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Milton Afonso
A vida
interiorana
Engolidas pela era da
globalização, muitas pessoas não suportam o cotidiano bucólico
da vida interiorana. Algumas até gostam de passar o final de
semana longe de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, mas
não sabem viver sem o dinamismo frenético da vida moderna.
Outras, porém, têm no dia-a-dia e na pureza das pequenas cidades
a matéria-prima para a sua arte. É o caso do pintor Milton
Afonso. Mineiro de Pompeu, nascido em 11 de outubro de 1929,
encontra nas festas folclóricas e regionais a razão de ser de
sua arte, que, além de uma vertente naïf, apresenta uma fase
paralela, abstracionista. Por ter morado e viajado por numerosos
lugarejos e vilas do interior de Minas Gerais, Afonso conviveu com
diversas formas de manifestação da religiosidade e da arte
popular. E leva isso para as suas telas de maneira direta, sem
rebuscamento. "Minha pintura é simples e despojada de
qualquer erudição", afirma. O início de Afonso na pintura
foi absolutamente casual. Ao ser hospitalizado para tratamento de
um problema na perna esquerda, recebeu azulejos, tintas e pincéis
para "passar o tempo". "Daí resultou o meu
interesse permanente pela arte", conta. "Não fui
influenciado, portanto, por nenhum artista em particular." O
artista começou retratando as cidades históricas de Minas Gerais
de maneira acadêmica, e, por volta de 1982, passou a exercer a
chamada pintura naïf. "A partir de 1995, iniciei uma fase
paralela, o abstracionismo, mas não me desliguei completamente da
arte ingênua, que até hoje faço regularmente, embora predomine
a abstrata", comenta. Afonso realiza com alguma regularidade
exposições coletivas desde 1979, em Belo Horizonte e em outras
cidades de Minas Gerais e de outros estados brasileiros.
Participou, por exemplo, da Bienal de Arte Naïf do
Sesc/Piracicaba, em 1994, e realizou sua primeira individual em
1986, em Belo Horizonte. Além disso, a obra do artista está
cadastrada no Banco de Dados do Instituto Cultural Itaú, no
módulo de pintura brasileira e seu trabalho pode ser visto nos
seis painéis que realizou para o Brasilton Contagem Hotel e
encontrado em coleções particulares no Brasil, Suíça,
Portugal, Espanha, EUA, Áustria, Itália, Alemanha, Inglaterra,
Japão, França, Holanda, Luxemburgo e Canadá. Mestre em retratar
pequenas cidades e igrejas, Afonso teve seu trabalho reconhecido,
em 1989, pela crítica de arte Mari'Stella Tristão, que, no
Estado de Minas, caracterizou a pintura de Afonso como
"limpa, repleta de luminosidade e transparência, que a torna
também leve e agradável, além de bem realizada". Além de
festas religiosas, paisagens rurais e imagens de futebol integram
o universo pictórico de Afonso. Um quadro que se destaca pela sua
horizontalidade e abordagem criativa é Transportando a produção
nacional. De baixo para cima, observamos uma plantação listrada
em verde e amarelo, cores da bandeira nacional, e as diversas
formas de escoamento, como o carro de boi num caminho de terra, os
caminhões numa estrada asfaltada, um comboio puxado por uma
locomotiva vermelha, um navio de carga com três chaminés e a
bandeira brasileira e um avião sobrevoando o mar. Desse modo, os
transportes viário, ferroviário, fluvial e aéreo são mostrados
numa mesma imagem, constituindo uma síntese didática das
maneiras que um País possui de derivar a sua produção para
outros locais. A simplicidade do quadro esconde uma concepção
bem interessante de como a boa pintura não necessita de símbolos
complexos para atingir um resultado estético e satisfatório.
Procissão em Ouro Preto vale-se em grande parte da
desproporção, recurso comum dos artistas naïfs, para obter um
excelente efeito. Enquanto os participantes mais importantes da
procissão são protegidos do sol por quatro pessoas empunhando
varas de pau, que sustentam um luxuoso pedaço de pano laranja,
cor também utilizada nas vestes do principal eclesiástico do
evento; os fiéis, em escala bem menor, observam o que ocorre.
Mulheres piedosas se ajoelham e, em cada janela, vê-se uma figura
colorida diminuta. Atrás da procissão e da igreja, é
descortinada uma paisagem típica mineira, com diversos montes com
campos verdes. Destaca-se a presença, também sem escala de
proporção, de uma pessoa com uma máquina filmadora ao ombro,
talvez indiciando a presença de novos tempos, e de um cão,
animal que confere à cena todo um ar de simplicidade interiorana.
Em alguns quadros, Afonso se vale de uma quase total economia de
recursos. É o que ocorre em A bandinha. Os músicos já apareciam
diminutos em Procissão. A novidade agora é que a banda surge
sozinha, pouco abaixo do centro da tela, caminhando em direção a
uma igreja, enfeitada com bandeiras de festa junina. Novamente,
surgem pessoas em todas as janelas para contemplar o grupo e
algumas se aproximam dos músicos. Merece destaque a limpeza
visual e de traços. A paleta utiliza cores suaves e o traço é
extremamente fino e delicado. À porta da igreja, é possível ver
o padre; no alto, os sinos são desenhados com presteza; e as
árvores floridas contribuem ainda mais para acentuar o clima de
tranqüilidade e equilíbrio. Mesmo ao realizar cartões de Natal,
o artista mineiro se mantém preso às suas raízes. Telas como
Visitando o recém-nascido ou Apresentação do menino no templo
localizam momentos bíblicos na paisagem mineira. Na primeira,
trabalhadores da lavoura, em roupas simples, permanecem em fila,
numa estrada sinuosa, para reverenciar o Menino Jesus, colocado
numa manjedoura, na varanda de uma casa rústica, típica do
interior de Minas. Na segunda, José, puxando o burrinho sobre o
qual está Maria carregando o Menino Jesus, chega a uma diminuta
cidade, com uma igreja típica da região, caiada de branco e com
azul na base e em volta das janelas. As árvores floridas, a
presença de anjinhos, pombas da paz e um arco-íris de cores
intensas indicam o júbilo de que a cidadezinha, de estreitos
caminhos e casinhas verdes, amarelas e cor-de-rosa, é tomada com
a presença da primeira Família Cristã no local. A
transposição de passagens dos Evangelhos para as Minas Gerais
que Milton Afonso conhece muito bem ilustra o universo pictórico
do artista. Suas telas são uma declaração de amor a imagens que
estão, pouco a pouco, desaparecendo, engolidas pelo progresso. Ao
enfocar o interior mineiro, as telas de Milton Afonso agradam a
todos. Os que são apaixonados pelo interior o vêem retratado
fielmente; aqueles que preferem visitas esporádicas o encontram
eternizado em suas telas; e os que dizem não se sentir bem na
calma das pequenas cidades têm nelas uma derradeira oportunidade
de se encantar com um Brasil que quase não existe mais. Enquanto
o mundo moderno vai uniformizando os vilarejos com sua linguagem e
modismos propagados pelos meios de comunicação de massa, Milton
Afonso compõe um autêntico retrato da romântica vida do
interior mineiro. Sua arte, portanto, não é apenas um ato
criativo, mas também um ato poético - à moda naïf - de
resistência cultural.
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Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
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