por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Salão de Artes Plásticas de Monte Aprazível

 

            A cidade de Monte Aprazível, próxima a São José do Rio Preto, Interior de São Paulo, realizou, de 24 de maio a 10 de junho, seu 1º Salão de Artes Plásticas, com a participação de 24 artistas, numa grande variedade de estilos e de abordagens do objeto artístico.

            Desse conjunto, aproveitando o clima de Copa do Mundo, realizamos uma seleção de 11 artistas – uma autêntica seleção de tintas. Destacamos a qualidade técnica dos oito primeiros e a possibilidade de apresentação de trabalhos mais bem realizados dos três últimos.

O essencial é que todos busquem um compromisso cada vez melhor com a qualidade do seu trabalho, ainda mais levando-se em consideração a dificuldade inerente de ser artista plástico no Brasil e, principalmente, numa cidade do Interior, distante da Capital do Estado.

            Começamos com Aparecida Bento de Andrade, que, impressiona pela simplicidade de seus traços. Suas figuras alongadas realizam a proposta estética de instaurar dramaticidade e leveza numa temática como o garimpo, que, embora, já bastante retratada, ganha uma visão indagadora e quase mítica.

            Elcio Padovez consegue, em Maria Madalena, uma excelente fusão entre o surrealismo e formas mais ousadas de arte contemporânea. Ao trabalhar com imagens próximas a Salvador Dalí e riqueza de texturas, oferece ao espectador uma curiosa e indagadora combinação de imagem feminina, com foice, parafusos, porcas e ruelas.

            José Walmir Lafene, ao retratar uma imagem de retirantes da seca, evoca diretamente Vida secas, de Graciliano Ramos. A parte inferior da tela é trabalhada de forma bastante original em termos de textura e cor, enquanto a superior oferece uma visão singela, mas precisa, do universo daqueles que abandonam a terra árida em busca de melhores condições de vida.

Régia Zoccal em sua arte abstrata, consegue um grande resultado em Metamorfoses. O jogo de cores oscilante entre o verde e o vermelho e uma textura muito peculiar provocam impacto e despertam o desejo de conhecer mais trabalhos que consigam integrar cromatismos diversificados com riqueza de composição de diversas formas.

            Sonia Canheo, com seu estilo primitivista, em Moinho São José, dá uma rica visão do Interior paulista. Uma multiplicidade de figuras dialoga entre si com extrema delicadeza, mostrando a riqueza das plantações e a interação entre os diversos elementos que compõem o universo que ela retrata.

            Sueli Perezi, em Campo florido, trabalha já com uma estética impressionista com grande influência de Monet. A intensidade das cores é o ponto principal de uma composição em que se observa o domínio técnico do ofício de artista plástico e a busca  constante por soluções que geram uma tela harmônica e equilibrada.

            Tânia Colnaghi, com A artesã, é uma grata surpresa pelo uso de tons de branco. Atinge assim poeticidade e gera uma inquietação no espectador. A atmosfera gerada ganha um ar misterioso que leva a refletir sobre o mundo interior do artesão, em seu difícil lidar com o material para atingir o resultado artístico desejado.

            Um belo trabalho também é encontrado em Zezé Lisciotto. Sua tela campo de flores oferece uma demonstração de como cores quentes, como amarelo e vermelho, podem dialogar com fluidez sem chocar, mas num microcosmos de delicadeza em que o vento parece reger a harmonia entre as tonalidades.

              No conjunto, a exposição apresenta outros três nomes que seguramente poderão prporcionar, em breve, trabalhos melhor realizados, como Deuslei Pires Cortopassi, com seu sensual Chamego, que fica ainda no meio do caminho entre um realismo ousado e a intensidade da sugestão de um clima de cumplicidade do casal. A escolha de um desses caminhos será de grande valia para o planejamento de futuras obras.

            Maria Elisa de Oliveira Fares, por seu turno, revela talento ao trabalhar com diversos tons de marrom, mas a tela A fazenda, inclusive pela emenda na assinatura, parece levemente descuidada para a apresentação em um salão, embora mostre qualidade técnica e delicadeza na combinação de cores.

            Há ainda a promessa de Robson Martins. Em Tranqüilidade campestre, cria uma cerca e uma árvore com estilo próprio e extremo cuidado na composição, qualidades que não consegue manter no resto do quadro. Mesmo assim, os tons utilizados, principalmente o amarelo, apontam para um talento pronto a desabrochar com muita prática e trabalho.

            Acima de tudo, o Salão oferece a oportunidade de conhecer o que vem sendo produzido por artistas da cidade e região. Esse mérito, aliado ao da qualidade intrínseca dos trabalhos da mostra, constitui um estímulo para que novas iniciativas nesse sentido sejam realizadas anualmente, permitindo aos artistas plásticos locais uma oportunidade de apresentar seus trabalhos e de, ao vê-los junto a outros colegas, estimular um diálogo entre eles e com a comunidade.

 

            Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).


 

 

 

 

 

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