por Oscar D'Ambrosio


 

 


Minidi Pedroso

 

            Gizes que educam

 

            “Como é possível que, sendo as criancinhas tão inteligentes, a maioria das pessoas sejam tão tolas? A educação deve ter a ver com isso?”. O romancista Alexandre Dumas Filho (1824-1895) fazia essas perguntas em pleno século XIX. A mesma indagação vale hoje e surge renovada com a exposição da artista plástica  Minidi Pedroso, na Valu Oria Galeria de Arte, em São Paulo, de 29 de novembro de 2005 a 7 de janeiro de 2006 .

            Ela apresenta numerosos gizes dentro de caixas de acrílico. A partir desse princípio, constrói seu panorama plástico. Nas cores vermelho, azul e amarelo, às vezes intercaladas com preto, esses objetos, utilizados em sala de aula tanto pelos professores, em suas aulas, como nas brincadeiras entre os alunos, como um objeto voador de origem nem sempre identificado, ganham novos sentidos.

            O movimento do giz, seja nas mãos do docente ou nas do discente, é limitado dentro das caixas. Elas funcionam como o universo que ordena cada um deles em blocos. E estes se articulam em diversas composições. São linhas verticais ou horizontais de tamanhos variados que parecem pintadas nas paredes brancas da galeria.

            Os trabalhos mais interessantes são aqueles em que as linhas retas compostas pelas caixas são quebradas pelo deslocamento de uma delas. Essa quebra da expectativa aponta justamente para aquilo que a educação tem de melhor, a capacidade de formar seres humanos, entendendo cada um deles como uma fusão entre corpo e alma.

            Se a educação for entendida como um processo em que a surpresa e a interação entre professor e aluno se torna fundamental para a formação de um ser criativo e de fato  pensante, o trabalho de Minidi ganha uma nova leitura. As caixas de giz aludem, sim, à educação, mas, acima de tudo, a maneiras de ordenar o pensamento discursivo e plástico.

            Minidi, que já foi professora de educação artística e é fundadora e presidente do Instituto Minidi Pedroso de Arte-Educação, dedicado a capacitar educadores na área de arte para comunidades de baixa renda, permite uma reflexão sobre um dos principais males da educação: a compartimentalização do saber justamente em caixinhas.

            As caixinhas da exposição, embora aparentemente iguais, por juntarem gizes da mesma cor, são diferentes. Algumas delas têm menos objetos do que as outras e, às vezes, surge um giz de outra cor – como preto – para fazer o contraponto, alertando que os materiais, assim como as pessoas, não são todos iguais.

            A educação, para Freud, devia encontrar um caminho entre a indulgência e a proibição. Minidi passa essa lição. As caixas são o limite definido para a expressão, mas, dentro de cada uma delas, existe espaço para uma certa liberdade. Na combinação entre o eixo da determinação e da manifestação individual, a artista faz a sua obra, e a educação segue o seu caminho.

            Em Canção da escola esfarrapada, Eliza Cook aponta que “É melhor construir salas de aula para o Menino/ do que celas e patíbulos para o Homem”. Analogamente, as caixas de acrílico estabelecidas por Minidi são o espaço da liberdade expressiva, o local onde a criação fala mais alto.

            Os objetos-giz são a forma de Minidi Pedroso pintar as paredes. As cores surgem em blocos harmônicos, valorizados por algumas quebras, seja da ordem das caixas ou dentro de cada uma delas. Assim ela alerta para o grande desafio da educação e da arte: conseguir, dentro de alguns parâmetros, preservar diferenças e estimular o potencial criativo de cada um, seja o criador ou o receptor de uma aula de qualquer disciplina ou de algum trabalho artístico

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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 Giz e emulsão de resina acrílica em caixas de acrílico 100 x 28 x 6 cm 2005

Minidi Pedroso

 

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