Mulher,
o vir-a ser pela arte
A exposição
“Sentidos de Eva”, da artista plástica Glaucia Gomes, que
ocorre de 7 a 31 de março de 2006, na Câmara Municipal de
Santa Bárbara d’Oeste, SP,
evoca a célebre frase de Mário de Andrade: “Acho a
mulher o mais incomparável vir-a-ser que tem neste mundo”.
O
escritor paulista acertou mais uma vez. Por meio da arte, como
comprovam as imagens da artista nascida em Americana, SP,
diversas mulheres brasileiras atingiram o que há de melhor em
termos artísticos. Nos trabalhos de Glaucia, as mulheres,
jovens e velhas, surgem conversando, caminhando e dançando com
tosa sensualidade.
Dia
8 de março, Dia Internacional da Mulher, primeiro dia da exposição
após abertura, é
uma excelente oportunidade para refletir sobre a importância de
alguma delas para a cultura nacional, principalmente no que diz
respeito à valorização de um poder que não está em coroas
de rainha ou em honoríficos cargos públicos, mas em atitudes.
Nessa
ótica, uma das mulheres mais importantes na cultura nacional é
a escritora Clarice Lispector (1920-77). Em novelas como Água
Viva e clássicos
como A hora da estrela,
levado ao cinema pela excelente cineasta Suzana Amaral, sua
prosa alcançou um nível inigualável de mergulho na densidade
da alma feminina.
Se
Clarice espelha a faceta mais filosófica dessa alma, o
cotidiano do trabalho pode ser encontrado nas mágicas palavras
de Cora Coralina (1889-1985). A poeta goiana
publicou a primeira obra aos 75 anos, estudou apenas até o
terceiro ano primário e se tornou a primeira mulher a ganhar o
conceituado Prêmio Juca Pato, da União Brasileira de
Escritores, em 1983.
Ainda
na literatura, é impossível esquecer Rachel de Queiroz.
Nascida em 1919, estreou aos 16 anos e, aos 19, publicou O
Quinze, livro que a tornou a primeira dama da literatura
brasileira. Obras como essa e Memorial
de Maria Moura a consagraram como a primeira mulher a ser
eleita para a Academia Brasileira de Letras, em 1977.
A
mesma irreverência de Raquel pode ser encontrada na vida e nas
partituras de Chiquinha Gonzaga (1847-1935). Após dois
casamentos infelizes, passou a dar aulas de piano para
sobreviver e, em 1885, estreou como a primeira maestrina do
Brasil, com a opereta A
corte na roça. Compositora e pianista, conseguiu o que
parecia impossível: sobreviver de música no Brasil no século
XIX.
E se
falar de arte significa coragem, duas grandes pintoras, Anita
Malfatti (1889-1964) e Tarsila do Amaral (1886-1973) seguiram
trajetórias opostas. A primeira estudou em Paris, Berlim e Nova
York, voltando ao Brasil com um estilo marcado pela influência
das cores quentes e do expressionismo europeu. Influenciou assim
a Semana de Arte Moderna de 1922, mas, arrasada por uma célebre
crítica de Monteiro Lobato, perdeu sua espontaneidade inicial e
foi se recolhendo até uma morte quase despercebida.
Tarsila
do Amaral seguiu o caminho contrário. Conheceu a arte moderna
no Brasil, viajou para o exterior e, ao lado do marido
Oswald de Andrade, lançou a Antropofagia, vertente modernista
que pregava deglutir os valores da arte nacional em nome das
manifestações nacionais, como a cultura indígena e as cores
verde e amarelo, presentes em um de seus quadros mais famosos, o
Abaporu.
Ao
falar de quadros, uma referência obrigatória é o Museu de
Arte de São Paulo, o MASP, cuja arquiteta foi uma mulher, Lina
Bo Bardi (1914-1992). Italiana de nascimento, veio para o
Brasil, em 1946, com o marido Pietro Maria Bardi e foi a responsável
pelo célebre vão livre de 78 metros, que encanta, fascina e
desafia o olhar de todos os moradores e visitantes da cidade,
com uma notável mistura de beleza e sobriedade.
A
arte brasileira tem ainda mulheres de grande esplendor em
diversas outras manifestações. As bailarinas Márcia Haydée
(1937) e Ana Botafogo (1957) representam duas gerações de
leveza com as sapatilhas, enquanto a cantora lírica Bidu Sayão
(1906-1999) sempre foi mais respeitada no exterior do que por
aqui.
Isso
sem falar no teatro. Se os mais novos ainda têm o privilégio
de poder ver Fernanda Montenegro (1930) em cena, tem que se
contentar com os poucos registros visuais das atuações do mito
Cacilda Becker (1921-1969). Em compensação, a mais brasileira
das portuguesas, Carmen Miranda (1909-1955), teve seu humor,
sensualidade e trejeitos registrados para sempre durante 15 anos
de uma sólida carreira em Hollywood.
A
lista poderia não terminar nunca, mas nos deixa com uma grande
certeza. O potencial feminino de que nos falava Mário de
Andrade se realizou plenamente. Na frondosa árvore de talentos
chamada Brasil, as mulheres têm seu lugar assegurado,
oferecendo frutos da melhor qualidade. Nas artes de escrever,
pintar, compor ou representar, o “vir-a-ser” do escritor
paulistano se realiza num ser que caminha para a imortalidade.
As
mulheres de Glaucia Gomes, nesse contexto, mostram os sentidos
de Eva, mulher primeira que, em seu âmago, guarda as principais
características das mulheres citadas neste texto,
principalmente o desejo de se superar constantemente,
tornando-se, a partir da bíblica costela de Adão, o esteio e
suporte de uma civilização.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a
arte de Cláudio Tozzi e Contando
a arte de Rubens Matuck (Noovha América) e Os pincéis
de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).