Muzzi
Universo dos símbolos
Um dos maiores fascínios
da arte é a capacidade dos símbolos de uma pintura ou escultura
gerarem amplos significados, renovados a cada vez que a obra é
revista. Desse modo, elementos diversas vezes repetidos começam a
construir uma narrativa pela forma como são dispostos pelo criador.
O artista plástico Juan
Muzzi, uruguaio de ascendência italiana, utiliza alguns símbolos de
sua preferência, como um pássaro da cultura indígena Nasca ou uma
âncora, dentro de uma noção
de espaço muito peculiar, oriunda, em boa parte, da formação do
pintor.
Entre as suas referências,
duas se destacam: o uruguaio Torres-García e Mondrian. Os planos
subdivididos e as linhas espessas, horizontais e verticais, que
caracterizam a pintura de ambos, estão presentes nas numerosas
construções assimétricas de Muzzi.
A
arte concreta e construtivista é perceptível de numerosas formas,
porém o principal sentido do raciocínio da pintura do artista
radicado no Brasil é a maneira como articula sua geometria, criando
verdadeiros labirintos de sentidos, em que linhas retas, traços
negros que separam as áreas e uso de cores primárias constroem um
universo próprio.
A impermanência do ser
humano e a reciclagem de
materiais e de pessoas nas atuais sociedades altamente competitivas é
um assunto dos mais ricos na poética visual de Muzzi. Nesse aspecto,
um dos elementos comumente utilizados é a imagem de um pássaro,
oriundo do deserto de Nasca, que fica ao sul de Lima, Peru.
A associação desse pássaro
com a liberdade é das mais importantes, pois o artista enxerga seu
ato criativo como uma forma justamente de abrir fronteiras e de dar ao
ser humano aquilo que ele tem de mais importante: o poder de
estabelecer elos entre os símbolos para viver cada instante com mais
plenitude.
Seja nas figuras humanas,
muitas vezes massificadas e massacradas pelo tempo ou pelo peso do
dinheiro, nos relógios, metáfora onipresente do tempo com seu
potencial de destruir, mas também de construir possibilidades artísticas
e intelectuais, ou ainda
nos barcos e âncoras, expressões das paradas e movimento da vida,
Muzzi cria parâmetros dos mais diversos, transformando suas idéias
em imagens e sua pintura num fluir de histórias.
Isso não significa que
descuide o fazer artístico em si mesmo. Existe um processo de domínio
técnico dos materiais, inclusive com caminhadas pela arte figurativa
e algumas interessantes composições de naturezas-mortas. Todavia, lúdico
em sua essência, é no momento em que os quadros chamam para uma
interpretação mais corpo a corpo, detalhe a detalhe, que seu
trabalho cresce.
Não se trata apenas da
temática social, que surge em imagens de peixes, por exemplo, como símbolos
da alimentação humana, mas, acima de tudo, de uma forma de conceber
o mundo em que a pintura é vista como uma maneira de ação em nome
do despertar uma consciência sobre a relatividade do mundo e da condição
humana.
Se somos menos do que um
grão de areia na História e muito menos ainda no percurso do
universo, a pintura de Juan Muzzi alerta para essa pequenez. Suas
alegorias, com recursos narrativos da pintura medieval, e construção
pictórica próxima ao construtivismo, nos levam a um novo mundo: o de
uma crítica social mesclada com reflexão existencial, ainda melhor
quando a pintura se manifesta na forma de espaços geométricos
conscientemente delimitados, em que as áreas de branco podem começar
a dar um respiro cada vez maior para os símbolos, formas e idéias.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).