por Oscar D'Ambrosio


 

 


Mural Santos Dumont, de Yara Tupynambá

 

            Inventor, construtor e piloto do 14 Bis, primeiro aparelho mais pesado que o ar que, em 1906, voou publicamente, o aviador brasileiro Alberto Santos Dumont (1873 – 1932) é muito mais que um aeronauta. Tornou-se um ícone da conquista dos céus pelo homem. Percorreu uma trajetória romanesca, consagrando-se como um marco no desenvolvimento da aviação.

            Ao criar o muralSantos Dumont, o sonho de voar”, em acrílica sobre tela, com dimensões de 2,60 x 14 m, no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, Estado de Minas Gerais, a artista plástica mineira Yara Tupynambá destaca a faceta humana do inventor.

            Isso fica evidente logo na primeira imagem, no canto superior esquerdo, onde surge a representação de Ícaro, o mítico personagem que morreu afogado no marque hoje leva o seu nome –, tendo ali caído após ter se aproximado demais do sol, ação que levou ao derretimento da cera que mantinha unidas as penas que estruturavam as asas construídas pelo seu pai Dédalo.

            O mal de Ícaro foi não ter respeitado as palavras paternas, que o haviam alertado para não se aproximar em demasia do sol ou da água do mar, pois, respectivamente, o calor e o sal destruiriam as suas asas. Em contrapartida, o espírito empreendedor de Santos Dumont o levou sempre a enfrentar e vencer desafios cada vez maiores.

            Divulgador do uso por civis do relógio de pulso, criador de uma casa ímpar em Petrópolis, RJ, e amargurado com o uso do avião na Primeira Guerra Mundial, Dumont enfrenta até hoje resistência dos norte-americanos, pois muitos atribuem a invenção do avião aos irmãos Wright.

            O essencial do mural de Yara está em captar, seja em alguns elementos biográficos, como a Fazenda de Cabangu, onde nasceu, em objetos pessoais, como o chapéu de abas largas,  a sua marca registrada, e nos  numerosos balões e aviões que construiu, quem foi Santos Dumont.

O desafio era expressar a história do homem que venceu o ar. Com sutis cores  e transparências, as conquistas de Dumont ganham espaço no mural, principalmente na descrição da região de Lagoa Santa, onde fica hoje o Aeroporto, e nas imagens de Dumont criança brincando com pipas.

            Seja no dirigível número 6, no número 9, no mencionado 14 Bis ou no projeto do Demoiselle, Dumont exala capacidade de empreender. Seus mais de 20 balões livres, dirigíveis, monoplanos e biplanos que planejou, construiu e experimentou entre 1898 e 1909, em Paris, passaram para a história como um hino à criatividade.

            O mural parte do sonho de voar que acompanha o homemséculos. Percorre o interior de Minas, passa pelas suas conquistas em Paris e termina com uma imagem que alude, na posição e na simbologia a São Francisco de Assis, que surge na iconografia geralmente rodeado por pássaros. Tudo regido pelo delicado tom de azul do céu.

            Lirismo e delicadeza se mesclam na homenagem a Santos Dumont. O construtor de aviões é reconstruído pela artista, numa jornada imagética que mostra como cada projeto do aviador foi um gigantesco avanço para a humanidade, tanto na ousadia como na inventividade.

Analogamente, guardando as devidas proporções, o mural de Yara Tupynambá, em cada pincelada, é um importante passo em sua carreira para o desenvolvimento de novas obras de grandes proporções homenageando baluartes das Minas Gerais que tanto ama e tão bem representa no cenário nacional das artes plásticas.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

           

 

 

 



 

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