por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

M. Oliveira

 

            Um autêntico vigor

 

            A força dos cangaceiros, o vigor da mulher brasileira e naturezas-mortas em que predominam as intensidades das cores e os grossos contornos são as temáticas principais da arte de M. Oliveira, artista plástico que conquista, à primeira vista, justamente pela maneira como trata as suas imagens: com intensa energia, como se cada quadro fosse o último.

            Nascido em Ibiaporã, Mundo Novo, Bahia, em 11 de junho de 1980, M. Oliveira – cujo verdadeiro nome é Marcos Pereira Oliveira – é um autêntico autodidata. Isso significa que, embora admire as obras de Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, entre outros, não se apóia neles para desenvolver a sua obra.

            As cenas e figuras humanas que cria, especialmente as relacionadas com o cangaço nordestino e com a temática da seca, são repletas de verdade, aquela qualidade própria dos artistas que não nasceram para agradar ao mercado, mas que realizam aquilo que seu impulso criativo manda.

            A técnica de M. Oliveira, que se baseia no máximo uso da espátula, reduz a intervenção do pincel. Isso contribui para a criação de imagens que parecem derreter sob o escaldante sol do sertão. Desse universo árido, brotam personagens que remetem a romances como Vidas secas, de Graciliano Ramos.

            Os cangaceiros que surgem nas telas de Oliveira trazem todo o poder dos fortes homens do sertão valorizados por Euclides da Cunha, em Os sertões. As imagens clássicas, guardadas em fotografias e algumas poucas cenas filmadas de Lampião e Maria Bonita são evocadas por telas que exaltam lábios grossos, olhos bem abertos e narizes largos com contornos bem definidos.

            Flores, peixes e mulheres também comparecem na pintura do artista, sempre realizada com a utilização de formas volumosas. Assim, as flores ganham em vivacidade e os peixes se tornam objetos de desenho, como recém-saídos da célebre cena bíblica de sua multiplicação.

            Dentro da tradição dos pintores autodidatas, Oliveira trabalha as suas referências de uma maneira essencialmente pessoal. Embora jovem, desenvolveu um estilo próprio e inconfundível, principalmente pelo tratamento à matéria pictórica, sempre buscando os melhores caminhos de composição.

Imagens de seios fartos, colares com pedras igualmente amplas, braços muitas vezes em movimentos arredondados exaltam a figura feminina em seus vários aspectos, principalmente no que diz respeito à sensualidade, mas a condição existencial de solidão do ser humano.

O trabalho de espátula do pintor pode ser especialmente verificado no fundo da tela, num resultado de intensa expressividade. Quando surgem vasos com flores, por exemplo, as imagens distorcidas de contornos espessos cativam o observador pela autenticidade que carregam.

A obra de M. Oliveira se caracteriza pela sinceridade com que o pintor se apresenta ao público. Em cada tela, há um mergulho na alma, seja pela aridez de alguns temas, pelos traços vigorosos ou pela consciência do artista de sempre oferecer o melhor de si em cada trabalho.  

 

            Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

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"A volta do Cangaço"

A.S.T -  
70x50 cm 2002  

M. Oliveira

 

 

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