Naguib Elias Abdula, intitulada “África – Brasil: um retorno
às raízes”, de 31 de março a 14 de maio de 2003, no Museu de Arte
Contemporânea, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, SP, atinge um
patamar análogo no universo das artes plásticas.
Nascido em
Tete, em 1955, às margens do rio Zambeze, em Moçambique, ele fez
curso de Construção Civil em Maputo, estudou na Sociedade de Belas
Artes de Lisboa, estágio na África do Sul e aprimorou-se em conservação
e restauro de obras de arte na Alemanha.
A partir
de 1975, ano de independência de seu país, inicia uma trajetória
profissional, hoje com mais de uma centena de coletivas nacionais e
internacionais. A primeira individual ocorre em 1986, em Maputo,
gerando um impacto que o leva atualmente a ser embaixador da organização
das Nações Unidas (ONU), com uma arte que expressa e denuncia a
realidade social de seu país, mas sem perder o lirismo e a habilidade
técnica.
Mas
o que existe na obra de Naguib que impressiona tanto? Em primeiro
lugar, uma habilidade de desenhar com liberdade, que lembra os
melhores momentos de Aldemir Martins, quando este foi premiado na
Bienal de Veneza. Há
ousadia e movimento na forma de mostrar, em poucos traços, um músico,
dançarinos e corpos femininos, silhuetas a encantar pela leveza e
graciosidade.
Rostos
e luas que se fundem, predomínio da cor azul, mulheres com diversos
seios e grafismos indígenas constroem uma atmosfera facilmente
identificável como tribal, mas marcada por um lirismo primordial. Não
se trata de uma obra apenas continental, mas universal por expressar o
desejo humano de, por meio da arte, superar limites com o próprio
corpo, seja na pintura, seja no ato da dança.
A
evocação de pinturas rupestres também se faz presente, lembrando a
todo instante que a capacidade humana de criar é ancestral – e
qualquer ilusão de ser absolutamente original não passa de vaidade.
Este sentimento, aliás, se contrapõe à humildade do artista ao
colocar a figura humana recheada de elementos zoomórficos.
Pintas
de galinhas do mato, ancas de girafa e zebra completam corpos
femininos num exercício plástico que demanda uma renovada capacidade
de ver. A presença de árvores, com troncos largos e ramos quase
geometrizados, mesclados com a sensualidade feminina e as mencionadas
pinturas tribais aponta para a capacidade do artista de Moçambique
de se apropriar do passado para construir seu presente pictórico.
Tons
de ocre provém da ligação de Naguib Elias Abdula com a terra, com o
seu universo telúrico, que, no fundo, é de todo ser humano voltado
para o entendimento não só dos arquétipos, no sentido junguiano do
termo, mas principalmente dos símbolos que estão ao seu redor que,
como ocorre com Guimarães Rosa, são tanto mais pessoais quando alcançam
a esfera do universal.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).