por Oscar D'Ambrosio


 

 


Miguel Paiva

 

            As facetas do desejo

 

            “Ninguém chega ao fim da vida sem ter visto indeferida mais da metade de seus desejos” ensina o Talmude. Algo semelhante pode ser comprovado com prazer estético na exposição “Objetos do desejo do homem moderno”, de Miguel Paiva, de 9 a 27 de novembro de 2005, no Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo, SP.

            A exposição traz dez obras desenhadas em nanquim e coloridas e finalizadas em computador. O que chama a atenção é que, sob o traço bem-humorado desse artista nascido no Rio de Janeiro de 1950, está uma das críticas mais mordazes dos últimos tempos ao homem contemporâneo.

            Os dez desejos apontados falam muito da sociedade moderna. Eles surgem nos trabalhos sempre por meio de homens de meia-idade, com algum objeto nas mãos e, em dois casos, com a aparição de uma sedutora mão feminina. No fundo, esses homens estão em busca de poder e até da própria identidade, mas os desenhos concretizam suas vontades – que retratam uma época.

            Nas obras em que aparece a mão feminina, os objetos são uma calcinha, alusão direta ao sexo, e o controle remoto, na eterna luta entre a vontade do homem de ser o dono de tudo, até daquilo que vê pela TV. As roupas da figura central também são significativas.

No primeiro caso, a camisa aberta evoca sensualidade; no segundo, há o uso de uma roupa caseira, mais confortável. O fundo cor-de-rosa, combinando com a calcinha, e o azul, de acordo com coma camisa, na segunda tela, ajudam a compor plasticamente os  trabalhos.

A relação entre objeto e vestimenta se faz sempre presente. O homem com o Kama sutra na mão surge com o torso nu e uma toalha no pescoço. Aquele com o MP3, de olhos fechados, concentrado na melodia possivelmente alienante, e uma camiseta sem mangas de cor vermelha. A tonalidade quente do laranja do fundo ajuda a reforçar uma idéia de certa rebeldia e alheamento do mundo circundante.

A pílula azul de Viagra na mão está de acordo com o fundo do trabalho, e a caixinha do remédio aparece no bolso transparente da camisa social. O copo sedutor de vinho, cuja coloração também está no fundo, surge nas mãos de um homem de gola alta, certamente orgulhoso de si mesmo e de sua posição social.

Um outro homem porta a chave de uma Ferrari, e a célebre cor vermelha é colocada por trás dele. Ele também usa óculos escuros e uma camisa chic de manga comprida. O desejo do carro é simétrico ao seu colega de camisa amarela da seleção brasileira de futebol, com fundo verde, e segurando o esperado – e temido – ingresso para uma final, na Alemanha, em 2006, entre Brasil e Argentina.

O homem de cabelos brancos, com roupas apropriadas para alguém mais jovem segura o elixir da juventude, numa garrafa tampada com uma anacrônica rolha, enquanto o verde-esperança de não-envelhecer dá ao quadro certo tom de melancolia, contrastando com o tom mais vivo do torcedor da seleção brasileira.

Finalmente, mas não menos importante, está o senhor careca com a escova na mão. Único de terno e gravata, elementos do mundo do trabalho que talvez o tenham feito perder o cabelo, anseia por utiliza um instrumento que já não lhe diz respeito. Faz parte de um passado em que os outros desejos talvez fossem mais fortes.

Entre o sexo, o prazer, a música vivenciada solitariamente, o medo de envelhecer, o status, o poder em casa e o amor ao esporte, os personagens criados por Miguel Paiva passam a sua trajetória existencial. Ele, que começou a publicar os seus trabalhos aos 16 anos, morou na Itália 1974 a 1980, e, de volta ao Rio de Janeiro não para de criar, com personagens célebres como a Radical Chic e o Gatão da Meia-Idade.

O poeta latino Ovídio dizia que “o que se desconhece não se deseja”. Miguel Paiva, com esta exposição alerta justamente que o homem moderno conhece muita coisa – e deseja todas com intensidade. Decorre daí parte de sua dor, pois os sucessos são poucos e muitos, os insucessos, talvez sutilmente metaforizados nas sombras que o artista faz dos personagens e dos objetos desejados.

São elas que nos alertam, como diz o Talmud, que os desejos, ao longo da vida tornam-se “indeferidos”, como sombras de uma felicidade muito desejada e pouca encontrada, numa luta permanente que pode levar a um estado constante de insatisfação e depressão. Miguel Paiva trata dessas sombras com bom-humor, mas seu grito de alerta para os desejos quase sempre vazios do homem moderno podem até nos fazer chorar – mas sempre com um riso de escárnio nos lábios.

 

             Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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   Vinho 
nanquim, colorido e finalizado em computador 2005

Miguel Paiva

 

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