por Oscar D'Ambrosio


 

 


Mieko Ukeseki

 

            O lirismo da leveza

 

            O trabalho da ceramista Mieko Ukeseki, radicada em Cunha, SP, é um poema da leveza. Seu conceito de equilíbrio se faz presente, inclusive com estruturas interativas, em que o observador se torna participante e pode alterar o posicionamento de um elemento, compondo seu próprio trabalho.

Há inclusive uma série lúdica, em que trabalhos de pequenas dimensões, em forma de sementes, têm, dentro deles, sementes autênticas. Ao se mexer na peça, surgem os mais variados sons, funcionando como uma poesia musical orgânica da natureza, sempre alertando dos seus poderes.

O modo pessoal de Mieko apresentar o seu trabalho, valendo-se, de maneira bastante peculiar, das linhas e curvas, num processo em que o artístico ganhou espaço em relação ao utilitário,  é decorrência de uma evolução estética que tem suas origens nos anos 1970.

Ela trabalhava como professora de uma escola de enfermagem em Nagoya, Japão, em 1970, quando se casou com o ceramista Toshiyuki. Começou então a se interessar por fazer cerâmica. Aprendeu a lidar com os fornos Noborigama, de alta temperatura, construídos em declive para propiciar melhor circulação do calor no processo de queima.

            Mais tarde, o casal foi para a província de Fukuoka, no sul do Japão, terra natal dele. O objetivo era pesquisar os estudos no Núcleo de Cerâmica de Koishiwara, na aldeia de Tsuru, onde trabalhavam dezenas de ceramistas tradicionais. Foi ali que Toshiyuiki e Mieko conheceram o casal português Alberto Cidraes, arquiteto que fugira do país para não ser incorporado ao exército e lutar nas guerras contra as colônias lusas, e a esposa Maria Estrela.

            Vizinhos na aldeia japonesa, os dois casais, apaixonados por cerâmica, decidiram vir para o Brasil, onde sabiam que havia argila e lenha abundante, elementos não tão comuns no país oriental. Em 1975, Mieko, o marido e uma filha pequena chegaram a São Paulo. Foram morar no bairro de Pinheiros. Depois, instalaram-se, com os Cidraes e os irmãos Vicente (Vicco) e Toninho Cordeiro no Atelier do Antigo Matadouro, em Cunha, SP. 

            Em 1977, Mieko separou-se do marido e foi trabalhar em Teresópolis com Vicco Cordeiro. Toshiyuki retornou em 1978 para o Japão e ela voltou para Cunham casando-se com Mario Konsihi, funcionário do Bando do Brasil que cursava Faculdade de Belas Artes em São Paulo, mas, apaixonado por cerâmica e em busca de uma nova vida, havia se transferido para a agência de Cunha.

            Impulsionado pelo projeto Arte Litoral Norte, coordenado por Antonio Carelli, que tinha uma visão da cerâmica como arte, não como uma atividade menos utilitária, Mieko passou a desenvolver o trabalho que a torna diferenciada pela capacidade de criar formas estilizadas nas quais se percebe a inspiração da natureza e a mão arguta do artista criativo, mas não excessivo.

Além de  ter participado em salões, exposições individuais e coletivas no pais e no exterior, com diversos prêmios, oferece em seu trabalho a oportunidade rara de se ver uma cerâmica de acabamento exemplar, grande lirismo e economia de linhas em nome da leveza das curvas e de movimentos verticais e horizontais plenos de musicalidade.

            Mieko respeita a natureza, a admira e a transforma. Suas obras partem do barro para atingir formas universais que parecem flutuar no espaço em busca do aconchego da alma humana. Sua lírica da leveza renova-se em cada trabalho e dignifica a arte da cerâmica com uma das mais nobres ainda à espera de maior reconhecimento, tanto do público como da crítica de arte especializada. 

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

 

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