Museu
de Arte Interplanetária
A
arte concreta de seres imaginários
O
escritor francês François Mauriac (1885-1970) dizia que “O
artista é mentiroso, mas a arte é verdade!”. Poucos projetos
contemporâneos mostram isso com tamanha clareza como a exposição
Museu de Arte Interplanetária (MAI), realizada, em junho/julho
de 2005, no Espaço Cultural Blue Life, pelo artista plástico
Rubens Matuck e pelo historiador da ciência Walmir Thomazi
Cardoso.
O
conjunto apresentado é a reunião concreta de trabalhos artísticos
de sete artistas imaginários (Alfred Katz, Bárbara
Lichenstock, Giovanni Castinetti, João Motta Martins, Pierre
Mugnac, Piet Van Acker e Piollo Mathematicalle) a três planetas
(Urupin, Tênebra e Terra).
A
partir dessa ficção, Matuck e Cardoso apresentam um trabalho
refinado, criativo e, acima de tudo, desafiador ao observador
que, além de obras de arte, conta com um catálogo
cuidadosamente concebido e diagramado que permite a entrada num
portal em que a imaginação tem a obrigação de fluir.
A
origem dos planetas
Para
penetrar nesse universo de arte interplanetária, é preciso
resgatar a sua origem. E ela está num dos trabalhos mais
interessantes – e melhor guardados – de Matuck: a história
em quadrinhos de Charles Mogadom criada pelo artista desde a infância
e mantida até hoje.
Foi
nesse diário pessoal preciso que surgiu o Museu de Arte
Interplanetária (MAI), que tem a curadoria do personagem Obda
Leuly, o fundador da cidade de Damar a partir de uma semente,
uma das temáticas fundamentais de Matuck na maioria de seus
trabalhos e muito presente na exposição.
O
projeto dos planetas, de certo modo, já estava na infância de
Matuck, quando, ao brincar com bolinhas de gude, apaixonava-se
pelas suas cores intensas, como vermelho, amarelo e azul, e as
refrações da luz. Foi o escultor Van Acker – homenageado,
como veremos na exposição – um dos pais artísticos do
artista paulista, quem fez, pela primeira vez a analogia entre
essas bolinhas e os planetas do universo.
O
importante é que a idéia dos planetas imaginários estava
desde cedo no cérebro de Rubens Matuck e se efetivou, a partir
de 1996, com a parceria com o físico e historiador da ciência
Walmir Cardoso, neto de artista plástico. Em encontros
semanais, concretizou-se a idéia de que aspectos da obra de
Rubens poderiam se tornar artistas independentes, inclusive com
uma biografia completa.
Autêntico
exercício de desconstrução do ego à Fernando Pessoa, a
primeira exposição sobre o tema, reunindo a viagem a Urupin
dos artistas imaginários, foi montada no Museu de Arte de São
Paulo (MASP), em 1994, sendo que apenas o diretor Fábio Magalhães
sabia que os artistas identificados como autores dos trabalhos
eram apenas ficções criadas por Rubens e Walmir.
A
exposição foi depois montada no Museu de Zoologia da USP, no
SESC Pinheiros e no Espaço Televisão Bandeirantes, em
Presidente Prudente, Interior de São Paulo. A mostra exposta
agora ao público paulista é um passo à frente, pois traz
novos artistas imaginários em sua visita também a mais dois
planetas: Tênebra e a Terra.
Mergulhar
em cada faceta artística de Rubens é o grande desafio ao
visitar a exposição. Cada uma tem características, técnicas
e individualidade próprias. Por isso, o acervo que vemos tem
obras acabadas, em estilos, concepções e linguagens plásticas
totalmente diversos, que funcionam como documentos plásticos
concretos de viagens fictícias de artistas imaginários.
Bárbara
Lichenstock
Nome
criado a partir dos artistas plásticos norte-americanos Bárbara
Hewport, Roy Lichtenstein e Jackson Pollock, Bárbara
Lichenstock é a única mulher do projeto. A biografia inventada
por Rubens e Walmir informa que a escultora nasceu em Chicago
(EUA) e desenvolveu, junto com antropólogos, pesquisas sobre
civilizações extraterrestres já extintas.
O
trabalho realizado por Bárbara em Urupin se baseou na coleta de
pequenos detritos, ovos e cascas de cogumelos, a partir dos
quais formou cenários inusitados. A fascinação desse trabalho
está, além de sua concepção visual, na maneira de apresentação
em caixas museológicas, numa pesquisa muito próxima da
arqueologia.
A
madeira protege os objetos em seu interior e lhes dá uma
atmosfera sagrada, pois os retira do cotidiano. Ganham ali uma
nova dimensão, de registro arqueológico e são uma faceta
bastante evidente do amor de Rubens pelas sementes, um de seus
temas recorrentes e das formas que a natureza originariamente
oferece, sendo muito mais criativa e poderosa em sua
organicidade.
Bárbara
também participou da viagem a Tênebra. Dali resulta um outro
tipo de trabalho. Dialoga com o de Urupin em termos formais,
pois parte daquilo que a natureza oferece, mas, acima de tudo,
destaca-se pela criação de autênticas “moradias” de seres
minúsculos, talvez cupins ou grandes civilizações inimagináveis
para os terráqueos. As esculturas articulam o grande ao pequeno
com espontaneidade.
A
artista também visita a Terra, onde volta a colocar suas
“descobertas estéticas” em caixas. Surgem então objetos
que tanto podem ser os seres de Urupin como os ninhos de Tênebra.
Essa mescla entre a representação do vivo (animal) e seus
rastros (ninhos) vai progressivamente se diluindo. O que resta são
formas encantadoras em caixas sagradas, criações estéticas
indagadoras a perscrutar a nossa mente.
João
Motta Martins
O
personagem brasileiro João Motta Martins, paraense de Altamira,
tem em seu nome três pessoas fundamentais para Rubens: o tipógrafo
João Pereira (que ele conheceu ainda quando aluno da FAU-USP e
a quem homenageou com o nome de uma editora de livros de arte de
elevada qualidade e reduzida tiragem), o historiador de arte Flávio
Motta (professor de Rubens e com quem mantinha longas conversas
sobre história da arte numa perspectiva ampla e humanista) e o
artista plástico Aldemir Martins (chamado por Rubens de seu
“segundo pai” e estimulador do seu trabalho desde a
juventude como ilustrador de jornal e artista plástico).
As
obras de Martins em Urupin também são exibidas em caixas. Há
nelas uma fascinação pela cor que impressiona, principalmente
com algumas misteriosas tonalidades de azul. A biografia imaginária
ressalta a criação de fósseis cerâmicos, que, plasticamente,
expressam formas repletas de estranhamento, mostrando a infinita
capacidade humana de dialogar com a natureza para as construções
mais lindamente disparatadas.
Martins,
ao realizar a sua pesquisa estética em Tênebra, utiliza-se
novamente das caixas. Oferece agora seres aparentemente “mais
vivos”. A expressão pode não ser a mais adequada, mas
expressa como aquilo que se observa ganha uma nova dimensão. Há
agora mais movimento plástico e um convite mais incisivo à
participação do observador.
O
resultado plástico alcançado por Martins, na Terra, local onde
diz ter nascido, são o resultado natural da evolução do seu
trabalho. Das formas mais contidas, passara a uma maior
expressividade, atingindo uma nova etapa: surgem agora animais
que parecem fósseis. Ou serão realmente fósseis? Instaurada a
dúvida inaugural, atinge-se o objetivo maior deste personagem:
suas caixas sagradas dão ao objeto que contém sempre o benefício
artístico da dúvida. Se Bárbara é uma arqueóloga em seu
trabalho plástico, Martins é um naturalista encantado pelos
prazeres das formas de vida.
Piet
Van Acker
O
pintor holandês Piet Mondrian e o citado escultor brasileiro
José Antônio Van Acker são o ponto de partida para se chegar
ao professor da Sorbonne Piet Van Acker, um aquarelista europeu
categorizado como abstracionista informal. Seu objeto de
pesquisa é a luz. Para tanto, as transparências e velaturas
surgem com toda força.
Este
aquarelista é uma das facetas plasticamente mais densas de
Rubens Matuck, mestre da aquarela brasileira principalmente pela
sua inesgotável pesquisa com as cores e pela capacidade de
percebê-las e criá-las pictoricamente. Dentro da lógica biográfica
de registrar as alterações da natureza cósmica do cenário do
percurso até Urupin, o artista tem aqui a oportunidade de
exercer toda a sua capacidade de colorista refinado.
As
nuances de Piet Van Acker, principalmente ao se situar na gama
das cores mais quentes, como vermelho e amarelo, são uma
oportunidade praticamente única de observar um mestre da técnica
colocando o seu grande talento a serviço de uma fantasia estética
que dá uma liberdade simplesmente inimaginável de criação.
As
aquarelas deste personagem são a prova de um trabalho
esteticamente exemplar. Talvez por isso ele não tenha
participado das viagens aos outros planetas. O que fez em sua
jornada para Urupin é completo em si mesmo. Um passo aquém, o
levaria para outra esfera planetária; e um passo além, já o
colocaria em outro diapasão estético.
Trabalho
pleno em sua beleza e densidade, as aquarelas de Piet Van Acker
são o sonho de qualquer artista do gênero. Podem ser
observadas com incômodo, pela profundidade de concepção
visual que oferecem, e deleite, pelo impacto estético que
propiciam. Têm aquela qualidade intrínseca dos grandes
trabalhos. Parecem ter sido feitas com simplicidade, mas são o
resultado de anos de pesquisa e muito prazer em sua execução.
Alfred
Katz
Homenagem
ao intelectual Alfredo Mesquita, um dos grandes incentivadores
da carreira de Rubens Matuck, e da artista plástica Renina
Katz, professora e mestra do artista, o alemão Alfred Katz é
considerado um exo-expressionista, ou seja, um expressionista do
espaço.
Temos
aqui a expressão plástica de outro aspecto muito forte em
Matuck: as grisalhas, gênero de pintura em que o grande desafio
é obter efeitos cromáticos apurados a partir do jogo entre o
branco e o preto. O fascinante é que estes trabalhos foram
todos feitos com a mão esquerda, o que obrigou o artista a um
grande esforço mental e físico. Provavelmente por isso, ele
faleceu durante a expedição a Urupin.
Mesmo
quando Katz se utiliza de outras cores que não sejam o branco e
o preto (o amarelo, por exemplo), é o uso daquelas cores que
encanta. A obscuridade presente nesse trabalho contrasta com a
luminosidade de Van Acker. Fica assim notório como os
personagens de Rubens e Walmir interagem e se complementam.
Se
as caixas de Bárbara e Martins apresentam como vimos,
respectivamente, mais e menos
“vida”, os resultados plásticos das aquarelas de Van
Acker e Katz trabalham, analogamente, com mais e menos
“luz”. A conjunção dos quatro formaria um artista plástico
que não existe, ou melhor, que os contém, Rubens Matuck
Pierre
Mugnac
Criado
a partir dos nomes dos pintores Pierre-Auguste Renoir,
Bartolomeu Esteban Murillo e Paul Signac, o personagem Pierre
Mugnac tem como meta o estudo da cor. Sua biografia informa que
este artista europeu valoriza a tecnologia, sendo criador da máquina
Triform, que praticamente elimina as barreiras entre macro e
micro, artístico e científico, e geométrico e orgânico.
Buscaria, portanto, um novo paradigma visual e cromático,
registrando sinais eletromagnéticos em suas aquarelas.
Apresentadas
em uma grande caixa, as aquarelas de Mugnac surgem na forma de
cadernos fascinantes. Quando volta de Urupin, o que traz de lá
é a sua experiência com a cor. Tons de vermelho, azul, amarelo
e verde surgem com grande intensidade. Não há a leveza do
lirismo de Van Acker ou a dramaticidade trágica de Katz. Surge
sim um jovial trabalho com a cor que retoma, em grande parte, as
experiências que Rubens fazia, ainda criança, ao brincar com
as diversas possibilidades que as cores lhe ofereciam.
A
liberdade e o impacto visual de Mugnac conquista à primeira
vista. O fascínio é pela capacidade de se valer de cores
plenas, intensas, nas quais a expressividade fala muito alto.
Afinal, este personagem expressa um dos grandes conceitos
existenciais de Matuck: a diluição das fronteiras e dicotomias
rígidas estabelecidas pela sociedade entre as suas mais
diversas atividades.
Em
Mugnac não há arte ou ciência separadamente. Elas de mesclam.
O mesmo ocorre com as dimensões. Os trabalhos não são grandes
em termos de dimensão, mas isso não lhes reduz a intensidade,
pois poderiam perfeitamente ser amplos sem perda de sua
potencialidade estética. Há neles, acima de tudo, um profundo
encantamento visual, tão poderoso que talvez tenha levado
Rubens e Walmir a deixar também este artista fora das outras
viagens.
Giovanni
Castinetti
Para
a viagem à Terra, é criado o personagem Giovanni Castinetti.
Mescla dos artistas Giovanni Factori, Castagneto e Fachinetti,
é um imigrante italiano radicado no Rio de Janeiro. Pinta as
paisagens locais em óleo sobre painéis de madeira. Sabemos
ainda que sua paixão são os ícones bizantinos e seu ponto
alto está na pintura de árvores.
Castinetti
é a mais recente representação do rico universo mental de
Rubens como artista plástico. Ele vem ultimamente se debruçando
justamente sobre a arte dos ícones e desenvolve, já há algum
tempo, um trabalho de pintura sobre árvores de rara beleza e
impacto plástico.
As
imagens do terráqueo Castinetti das árvores são sombrias e
apaixonadas declarações de amor à vida. Realizadas com técnica
apurada, mostram um artista de intensa maturidade visual. É um
trabalho estético que conjuga as referências anteriores no
sentido de trabalhar um referente concreto, no caso, a árvores,
e lhe oferecer um paradigma de elevada elaboração poética.
Este
artista é um dos que está hoje mais próximo do cotidiano de
Rubens. Traz consigo a maturidade dos anos de aprendizado de prática
com a pintura e a
convicção de que o tema representado é menos importante do
que o trabalho a ser feito. Nessa linha, o como se faz
ultrapassa, em muito, o que é feito. E, para atingir essa
consciência, torna-se essencial, ter claro que ser artista é o
resultado de um esforço de aprimoramento constante.
P100LL0
M4TH3M4T1C4LL3
O próprio nome já
mostra que se trata de uma mescla entre artista plástico e
matemático. Criado para a visita a Tênebra, realiza de grandes
esculturas tridimensionais a um painel em tons de cinza. A
diversidade de seu trabalho é um lado muito presente na obra do
próprio Rubens, que atua com a mesma desenvoltura no trato com
a madeira ou com tinta sobre linho.
Seja nas esculturas
de maiores proporções ou no cuidado e minúcia de desenvolver
um estudo de cor com delicado impacto, P100LL0 mostra como um
mesmo artista pode ter diversas expressões artísticas que se
integram. Esse, aliás, é o segredo que orienta a filosofia do
Museu de Arte Interplanetária.
P10LL0, ao integrar
números e letras, oferece a visualização plena do projeto de
Rubens e Walmir. Seu nome tem números, mas a sua obra está
plena de humanidade. Em contrapartida, esta se associa com a
capacidade de cada artista de compor trabalhos por meio da
racionalização, ordenando, pela prática e pesquisa, a verve
criativa de cada vertente imaginativa.
O Catálogo
O catálogo criado
para a exposição merece alguns comentários particulares, pois
integra-se, com felicidade, no espírito ficcional proposto.
Temos desde a criação de um carimbo para o Museu (o símbolo
da exposição no Masp lembrava a bandeira do Estado de Minas
Gerais) até uma diagramação ousada,com jogos gráficos com
diversas cores, tipos e formas de letras.
Os textos são uma
expressão particularizada, percebendo-se neles, de maneira
marcante, o pensamento de Walmir naquilo que diz respeito às
informações técnicas sobre os planetas visitados pelos
artistas imaginários. Há inclusive a presença de um conselho
consultivo do MAI e seus personagens, muitos presentes na história
em quadrinhos de Mogadom já mencionada, recebem, no Espaço
Cultural Blue Life, uma sala, onde as suas imagens, trabalhos plásticos
de Rubens, estão penduradas na parede.
É também no catálogo
que aprendemos que as viagens foram realizadas na nave Nêmesis,
significativamente um nome grego associado ao destino. Seu
modelo é uma das esculturas mais impressionantes da exposição.
Trata-se de uma peça em madeira de um lirismo ímpar, onde o
talento de Rubens Matuck como entalhador se faz presente em toda
a plenitude
A leitura do
livro/catálogo de 62 páginas, portanto, é importante para uma
melhor visualização da exposição, mas não essencial, no
sentido de que os trabalhos plásticos de Rubens valem por si
mesmos em sua expressão enquanto obras de arte. Isso significa
que a exposição pode ser absorvida de duas maneiras: como
projeto dos dois criadores, no afã de personagens visitantes de
planetas, ou como um conjunto de trabalhos de um artista
multifacetado num exercício surpreendente de exercício bi e
tridimensional.
A
sublime mentira como verdade
O
Museu de Arte Interplanetária existente na história em
quadrinhos de Charles Mogadom ganha, com o projeto de visita aos
planetas, uma dimensão mais abrangente. Ao utilizarem o
processo da heteronímia, ou seja, a criação de artistas com
biografias, personalidades e obras diferenciadas, Rubens Matuck
e Walmir Cardoso assumem um grande desafio visual.
Os
personagens, cujos nome são criados a partir de artistas,
professores e outros profissionais admirados por Rubens Matuck são
parte da memória afetiva do artista. Bárbara Lichenstock,
apresenta seu amor pela arqueologia, pela exploração e pela
acumulação; João Mota Martins; pela biologia e pelas
potencialidades da natureza em oferecer formas e cores; Alfred
Katz, a paixão pelas grisalhas; Piet Van Acker, a dedicação
à aquarela como linguagem da cor, da transparência e da
velatura; Piere Mugnac, pelo amor aos cadernos de viagens e pela
pesquisa constante e pela derrubada de limites entre a
“verdade e a “mentira”; Giovanni Castinetti, pela paixão
pelas árvores enquanto tema e pela sua exploração técnica
apurada; e P10LL0 MA4TH3MAT1C4LL3, pela versatilidade, que
aponta para a própria infinita capacidade de divisões
criativas de Rubens, do escultórico ao pictórico sem perder a
coerência que o une: a qualidade estética de um projeto
arquitetonicamente concebido com ludismo majestoso.
A
mesma paixão que levava Rubens a brincar de explorador quando
criança o levou a se apaixonar pelas borboletas que colecionava
em caixas. Posteriormente, o amor pelo branco e pelo negro e
pelas outras cores o leva a pesquisar a potencialidade técnica
de diversos materiais (do lápis de cor a tinta a óleo).
Nesse
processo, arte e ciência se aproximam, como bem mostra
genialidade de Leonardo da Vinci, uma das principais admirações
do artista. Assim, o trabalho artístico de Rubens com as árvores
é o resultado da pesquisa estética junto ao conhecimento técnico.
Assim, torna-se um artista completo que trata coma madeira ou
com diversos tipos de superfície com mesmo primoroso resultado.
Matuck
“multiplica-se”, portanto, em outros para se manter fiel a
si mesmo, com uma produção versátil, bem-humorada, muito próxima
do lúdico infantil e, ao mesmo tempo, caracterizada por uma
extrema responsabilidade sobre o que significa a arte e ser
artista. Como apontava Mauriac, Rubens, em seus artistas imaginários
e planetas fantásticos, torna-se um sublime mentiroso e, ao
atingir esse ponto, mostra-nos a grande verdade de sua arte
interplanetária, mas oriunda de uma mesma mente.
Contemplar
essa arte reunida no MAI é
como olhar um planeta ou uma estrela num telescópio. Exige atenção
constante, esforço para que ela não saia do foco e,
principalmente, mergulho pleno em cada instante dedicado a essa
atividade. Só assim pode-se ter uma visão mais precisa,
proveitosa e densa daquilo que se observa.
Prazer
estético e reflexão crítica caminham então de mãos dadas.
Em certos momentos, perscrutam-se nos olhos; em outros, fitam a
mesma direção. Em ambas situações, a arte fala mais alto
enquanto realização plena e o artista mente e sorri com a
sinceridade de quem troca de máscaras constantemente e oferece
o melhor de si ao visitante do MAI.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte
de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).