Mieko
Ukeseki
O lirismo da
leveza
O trabalho da
ceramista Mieko Ukeseki, radicada em Cunha, SP, é um poema da
leveza. Seu conceito de equilíbrio se faz presente, inclusive com
estruturas interativas, em que o observador se torna participante
e pode alterar o posicionamento de um elemento, compondo seu próprio
trabalho.
Há
inclusive uma série lúdica, em que trabalhos de pequenas dimensões,
em forma de sementes, têm, dentro deles, sementes autênticas. Ao
se mexer na peça, surgem os mais variados sons, funcionando como
uma poesia musical orgânica da natureza, sempre alertando dos
seus poderes.
O
modo pessoal de Mieko apresentar o seu trabalho, valendo-se, de
maneira bastante peculiar, das linhas e curvas, num processo em
que o artístico ganhou espaço em relação ao utilitário,
é decorrência de uma evolução estética que tem suas
origens nos anos 1970.
Ela
trabalhava como professora de uma escola de enfermagem em Nagoya,
Japão, em 1970, quando se casou com o ceramista Toshiyuki. Começou
então a se interessar por fazer cerâmica. Aprendeu a lidar com
os fornos Noborigama, de alta temperatura, construídos em declive
para propiciar melhor circulação do calor no processo de queima.
Mais
tarde, o casal foi para a província de Fukuoka, no sul do Japão,
terra natal dele. O objetivo era pesquisar os estudos no Núcleo
de Cerâmica de Koishiwara, na aldeia de Tsuru, onde trabalhavam
dezenas de ceramistas tradicionais. Foi ali que Toshiyuiki e Mieko
conheceram o casal português Alberto Cidraes, arquiteto que
fugira do país para não ser incorporado ao exército e lutar nas
guerras contra as colônias lusas, e a esposa Maria Estrela.
Vizinhos
na aldeia japonesa, os dois casais, apaixonados por cerâmica,
decidiram vir para o Brasil, onde sabiam que havia argila e lenha
abundante, elementos não tão comuns no país oriental. Em 1975,
Mieko, o marido e uma filha pequena chegaram a São Paulo. Foram
morar no bairro de Pinheiros. Depois, instalaram-se, com os
Cidraes e os irmãos Vicente (Vicco) e Toninho Cordeiro no Atelier
do Antigo Matadouro, em Cunha, SP.
Em 1977, Mieko
separou-se do marido e foi trabalhar em Teresópolis com Vicco
Cordeiro. Toshiyuki retornou em 1978 para o Japão e ela voltou
para Cunham casando-se com Mario Konsihi, funcionário do Bando do
Brasil que cursava Faculdade de Belas Artes em São Paulo, mas,
apaixonado por cerâmica e em busca de uma nova vida, havia se
transferido para a agência de Cunha.
Impulsionado
pelo projeto Arte Litoral Norte, coordenado por Antonio Carelli,
que tinha uma visão da cerâmica como arte, não como uma
atividade menos utilitária, Mieko passou a desenvolver o trabalho
que a torna diferenciada pela capacidade de criar formas
estilizadas nas quais se percebe a inspiração da natureza e a mão
arguta do artista criativo, mas não excessivo.
Além
de ter participado em
salões, exposições individuais e coletivas no pais e no
exterior, com diversos prêmios, oferece em seu trabalho a
oportunidade rara de se ver uma cerâmica de acabamento exemplar,
grande lirismo e economia de linhas em nome da leveza das curvas e
de movimentos verticais e horizontais plenos de musicalidade.
Mieko
respeita a natureza, a admira e a transforma. Suas obras partem do
barro para atingir formas universais que parecem flutuar no espaço
em busca do aconchego da alma humana. Sua lírica da leveza
renova-se em cada trabalho e dignifica a arte da cerâmica com uma
das mais nobres ainda à espera de maior reconhecimento, tanto do
público como da crítica de arte especializada.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).