por Oscar D'Ambrosio


 

 


Muzzi

 

            Universo dos símbolos

 

            Um dos maiores fascínios da arte é a capacidade dos símbolos de uma pintura ou escultura gerarem amplos significados, renovados a cada vez que a obra é revista. Desse modo, elementos diversas vezes repetidos começam a construir uma narrativa pela forma como são dispostos pelo criador. 

            O artista plástico Juan Muzzi, uruguaio de ascendência italiana, utiliza alguns símbolos de sua preferência, como um pássaro da cultura indígena Nasca ou uma âncora,  dentro de uma noção de espaço muito peculiar, oriunda, em boa parte, da formação do pintor.

            Entre as suas referências, duas se destacam: o uruguaio Torres-García e Mondrian. Os planos subdivididos e as linhas espessas, horizontais e verticais, que caracterizam a pintura de ambos, estão presentes nas numerosas construções assimétricas de Muzzi.

A arte concreta e construtivista é perceptível de numerosas formas, porém o principal sentido do raciocínio da pintura do artista radicado no Brasil é a maneira como articula sua geometria, criando verdadeiros labirintos de sentidos, em que linhas retas, traços negros que separam as áreas e uso de cores primárias constroem um universo próprio.

            A impermanência do ser humano e a reciclagem  de materiais e de pessoas nas atuais sociedades altamente competitivas é um assunto dos mais ricos na poética visual de Muzzi. Nesse aspecto, um dos elementos comumente utilizados é a imagem de um pássaro, oriundo do deserto de Nasca, que fica ao sul de Lima, Peru.

            A associação desse pássaro com a liberdade é das mais importantes, pois o artista enxerga seu ato criativo como uma forma justamente de abrir fronteiras e de dar ao ser humano aquilo que ele tem de mais importante: o poder de estabelecer elos entre os símbolos para viver cada instante com mais plenitude.

            Seja nas figuras humanas, muitas vezes massificadas e massacradas pelo tempo ou pelo peso do dinheiro, nos relógios, metáfora onipresente do tempo com seu potencial de destruir, mas também de construir possibilidades artísticas e intelectuais,  ou ainda nos barcos e âncoras, expressões das paradas e movimento da vida, Muzzi cria parâmetros dos mais diversos, transformando suas idéias em imagens e sua pintura num fluir de histórias.

            Isso não significa que descuide o fazer artístico em si mesmo. Existe um processo de domínio técnico dos materiais, inclusive com caminhadas pela arte figurativa e algumas interessantes composições de naturezas-mortas. Todavia, lúdico em sua essência, é no momento em que os quadros chamam para uma interpretação mais corpo a corpo, detalhe a detalhe, que seu trabalho cresce.

            Não se trata apenas da temática social, que surge em imagens de peixes, por exemplo, como símbolos da alimentação humana, mas, acima de tudo, de uma forma de conceber o mundo em que a pintura é vista como uma maneira de ação em nome do despertar uma consciência sobre a relatividade do mundo e da condição humana.

            Se somos menos do que um grão de areia na História e muito menos ainda no percurso do universo, a pintura de Juan Muzzi alerta para essa pequenez. Suas alegorias, com recursos narrativos da pintura medieval, e construção pictórica próxima ao construtivismo, nos levam a um novo mundo: o de uma crítica social mesclada com reflexão existencial, ainda melhor quando a pintura se manifesta na forma de espaços geométricos conscientemente delimitados, em que as áreas de branco podem começar a dar um respiro cada vez maior para os símbolos, formas e idéias.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 
 

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óleo sobre tela 2006

Muzzi

 

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