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Moacir
Ricardo
O desafio da criação
A arte é um universo que comporta os mais diversos espectros.
Infelizmente, a nossa prática acadêmica insiste em trabalhar em
compartimentos, tentando incluir tudo aquilo que vê dentro de algumas
caixinhas de conhecimento fechadas, marcadas por conceitos e pré-conceitos
dos mais variados tipos.
Ter a liberdade do olhar, contudo, é a qualidade mais necessária do
artista e do crítico contemporâneos. Saber ver significa observar cada
obra dentro do contexto em que ela foi criada, com as referências de
cada pintor ou escultor seguindo o princípio de que o único demérito
da arte é não obrigar o observador a pensar.
O artista plástico Moacir Ricardo deve ser olhado nessa perspectiva
ampla. Baiano, nascido em 25 de agosto de 1955, até os 44 anos de idade
desenvolveu atividades como auditor, gerente de comércio exterior e
microempresário, graças a sua formação em Ciências Contábeis,
Economia e pós-graduação em Administração Financeira. Foi, em 1999,
num centro mediúnico, num quarto escuro com alguns tubos de tinta e
duas pequenas telas que tece seu primeiro contato com as artes plásticas.
O resultado - imagens simbolistas e diáfanas com algo de expressionismo
no gesto da pintura - o surpreendeu e o conduziu a um aperfeiçoamento
constante como autodidata. Nessa jornada, não optou pelo caminho da
arte psicografada, mas pelo do aprimoramento da técnica para poder
assinar com orgulho seus próprios quadros.
Não se trata de desprezo ao sobrenatural, mas de respeito a si mesmo e
às possibilidades de fazer uma carreira como pintor. Moacir Ricardo
começou a descobrir nos clássicos da Renascença e do Barroco um
grande desafio. Hoje desenvolve, em óleo sobre tela, técnicas de
veladura e de pintar com diversas camadas.
Nesse contexto, suas obras mais significativas são aquelas em que o
elemento humano se faz presente, sendo tratado com a preocupação de
uma integração entre os diversos povos que formam a brasilidade. Anjos
com rosto indígena, negros ou com traços de imigrantes nipônicos compõem
esse pensamento.
É, todavia, naqueles quadros em que surgem figuras isoladas, como
Expectativa, em que uma criança tem o rosto semi-encoberto por mãos
com dedos entreabertos que o cobrem, ou Cristo negro, onde as chagas, o
olhar e a anatomia compõem um harmoniosos conjunto, que ele atinge seus
melhores resultados.
Quanto maior a liberdade que Moacir Ricardo se dá de lançar ao mundo
um olhar mais solto, com uma pincelada mais aberta e pouco presa a padrões
pré-estabelecidos, mais ele encontra seu próprio estilo, retornando ao
quarto escuro de seu primeiro quadro, mas, agora, sob um novo prisma: o
de um artista plástico que domina a técnica e precisa colocá-la, cada
vez mais, a serviço do próprio potencial de criar, mesclando a pureza
da criança à espiritualidade, à consciência de suas origens negras,
à sensibilidade e ao conhecimento plástico adquirido nos últimos
anos.
Oscar D´Ambrosio, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).
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