Monica Santana
As favelas coloridas
Quando se trata de pintura, o significado mais importante
daquilo que se vê não está apenas na temática enfocada, mas
principalmente na maneira como cores, formas e linhas são
combinadas pelo artista para atingir algum resultado. As obras de
Monica Santana encantam não por tratarem de favelas, mas pela
maneira como o assunto é trabalhado enquanto material pictórico.
Suas casinhas coloridas, arranjadas plasticamente em triângulos
dispostos de diversas maneiras, constituem um exemplo de como a
arte naïf pode expressar conteúdos sociais com vigor, em composições
plasticamente bem elaboradas.
Nascida em 25 de julho
de 1967, em Duque de Caxias, RJ, Monica diz que a arte sempre
integrou a sua vida, seja na forma de apreciação ou de criação.
"Os presentes que eu mais gostava de ganhar eram uma caixa de
lápis de cor e um caderno de desenhos. Quando tinha sorte,
ganhava uns vidrinhos de tinta guache ou uma aquarela",
conta, enfatizando que herdou o lado artístico da mãe, que
sempre gostou de mexer com artesanato e pinturas em vidros e
tecidos.
Bacharel em Museologia pela
Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), Monica realizou seu estágio
no Museu Internacional de Arte Naïf do Rio de Janeiro.
"Estar em contato com a pintura naïf foi muito importante
para minha formação artística, porque me senti em sintonia com
a força expressiva daqueles pintores. Foi uma descoberta. A cada
dia, eu me surpreendia com os pequenos detalhes que encontrava nos
quadros e, observando-os, captava a riqueza de informações ali
contida", conta. "As obras naïfs retratam a sociedade,
a cultura, a política, a natureza, a religião, a arquitetura, ou
seja, são um vasto universo histórico que eu aprendi a apreciar
e pelo qual me encantei".
Em seguida, Monica trabalhou como museóloga
no projeto Acervo Brahma da Companhia Cervejaria Brahma por
aproximadamente cinco anos. Em 1998, a futura artista plástica
foi para os EUA, aventurando-se num trabalho voluntário no
Fernbank Museum (Museu de História Natural), trabalhando num
projeto que tinha como objetivo levar arte as escolas públicas.
Em julho de 1998, Peter Graser, um
amigo de Monica, ia visitar o ateliê do artista norte-americano
Jonathan Green, residente na Florida, e a convidou para ir com
ele. "Ele queria comprar uma obra e queria a minha opinião",
afirma. "Não sabíamos, porém, que o artista era tão
famoso e que suas obras eram tão caras. Por isso, Peter comprou
apenas uma litografia. O interessante é que, quando me vi no meio
de tantas obras, veio à tona em mim uma enorme vontade de
pintar."
A partir daquele momento, Monica
sentiu a necessidade interior de se valer de tintas, pincéis e
telas, mas não queria fazer isso se baseando em fotografias ou
paisagens. "Queria pintar as coisas que passam pela minha
cabeça", afirma. Ao ouvir isso, Peter a aconselhou a começar
logo, argumentando que a vida é curta e é necessário fazer
rapidamente o que se gosta. "Ele foi comigo até uma loja de
artigos de arte e me comprou três pincéis, quatro tubos de tinta
a óleo, aguarrás e uma tela, dizendo que aquilo era para eu começar."
A carreira de Monica, portanto, tem início,
em agosto de 1998. "Havia uma voz interior que me dizia para
compartilhar a pintura com as pessoas", conta. "Meu
primeiro quadro retrata a comunidade onde eu morava , no bairro
Beira-Mar, em Duque de Caxias. Toda vez que pinto esse tema, a
figura do cuscuzeiro está sempre presente. Ele vende cuscuz há
mais de 30 anos e a imagem dele é bem marcante na minha memória."
O vendedor de cuscuz retrata
justamente esse tema. O protagonista surge no centro do quadro,
com o tabuleiro sobre a cabeça. É uma figura colorida,
imponente, que tem como fundo a cidade. Além do impacto pelas
cores e disposição de formas, o resultado impressiona por alçar
a uma condição quase heróica uma figura de cunho popular,
presente na maioria das cidades brasileiras.
Monica, como se observa com a imagem
que criou do vendedor de cuscuz, começou pintando as próprias
memórias. Depois, teve uma fase voltada para a capoeira. Sua
primeira exposição individual, intitulada "Memórias do
Rio", ocorreu, em 1999, no Loca Luna Restaurant Art Space, em
Atlanta, cidade em que participou de coletivas na The Aware House
Gallery, Brazilian American Chamber of Commerce, Southern Center
For International Studies e na Atlanta Fulton Public Library. Em
Washington, expôs na Pan-American Health Organization e, em Nova
York, na Savacou Gallery.
Atualmente, Monica mora em Piracicaba,
interior do Estado de São Paulo, Brasil. "Dois quadros meus
foram aprovados pela comissão julgadora da Bienal Naïfs do
Brasil 2000, realizada aqui. Como minha família mora na cidade,
fui ficando... Estou aproveitando para pintar um pouco dessa
cidade", conta. "Está sendo uma coisa nova sair ao ar
livre e rabiscar no papel o cotidiano daqui."
Além de ter dois quadros selecionados
para a Bienal de Piracicaba de 2000, no ano seguinte, ela expôs
na American InterContinental University, em Atlanta, EUA. Na
tradicional Bienal paulista, ela mostrou Sobrevoando a Rocinha, em
que a célebre favela carioca é vista do alto, com suas casas
populares e uma passarela, atravessada por um homem montado a
cavalo, e Pôr-do-sol na favela operária, em que são retratados
sacolão, padaria, bar, campo de futebol, o onipresente vendedor
de cuscuz e até uma pessoa com o uniforme da seleção brasileira
atravessando a rua.
Ao optar pela arte, Monica abandonou a
Museologia, deixando uma promissora carreira de curadora para ser
artista. Essa decisão engloba uma série de outras. "Não
quero nenhum emprego que me prenda dentro de um horário fixo ou
estudar arte para aprender técnicas de tudo. Quero que tudo saia
ao natural. No começo, o resultado foi meio naïf, mas acho que a
influência maior nas minhas obras veio da experiência de ter
trabalhado no Mian", comenta, lembrando que, ao abraçar a
arte, para garantir o sustento, precisou trabalhar como babysitter
e em restaurantes.
Entre os temas preferidos de Monica,
estão as favelas, com os seus mais variados aspectos: crianças
brincando, corpo estendido no chão esperando o rabecão,
traficante vendendo a sua mercadoria, alguém fazendo serenata,
bares, mulheres lavando roupa e pessoas indo à igreja ou ao
terreiro. "Meus temas variam muito. Se alguém me conta um
sonho, pinto. Se algo me incomoda por dentro, fico aliviada depois
que pinto", comenta. "As minhas memórias de infância,
o meu imaginário e a rica cultura de meu país é o que
influenciam o meu trabalho."
Uma tela como Sob o céu que nos
protege revela bem essa multiplicidade de temas e de imagens. O
Cristo Redentor aparece ao alto, com uma pomba em sua mão
direita. Abaixo, em forma de triângulo, cujo vértice é a base
da estátua, acumulam-se casas e flagrantes da vida carioca, como
o terreiro e umbanda ou as infinitas escadarias que ligam as casas
dos morros entre si e com o resto da sociedade.
Monica afirma que não direciona sua
arte para os interesses do mercado. "Não me preocupo se
minha arte parece ser bonita ou vai cair bem na parede de alguém.
Pinto para que as pessoas reflitam no que vêem", afirma.
"Se minha arte tiver que cair bem em algum lugar, que seja na
mente das pessoas. Sigo a ditadura de meus impulsos criativos até
que eu termine. Nesse estágio, me sinto exausta e aliviada."
Uma obra engajada na esfera política
é Só mataram trabalhadores, que traz para a tela o massacre do
Vigário Geral, ocorrido em 30 de agosto de 1993. Na ocasião,
cerca de 30 militares armados e encapuzados invadiram a favela,
localizada na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, e, durante
aproximadamente uma hora, executaram 20 trabalhadores e uma
estudante e feriram mais quatro pessoas, todos sem antecedentes
criminais. A ação, que teria sido uma vingança contra o
assassinato de quatro policiais militares na madrugada anterior,
chocou o mundo.
Na pintura de Monica, os corpos mortos
aparecem cercados por populares, num retrato contundente, que
denuncia a violência urbana do Rio de Janeiro. Toda atmosfera do
evento é passada ao leitor em uma imagem repleta e cores,
enriquecida dramaticamente pelos caixões, colocados em tamanho
decrescente da esquerda para a direita.
Os quadros de Monica, sejam de cenas
alegres, como os que tematizam a capoeira, ou com um caráter mais
crítico, como o de Vigário Geral, não mostram rostos. "Não
vejo as caras das pessoas. Por isso, não as retrato. A totalidade
da composição fala por si mesma. Não perco tempo, portanto,
tentando fazer expressões faciais em minhas figuras",
explica.
Outro fator que chama a atenção das
telas de Monica são as cores, principalmente o vermelho e o
laranja. "Adoro cores, minhas casinhas são todas coloridas e
as pessoas que pinto também tem cores mescladas. Gosto de pintar
gente e de trabalhar nas cores do céu. Às vezes, acho que não
existem cores suficientes em minha paleta", diz. "O
colorido me alegra e eu gosto de compartilhar este sentimento com
as pessoas. As imagens que vejo no dia-a-dia são preenchidas de
cores no meu imaginário."
Quanto ao seu estilo, Monica já
recebeu diversas denominações: naïf, primitivo, folclórico,
ingênuo, outsider. "Simplesmente eu curto esse sentimento de
liberdade para criar e explorar a minha criatividade sem
limites", conclui. Essa filosofia a levou a realizar uma série
de quadros que primam pelo colorido intenso, força plástica e
alguns temas pouco comuns.
Um caso são os quadros O sonho do
surfista, A queda do surfista e O resgate do surfista. As cenas do
esportista rodeando o Cristo Redentor com sua prancha, caindo no
meio do mar e após o acidente revelam a capacidade da artista
trabalhar nos limites entre o onírico e a realidade. Suas ondas,
em telas como Surfista I e II, criam justamente uma sensação ambígua
de medo e prazer que cativa e fascina.
O Corcovado, por sua vez, é uma
presença constante. Muito mais do que um símbolo da cidade do
Rio de Janeiro, é o indício de um modo de vida, já que, de seu
ponto de vista privilegiado, ele centraliza as atenções. Esteja
no centro da cidade, em casa, no trabalho, na favela, tomando sol
ou surfando, o carioca se depara com a figura daquela imagem
portentosa, com Cristo no topo, esticando seus portentosos braços
protetores sobre a cidade.
A cidade do Rio de Janeiro também é
vista em outras paisagens. A Praia do Flamengo, os bondinhos sobre
os arcos do bairro da Lapa e a Rocinha são cenários de quadros.
Telas como Oferenda para Iemanjá trazem o universo do candomblé
para o universo pictórico de Monica, caracterizado, em alguns
momentos pela ironia.
É o que ocorre na obra Sem título,
em que uma favela é mostrada a distância e, sobre ela, um enorme
outdoor da Coca-Cola, domina a cena. Se a imagem não tem a força
crítica do trabalho sobre a chacina do Vigário Geral, pelo menos
gera estranhamento a obriga a pensar no contraste entre as
moradias de boa parte da população carioca e a riqueza da
empresa multinacional.
Também muito presente no trabalho de
Monica, o tema da capoeira aparece associado à Baía da
Guanabara, ao Pão de Açúcar e a favelas reais e imaginárias. A
riqueza de cores e movimentos dessa mescla entre dança e luta não
passa despercebida a uma artista que valoriza a cultura de sua
terra, como fica evidenciado em Brazil:UniverSoul Rythm, em que um
tambor gigante surge, tocado por duas mãos, em meio ao mapa
nacional. Preenchendo os espaços, dezenas de imagens, de cores
fortes, dão uma dimensão da riqueza e diversidade cultural e –
especificamente – sonora do País.
Há ainda uma vertente quase
surrealista, em obras como Biquinis voadores, repletas de ironia e
bom humor, sobre o culto ao corpo que predomina no universo
carioca. Ainda nessa linha, há Favela parabólica, em que se
comenta com pincéis o fato e muitas favelas, em meio a uma miséria
que envergonha o País no exterior, não deixarem de ter aparelhos
de televisão. O significativo é que ter televisão não
significa, de modo algum, ter acesso aos produtos que ela anuncia.
Monica mostra tanto as favelas do Rio
de Janeiro como as de São Paulo, à beira da Marginal Tietê. Ao
fazer isso não se deixa dominar pela melancolia. Busca sempre
preencher a tela com sua paleta vibrante e figuras sem rosto, que
compõem um conjunto expressivo.
A obra pictórica de Monica Santana
caracteriza-se pela diversidade. O significado de suas telas está
na busca constante de criativos pontos de vista para oferecer ao
espectador de seus quadros um momento de reflexão. Isso é
conseguido pela busca incessante do novo e pela inquietação que
suas telas transmitem. Mesmo quando surge um humilde vendedor de
cuscuz sem rosto, ele ganha, nas telas de Monica, uma dimensão
extra, existencial. Ao não ter traços, passa a comportar todos,
deixando de representar um só trabalhador para ser a imagem de
todos eles.
O mesmo ocorre com as favelas
coloridas de Monica. A miséria, a tristeza e a pobreza são
substituídas pela esperança. Predomina o talento da artista de
mostrar as favelas geralmente de um ângulo alto, ressaltando as
diversas atividades de seus moradores, que incluem do futebol ao
tráfico de drogas; do candomblé às igrejas cristãs.
Todos este universo é
mostrado com extrema alegria. As casinhas que se somam são
construídas com senso de equilíbrio pictórico e riqueza de
cores. Constituem um universo em que tudo parece estar no local e
momento adequados. As telas de favelas coloridas da artista
carioca, portanto, funcionam como retratos instantâneos de uma
realidade dos morros cariocas que, se não deve ser glamourizada,
também não pode ser ignorada. Monica Santana a traz para as
telas com renovado significado criativo, sem pieguice ou
espetacularização, mas com elevado senso estético e marcantes
tons de cores quentes