por Oscar D'Ambrosio


 

 



Micaela Schreckenberg

 

O jogo de cartas naïf

 

A arte surge de diferentes formas na vida dos pintores naïfs. Há aqueles que mostram sua vocação desde crianças e não tem a oportunidade de desenvolvê-la até a aposentadoria. Outros são compelidos para a pintura pelo destino. É neste segundo grupo que se insere Micaela Schreckenberg.

Nascida em 20 de março de 1957, em Buenos Aires, Argentina, de pais de origem alemã, confessa que sua pior nota no colégio era justamente em Educação Artística. Sua paixão, desde menina, era a dança, até que uma lesão na coluna a impediu de seguir a carreira artística. "Foi em 1989 que a minha terapeuta de então sugeriu que canalizasse minha vocação artística por outra via. Decidi então pela pintura".

A primeira exposição ocorreu naquele mesmo ano, na agência do Banco de Quilmes localizada no elegante bairro portenho de Palermo. Sem formação em Belas Artes, Micaela, que seguiu a carreira de psicóloga, apenas realizou, em 1992 e 1993, oficinas de cor e equilíbrio com a arquiteta Virginia Scari, renomada animalista e retratista. E trabalhou muito, realizando cerca de três ou mais exposições por ano, inclusive na Suíça e na Alemanha, tendo ainda uma tela incluída no Salão Naïf de Tóquio, Japão, em 1994 e quadros em coleções privadas dos EUA, Equador e México. "Tudo começou como uma terapia para minha contusão e começou a ser uma paixão e um vínculo com minha profissão."

Na juventude, Micaela viajou pelos Países Baixos, pelos nórdicos e pela própria Alemanha, terra dos pais, além de conhecer lugares exóticos, como Índia e Egito. Posteriormente, viajou por Equador, México, EUA, República Dominicana, Uruguai e Paraguai e acredita que tudo isso está, de algum modo, presente em sua obra. "Carrego, disso tudo, impressões que guardo em meu coração e colaboram com a minha produção artística, seja em hábitos, paisagens ou marcas que deixaram em minha biografia", afirma.

A artista considera-se uma contadora de emoções, vivências e pensamentos por meio de cores e formas. "Pintar é o contrário do meu trabalho cotidiano, em que utilizo a linguagem verbal e corporal. Essas duas paixões se complementam para formar um todo que é simplesmente Micaela", define.

Perguntada sobre seus temas preferidos, a artista aponta a natureza, personagens típicos da Argentina e o tango, "retratados com as cores da alma". "Apenas posso comunicar com minha obra as coisas que me maravilham, admiro ou deixaram em mim alguma marca", conta.

O critico César Magrini, em Argentina: su arte ingenuo, por sua vez, aponta como as mulheres de vida fácil como uma das temáticas da artista. "Elas surgem próximas do romantismo, mas longe da sordidez", afirma. O estudioso considera o trabalho de Micaela como um mergulho nas "capas ignoradas da sociedade", de onde surgem "obras clarividentes, lindas e justiceiras".

Um exemplo disso é a obra Tango, em que um casal surge dançando em frente a um edifício decorado para o Natal, numa esquina da capital Argentina. Ela, de vermelho; e ele, de terno branco e calça preta, estão na metade inferior da tela, ao centro. A posição mostrada na dança é de alguém que conhece o ofício. O prédio impressiona pela magnificência da arquitetura, pela delicadeza das decorações natalinas. No piso térreo, merece referência um detalhe. À direita, quase imperceptível, uma mesa ocupada dentro do bar integra com harmonia a composição e impede o desequilíbrio do quadro.

Obras como Carga pesada, em que um homem forte com traços indígenas, mostrando apenas o rosto e o musculoso braço direito carrega dezenas de flores coloridas, como amarelas e violetas, além de diversas folhas e cerejas, numa bela composição, que atrai justamente pela riqueza de cores e formas. Embora seja uma cena que denuncie dinamismo, pela tensão entre os elementos da natureza e os músculos tesos, a imagem esteticamente funciona praticamente como uma natureza-morta.

Micaela também pinta anjos, como El ángel, em que o ser divino aparece em meio a flores gigantes, lendo seu livro de cantos, com o sol ao fundo, num ambiente paradisíaco de paz e tranqüilidade. Trata-se de uma imagem em que o rosto do anjo se destaca por ser diferente dos tradicionais. Em vez da beleza etérea, surge uma imagem humana, que contrasta com sua aparência divina.

Contudo, talvez o quadro mais importante de Micaela seja La carta ganadora. Para analisá-lo melhor é preciso considerar que o tema do jogo de cartas é bastante tradicional na história da pintura, tendo sido tratado por artistas como Caravaggio, La Tour e Cézanne. Os dois primeiros enfocam o assunto com tom moralizante; o terceiro, como exercício formal; e Micaela, com técnica naïf.

O italiano Caravaggio, por exemplo, realizou, aproximadamente em 1596, Os tafuis. Três pessoas aparecem na tela, sendo que o jogador da direita põe a mão às costas, onde esconde cartas junto à cinta. Semelhante a um jovem que seria posteriormente retratado no célebre A vocação de São Mateus, ele é um trapaceiro, capaz de tudo para obter a carta vencedora.

A tela integra um conjunto que o artista realizou para o Cardeal del Monte sobre vícios humanos e apresenta uma abordagem alegórica, bem ao gosto da época. O enfoque será retomado pelo francês Georges de La Tour, em duas telas, O trapaceiro (com o ás de paus) e O trapaceiro (com o ás de ouros). Ambas, do final do século XVII, ilustram três tentações: a luxúria, representada pelas mulheres, o jogo e o vinho.

Os quadros são obras diurnas, ou seja, passam-se de dia, num pintor mais afeito a obras noturnas. O segundo, porém, revela maior elaboração, o que pode ser notado pela roupa mais enfeitada da criada, um equilíbrio maior de cores e a presença de um colar de pérolas na mulher do meio.

Em ambos, há quatro personagens e o trapaceiro, colocado à esquerda, esconde a carta da mesma maneira que a personagem de Caravaggio, só que o cinto agora é mais grosso e permite esconder totalmente a carta vencedora. Os quadros podem ser vistos como ilustrações imagéticas contra o vício.

O trapaceiro, provavelmente mancomunado com a prostituta situada ao centro, enganam um jovem, à esquerda, enquanto a criada serve vinho à jogadora do centro. Assim, a luxúria, o jogo e o vinho são condenados, enquanto o rapaz da direita é visto como a vítima inocente, o cordeiro a ser devorado pelos lobos.

O francês Paul Cézanne, ao final do século XIX, trata o mesmo tema, em Os jogadores de cartas, uma série de cinco quadros realizados entre 1890 e 1892, utilizados provavelmente para o estudo de linhas e volumes. Embora eles não sejam datados, a maioria da crítica considera que, na primeira versão, o artista pintou a cena com quatro personagens, simplificando-a até chegar a dois nas duas últimas telas.

Na versão com quatro homens, três estão sentados, jogando, enquanto outro observa em pé. Na parede, há quatro cachimbos, mas eles não correspondem aos retratados, pois um quinto permanece sobre a mesa de jogo e o que está em pé fuma um outro. Está instaurado o mistério, embora, em Cézanne, o mais importante sejam as formas, as cores e os volumes, não os temas.

Na tela que é considerada a última, há dois homens com trajes típicos da região francesa, jogando, frente a frente, e a perspectiva não é mais a tradicional, sendo quebrada pelos joelhos irrealmente curvados das personagens. Além disso, a garrafa sobre a mesa auxilia a dividir o quadro em duas metades, criando um simétrico jogo de formas, que será aperfeiçoado e radicalizado nos trabalhos seguintes do artista.

Essa jornada histórica nos permite chegar em La carta ganadora, de Micaela Schreckenberg. É a única tela que mostra apenas mulheres, três senhoras numa partida de cartas. Como se observa pelas roupas e pelo lustre, a cena ocorre no século XX. A jogadora da direita, mais gorda, vestida de azul, destaca-se pela desproporcionalidade e sorri, sendo ainda a responsável por marcar os pontos.

A figura de centro, de vestido branco, aperta contra o peito, com adorável ingenuidade e doce malandragem, uma carta, provavelmente a vencedora, a que intitula o quadro. Quanto à figura da direita, em verde, com colar de pérolas, assim como a figura do centro nas obras de La Tour, mantém os olhos fechados e as cartas bem dobradas, o que nos permite vê-las, numa intensa quebra de perspectiva. Perto dela, sobre a mesa, há um lenço branco, assim como um copo de vinho, algo também presente em La Tour. Ao fundo, à esquerda, uma cortina amarrada, deixa ver uma cadeira e uma grande jarro com flores.

Em síntese, Caravaggio denuncia a trapaça no jogo em uma tela um pouco afastada de seus tradicionais e intensos claros e escuros, enquanto La Tour enfoca três vícios, numa pintura interpretada por alguns como uma ilustração da parábola bíblica do filho pródigo, narrada no Evangelho de Lucas (15, 11-30), em que o caçula da família; na tela, o jogador da direita que está sendo enganado; abandona o lar, esbanja sua herança e retorna, sendo perdoado pelo pai.

Cézanne, por seu turno, deixa de lado a questão moralizante, concentrando-se no apuro formal e Micaela toma o tema dos jogadores por uma perspectiva naïf, em que a malandragem presente em Caravaggio e La Tour é substituída pela inocência da idosa, que segura contra o peito a carta que lhe dará a vitória.

Enquanto uma adversária sorri, a outra permanece de olhos fechados à espera do desfecho, estabelecendo um ambiente aconchegante e familiar, bem distante dos outros quadros, que se dão em locais públicos, tais como bares ou prostíbulos, como aparentam as cenas criadas por Caravaggio e La Tour.

Magrini diz que Micaela é uma "excelente pintora", "moralista ímpar a seu modo", valendo-se da máxima do orador romano Cícero Castigat ridendo mores ("Sorrindo é que se castigam os costumes". Se isso vale para as pinturas sobre prostitutas, não se aplica a La carta ganadora. Há muito mais de simpatia naïf à ingenuidade da senhora com a carta contra o corpo do que de crítica ao hábito de elas jogarem suas partidas de baralho.

Micaela considera sua pintura um diálogo constante com a vida. "É a minha forma de revelar as essências. A livre associação, não racional, me permite transitar num caminho iluminado, sorrindo sempre pelo sentido que encontrei para a minha existência". Para chegar a esse estágio, afirma que passou por várias etapas em seu processo de criação: a dúvida, o ensaio, o erro, o descobrimento e "atualmente a transcendência da reflexão que impregna a sabedoria".

Quadros como La carta vencedora mostram todo o talento de Micaela Schreckenberg. A pintora argentina revela desenvoltura no trato com as cores e trabalha formas em busca de composições equilibradas que cativam o observador pelas relações internas, num estilo naïf marcado pelo trabalho com as desproporções e cores fortes.

A sensibilidade é uma constante em Micaela. Está sempre presente, seja num par dançando tango, num anjo com seu livro de cantos, numa composição de cores tropicais com variadas flores e folhas; ou no retrato delicado de cenas cotidianas, em que uma carta escondida, junto ao peito, com terna ingenuidade e meigo sorriso, pode decidir o resultado de uma inocente partida entre três senhoras numa singela sala de jantar.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus, (Editora Unesp).

 
 

 

 

 

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