por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

Meninas e Mulheres, de Bia Black

 

            “Acho a mulher o mais incomparável vir-a-ser que tem neste mundo”. A frase do escritor paulista Mario de Andrade traz à tona numerosas questões sobre o significado de ser mulher e, em conseqüência, da transformação de mulheres em meninas e vice-versa, pois se, por um lado, elas amadurecem com o tempo; por outro, podem retomar a sua faceta menina com o passar dos anos.

O trabalho plástico de Bia Black reforça essa idéia. Por um lado, a exposição homenageia a mãe da artista, Margarida, nascida em 1924, inclusive com uma monotipia em papel de uma foto dela com a filha que se torna ponto de partida para uma delicada interferência plástica sobre a passagem do tempo.

O trabalho da artista inclui telas de figuras femininas sem rosto, anônimas e universais. Com instigante uso de cores e texturas, mostram imagens femininas  que apontam para a universalidade da dádiva e das penas de ser mulher. Temos assim, alusões ao Oriente, à afrodescendência, à infância, à maternidade e à sensualidade. Há ainda telas com predomínio da cor vermelha, em que é ressaltado o trabalho com texturas e a interferência de diversos elementos, como textos na forma de colagens.

Afinal, por meio da arte, diversas brasileiras atingiram o que há de melhor em termos artísticos. Nos trabalhos de Bia Black, mulheres, geralmente isoladas, delimitadas muitas vezes por linhas retas, estabelecem um mundo de interrogações. O que significa para elas ser menina? Como é o tornar-se mulher? Quando se dá essa transformação? Ela ocorre no corpo, na mente, em ambos?

Ao olhar esta exposição, na Casa Caiada 35, em São Paulo, SP, com abertura em 8 de março de 2007, Dia Internacional da Mulher, é quase impossível não refletir sobre a importância delas, conhecidas ou não, para a cultura nacional, principalmente no que diz respeito à valorização delas por um poder que não está em coroas de rainha ou em cargos públicos, mas em atitudes e ações.

            Nessa ótica, figuras imortais da cultura brasileira como a escritora Clarice Lispector (1920-77), a poeta Cora Coralina (1889-1985), a romancista Rachel de Queiroz (1919-2003), a musicista Chiquinha Gonzaga (1847-1935), as pintoras Anita Malfatti (1889-1964) e Tarsila do Amaral (1886-1973), a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), as bailarinas Márcia Haydée (1937) e Ana Botafogo (1957), a cantora lírica Bidu Sayão (1906-1999), a atriz Cacilda Becker (1921-1969) e a cantora Carmen Miranda (1909-1955) caminham ao lado de figuras sem rosto que também foram meninas.

            Bia Black revela como o potencial feminino que Mário de Andrade nos alertava pode se realizar plenamente. Nas artes de escrever, pintar, compor ou representar, o “vir-a-ser” do escritor paulistano se realiza em seres que caminham para a imortalidade pela sua contribuição. Mas isso não é privilégio de pessoas iluminadas. Está acessível a todas as meninas presentes nos quadros da artista.

            A pintora derruba a possibilidade de criar rígidas fronteiras entre ser menina e ser mulher. Os limites tênues permitem criar imagens de mulheres prontas a se desenvolver. Têm pureza e sobriedade independentes da idade. Comportam o desejo de se superar constantemente, vindo-a-ser esteios e suportes de nossa civilização.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 



 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio