por Oscar D'Ambrosio


 

 


Naguib Elias Abdula

 

            Um Guimarães Rosa das artes visuais

 

            Há artistas de cunho regional que só podem ser apreendidos com o conhecimento da realidade que, de alguma maneira, os gerou e embalou. Outros provém de um caldo cultural universal, com trabalhos que parecem ser feitos acima de quaisquer variações geográficas. Um terceiro grupo, no entanto, funde o local e o universal com rara harmonia.

            O mineiro, brasileiro e universal Guimarães Rosa ilustra esse terceiro tipo de criador na literatura. Seus jagunços provém do sertão de Minas Gerais, mas contém os sentimentos mais densos da alma humana, desde os mais profundos aos mais vis, tudo tratado com inventividade e inimitável mágica.

            A exposição de Naguib Elias Abdula, intitulada “África – Brasil: um retorno às raízes”, de 31 de março a 14 de maio de 2003, no Museu de Arte Contemporânea, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, SP, atinge um patamar análogo no universo das artes plásticas.

            Nascido em Tete, em 1955, às margens do rio Zambeze, em Moçambique, ele fez curso de Construção Civil em Maputo, estudou na Sociedade de Belas Artes de Lisboa, estágio na África do Sul e aprimorou-se em conservação e restauro de obras de arte na Alemanha.

            A partir de 1975, ano de independência de seu país, inicia uma trajetória profissional, hoje com mais de uma centena de coletivas nacionais e internacionais. A primeira individual ocorre em 1986, em Maputo, gerando um impacto que o leva atualmente a ser embaixador da organização das Nações Unidas (ONU), com uma arte que expressa e denuncia a realidade social de seu país, mas sem perder o lirismo e a habilidade técnica.

Mas o que existe na obra de Naguib que impressiona tanto? Em primeiro lugar, uma habilidade de desenhar com liberdade, que lembra os melhores momentos de Aldemir Martins, quando este foi premiado na Bienal de Veneza.  Há ousadia e movimento na forma de mostrar, em poucos traços, um músico, dançarinos e corpos femininos, silhuetas a encantar pela leveza e graciosidade.

Rostos e luas que se fundem, predomínio da cor azul, mulheres com diversos seios e grafismos indígenas constroem uma atmosfera facilmente identificável como tribal, mas marcada por um lirismo primordial. Não se trata de uma obra apenas continental, mas universal por expressar o desejo humano de, por meio da arte, superar limites com o próprio corpo, seja na pintura, seja no ato da dança.

A evocação de pinturas rupestres também se faz presente, lembrando a todo instante que a capacidade humana de criar é ancestral – e qualquer ilusão de ser absolutamente original não passa de vaidade. Este sentimento, aliás, se contrapõe à humildade do artista ao colocar a figura humana recheada de elementos zoomórficos.

Pintas de galinhas do mato, ancas de girafa e zebra completam corpos femininos num exercício plástico que demanda uma renovada capacidade de ver. A presença de árvores, com troncos largos e ramos quase geometrizados, mesclados com a sensualidade feminina e as mencionadas pinturas tribais aponta para a capacidade do artista de Moçambique  de se apropriar do passado para construir seu presente pictórico.

Tons de ocre provém da ligação de Naguib Elias Abdula com a terra, com o seu universo telúrico, que, no fundo, é de todo ser humano voltado para o entendimento não só dos arquétipos, no sentido junguiano do termo, mas principalmente dos símbolos que estão ao seu redor que, como ocorre com Guimarães Rosa, são tanto mais pessoais quando alcançam a esfera do universal.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 


Esoterismo de sonhos, saturando marrufeiras
técnica mista sem data

Naguib Elias Abdula

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio