María Teresa Bobbio
Busca do paraíso perdido
"É a imaginação, tocha divina presa ao espírito do homem,
que lhe permite mover-se nas trevas da criação". Quando
pronunciou estas palavras, em Pensées Détachés et Souvenirs, o
político diplomata e historiador brasileiro Joaquim Nabuco
(1849-1910) nunca ouvira falar da pintora naïf argentina Maria
Teresa Bobbio, mas as palavras do intelectual brasileiro definem o
que move a obra pictórica da artista: o poder de construir
imagens poderosas e belas a partir de situações fantásticas e
impossíveis sob o crivo da razão, mas perfeitamente verdadeiras
em sua coerência interna.
Nascida em La Plata, capital da província de Buenos Aires, em
1946, Maria Teresa começou a pintar em 1985, movida por uma
poderosa força interior, que a levou a expressar suas visões
particulares do mundo de uma forma bastante particular, que
dialoga bastante com a arte naïf européia, principalmente a
francesa e a do Leste Europeu.
Quadros de Maria Teresa, como Paraíso Terrenal, evocam as imagens
já clássicas de Henri Rousseau, o pai dos naïfs, estabelecendo
um clima fantástico que conquista os olhos do observador pelo
poder mágico de suas cores. Traços finos e delicados auxiliam a
criar essa atmosfera de irrealidade mágica e encantamento.
Perguntada sobre seu fazer artístico, ela fixa, em imagens,
sonhos coletivos. Suas telas funcionam como intermediárias entre
Deus e os homens, sendo verdadeiros atos de criação. "A
arte surge do campo anímico da inocência e da simplicidade, que
é, dentro da ingenuidade, um prazer infantil de descobrir o
mundo, arrastando um grande realismo que não busca um
enfrentamento com as formas dos objetos, mas a essência delas
mesmas", afirma.
A artista considera o crítico argentino César Magrini, autor de
La pintura ingenua Argentina (Ediciones Arte Al Dia, 1998), um de
seus principais incentivadores. Ao discorrer sobre a obra dela, o
intelectual diz: "Ela transporta para suas telas uma
misteriosa alquimia interior, que resulta em unicórnios de
fábula, bosques de tapeçarias, araras de ouro travando diálogos
ocultos, pradarias que emocionam, que trazem a lembrança visual
de Van Gogh, frutos do paraíso, cuja colheita é feita por anjos
em bosques também paradisíacos".
De fato, como aponta Magrini, os temas preferidos de Maria Teresa
são Adão e Eva, visível em quadros como El pecado aún no se
instalo, Nocturno en el Paraíso ou Paraíso nocturno; arcas de
Noé, campos, selvas, como Descansando e o mencionado Paraíso
Terrenal, natividades e homenagens a pintores impressionistas.
Aparecem ainda diversas imagens de unicórnios, como El bosque y
el unicórnio.
Todo esse conjunto de imagens mostram geralmente paisagens em que
os homens ou animais não são os protagonistas. Eles compõem o
ambiente. São acessórios de um mundo apresentado em harmonia,
equilibrado, pacífico, enfim, agradável para se viver. As
imagens impressionam ao serem contrastadas com as grandes cidades
contemporâneas, em que mal há espaço para respirar e caminhar
em sossego.
Um quadro que evidencia esse amor da artista pela paz de espírito
é De Edam a Amsterdam, em que retrata uma calma paisagem
holandesa com moinhos de vento, caminhos e casas agradáveis.
Constitui assim um paraíso terrestre de equilíbrio e harmonia.
"Cristalina e sonhadora é Maria Teresa Bobbio; e, assim,
maravilhosa e cativante é toda sua irresistível pintura,
síntese plural de inocência, pureza, delicadeza e transparência
de espírito, tudo isso brotando desde a doce fonte do
coração", conclui Magrini.
Formada em Relações Públicas, a artista é uma autêntica
andarilha. Conhece a Argentina de norte a sul e de leste a oeste,
além dos EUA, Brasil, Chile, Lima, Bolívia e Venezuela. Talvez
por isso sua obra seja tão universal, sem traços regionalistas
que a identifiquem como Argentina. Essa tendência se confirma
pelos diversos prêmios que recebeu, principalmente na França,
onde apresenta trabalhos regularmente desde 1992.
No entanto, em meio a essa pintura sem pátria, digna de uma
autêntica cidadã do mundo, Maria Teresa revela notas
autobiográficas, como os quadros em que coloca seus netos como
protagonistas. Alguns deles, dedicados ao neto, Félix Bobbio já
estavam terminados no dia do nascimento da criança, 25 de
dezembro de 1999, em pleno Natal. Há ainda trabalhos dedicados a
Rufino, o neto mais velho, em que ele divide o espaço da tela com
o unicórnio, tema recorrente na obra da artista plástica
argentina.
María Teresa também já fez mais de uma centena de cartões de
Natal, além de ser fundadora do Museu Argentino de Arte Naïf de
Esquel, Chubut, Argentina, e de integrar a Associação Amigos de
Arte Naïf e o Museum of American-Folk Art, em Nova York. O seu
currículo, inclui ainda uma mostra na Quinta Presidencial de
Olivos, residência do presidente da Argentina; e seus quadros
integram o acervo de colecionadores nos EUA, Bélgica, França,
Venezuela, Uruguai e do Patrimônio Nacional do Honorável Senado
da Casa Argentina, em Roma (Itália).
Inocência e simplicidade, embora sejam bastante utilizados pela
crítica para definir o trabalho de Maria Teresa, não dão uma
exata dimensão do seu trabalho. Magrini o define como "um
hino à beleza e um cântico à nobreza da criação". Há,
porém nela muito mais do que isso. Suas telas mergulham no
começo do mundo e da história da humanidade como à caça de um
passado perdido de beleza primordial ou em busca da recuperação
poética, num futuro incerto, do estado de graça que a humanidade
viveu um dia.
Joaquim Nabuco, ao refletir sobre a imaginação, diz ainda:
"Os peixes das profundezas oceânicas trazem um facho que os
ilumina na noite eterna. Sem isto, para que lhe serviriam os
olhos? Sem a imaginação, que utilidade teria para o homem a
inteligência?", indaga.
De fato, a arte de Bobbio leva a esse tipo de reflexão, pois seus
quadros priorizam a criatividade à razão e à imitação do
real. Exigem, portanto, o poder da inteligência para avaliar
melhor o infinito potencial criador da artista. Suas imagens são
assim o resultado da procura consciente de um paraíso perdido, um
lugar que não conhecemos, mas no qual ansiamos estar para o resto
de nossas vidas.
Oscar D'Ambrosio é jornalista,
crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do
pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).