por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

 

   Mulher no banho, de Edgar Degas

 

            Edgar Degas (1834-1917) nasceu e morreu em Paris e foi gravurista, pintor e escultor. Embora seja muito conhecido pelas suas pinturas consideradas impressionistas, não adotava as cores do movimento. Misturava os estilos, somando elementos do seu momento histórico com a Renascença italiana e o Realismo francês.

Adorava o cotidiano e pintou suas célebres bailarinas. Em Mulher no banho, ao ver a banhista, é possível captar toda a atmosfera do interior de uma casa. Há uma enorme delicadeza e sutileza no trabalho. A  sensação que temos é a que estamos ao lado da mulher, vivenciando a sua existência. Feita com a técnica do pastel sobre papel, de grande dificuldade e beleza, a obra encanta por mostrar como o momento mais simples pode se tornar uma obra de grande qualidade.

 

A individualidade romântica

Embora ligado aos impressionistas franceses, Degas, em suas obras com tinta a óleo e com pastel, diversas vezes preferiu lidar com emoções individuais, invadindo, de certa forma, a privacidade da alma feminina em cenas de banhistas e de bailarinas que o consagraram como um conhecedor técnico e sensível da alma humana.

 

O amor ao cotidiano

Se esse amor pelo indivíduo se vincula ao romantismo, há nele um outro aspecto que o aproxima desse pensamento que é o amor pelo cotidiano. As cenas de ensaio de bailarinas ou os momentos que antecedem a largada de corridas de cavalo são expressões concretas da busca de uma linguagem que não era a de temas grandiloqüentes, mas de extrema suavidade no ato de captar emoções e sentimentos.

 

A fascinação da linha

Degas buscou conhecer pessoalmente e admirava o artista francês Ingres. Encontrou nele um grande defensor da linha como uma forma plástica de pensar a obra de arte. Isso pode ser observado na maneira como ocorre a ocupação do espaço, com contornos bem definidos e com a construção de ambientes, como o das salas de ensaio da Ópera de Paris, onde a discussão arquitetônica nunca é totalmente abandonada.

 

O paradoxo da cegueira

A partir de 1870, o artista francês começa a ter uma piora na qualidade de sua  visão – e isso se torna ainda mais marcante após 1880. Ocorre então uma progressiva passagem para a técnica do pastel que, ao contrário do óleo, demanda uma menor exatidão na construção das imagens, até por ser mais maleável no trato plástico. Essa elação com a perda da visão evoca dois mestres da literatura mundial: o argentino Jorge Luis Borges, que tornou a cegueira um dos temas de sua escrita; e o brasileiro João Cabral de Melo Neto que, por considerar que a disposição das palavras no branco da página era essencial em sua produção, parou de escrever ao perder a visão. Além deles, o português José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira, discute como uma sociedade sem visão externa pode perder a visão interna do mundo.

 

O reino interior

Ao contrário dos impressionistas, Degas não gostava de pintar ao ar livre. Preferia o universo do interior do ateliê. É ali que cristalizava as anotações que fazia e construía suas visões de mundo a partir das múltiplas observações que realizava seja na Ópera de Paris, nas corridas de cavalos ou na anatomia dos corpos e na atmosfera de um intimista banho feminino.

 

O Urso

Conhecido pelos amigos como o Urso, o artista vivia retraído, não se casou e afirmava que o trabalho era o objeto de sua devoção total. De qualquer modo, teve uma intensa produção, principalmente após a morte do pai, quando, pela primeira vez, imerso nas dívidas herdadas, passou a ter a necessidade de viver exclusivamente de seu fazer artístico.

 

O pastel

Técnica que permite pintar com menos detalhes e mais rapidez, o pastel atendeu muito bem o potencial plástico de Degas. Organizador de diversos Salões dos Impressionistas, ele expôs uma série de dez imagens no último deles, em 1866, produzidas nos dois últimos anos. Era um conjunto de nus femininos que o consagrou definitivamente como um mestre do gênero. Posteriormente, pelos mesmos motivos de saúde apontados, passou a fazer esculturas, onde soube trabalhar com maestria o assunto da leveza do movimento das bailarinas.

 

Imagens cortadas

Uma das características mais marcantes das criações de Degas está no fato de ele conceber, certamente influenciado pela fotografia, imagens como se fossem flagrantes. Nos instantes que antecedem as corridas de cavalos, postes surgem dividindo o espaço em áreas. Ao lidar com bailarinas ou banhistas, não raro partes do corpo são suprimidas e ficam fora da tela, transmitindo a sensação de que um instante foi captado, num processo que dá a cada criação frescor e espontaneidade, resultados, ao contrário do que parece, de intenso trabalho técnico e de pesquisa.

 

Incentivo a jovens

Embora conhecido como o Urso, Degas incentivou alguns jovens artistas a desenvolverem o seu trabalho. O principal foi Tolouse-Lautrec, o célebre boêmio que, assim como Degas atuava em ambientes fechados e tinha uma predileção pela construção de imagens com artistas e bêbados dos cabarés de  Paris. A predileção pó captar momentos de uma maneira aparentemente descompromissada aproximava os dois.

 

Poucos assuntos

O universo de temas enfocados por Degas foi  limitado. Isso não o impediu, porém, de instaurar uma poética muito pessoal. Assim como o italiano Morandi praticamente pintou apenas garrafas e Cézanne dedicou boa parte de sua obra a uma mesma montanha, o criador da Mulher no banho fez uma trajetória de poucos temas. Com suas banhistas delicadas, em encantadoras posições e nuances cromáticas; bailarinas em momentos de ensaio, tensas e concentradas; e jóqueis, com fardas inventadas para obter os mais elaborados jogos cromáticos possíveis, ergueu uma obra que comprova que o talento não está naquilo que se pinta, mas na forma de fazê-lo.   

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

 

 

 

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