por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

   Miro Bampa

 

            O corpo como morada da arte

 

            Há poucos desafios mais difíceis na arte contemporânea do que o de lidar com o corpo. A questão está em fugir da máxima do “tudo já foi feito”, que se tornou uma espécie de bordão, e buscar algo que possa proporcionar uma contribuição em termos de pesquisa e de visão não só da materialidade humana, mas, acima de tudo, dos processos artísticos.

            Residente em Vinhedo, SP, onde nasceu em 9 de maio de 1956, Miro Bampa oferece, em suas pesquisas mais recentes, uma forma de visualizar e processar o corpo que merece atenção. O que ele apresenta é uma retomada da beleza da matéria, mas não se contenta com uma visão conservadora, propondo um multiuso de técnicas dentro de parâmetros de permanente inquietação.

            Sua jornada começa com a fotografia de corpos nus masculinos e femininos. Esse trabalho, feito em poses em 180 graus, explorando a frontalidade, a visão das costas e os perfis, principalmente, mostra o corpo humano em toda sua grandiosidade, com suas proporções fascinantes e únicas.

            O passo seguinte é desenvolver um rico processo de interferências sobre essas imagens fotografadas que resulta em imagens plotadas sobre tecido. Claro que a escolha dos mecanismos utilizados se o suporte engloba um caminhar seletivo pleno de alternativas e de indagações técnicas. Cada trabalho é o resultado justamente de soluções apresentadas de acordo com o enfrentamento do artista com a imagem original e suas variações.

            O final do processo está em costuras, pregos ou outros elementos postos sobre o tecido com a imagem plotada. Existe ainda um último e fascinante procedimento de acabamento: o uso da encáustica, técnica que consiste em trabalhar com cera quente de abelha, recurso que oferece múltiplas possibilidades e constitui numa forma orgânica de dar nova vida ao corpo fotografado e transferido ao tecido.

            Todo essa jornada artística demonstra um grande amor pelo corpo humano. Se, em parte, ele é destruído pelo uso de diversas técnicas, ao mesmo tempo, é incensado com uma espécie de morada divina pelo acabamento cuidadoso e pela busca de formas de exaltação na própria mostra de sua relatividade e finitude.

            O uso de diversas técnicas entrelaçadas, num processo híbrido, ao contrário do que costuma acontecer em certos trabalhos de arte contemporânea, não resulta em esterilidade, mas sim em capacidade reprodutiva, numa espécie de panegírico à vida, já que o corpo torna-se o ponto de partida de uma rica demonstração de caminhos plásticos.

            O corpo adquire o papel de morada estética por motivar o desenvolvimento de uma arte em que a foto, a reprodutibilidade, as interferências únicas, o manuseio do tecido em suas espessuras e texturas diferenciadas e o contato com o calor e a materialidade da encáustica geram considerável impacto.

            Há em Miro Bampa o gosto pela busca de alternativas diferenciadas e, nesse exercício, cada trabalho é um eterno esboço. Trata-se do artista que nunca terá uma obra finalizada. Sua jornada é a do processo contínuo e a da  angústia existente em nome de resultados que o agradem apenas como ponte para criação dos próximos, numa espiral ascendente de qualidade técnica e visual, onde o corpo ganha destaque como morada sagrada do talento e da inquietação interior.

             

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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Série Sala de Espera

23 x 15 x 7 cm 1968

Miro Bampa

 

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