por Oscar D'Ambrosio


 

 


Memórias íntimas de todos nós de Genésio Teles

 

A exposição Memórias íntimas de todos nós parte da história pessoal do artista plástico Genésio Teles para atingir os arquétipos que tratam de toda relação entre pais e filhos e entre cada um de nós e a sociedade circundante, tanto pelas possibilidades como pelas limitações que ela oferece.

Nascido em 1947, em Botucatu, SP, Teles, que chegou a utilizar raspagem em negativos com monocromia de sombra e luz, realizou cursos de pigmentação na Itália e mantém, como uma de suas características, uma visão crítica e muito pessoal sobre o presente e o futuro.

Sua jornada plástica inclui exposições em países como Espanha, Portugal, França e EUA, além de diversas cidades brasileiras, sempre com uma forma muito própria de lidar com o mundo e de pensar a arte como uma expressão feita para a comunicação entre o criador e o público.

A presente série, toda em tinta acrílica sobre lona, consiste num poético revisitar sobre a própria história e a do pai, por muitos anos Chefe de Trem da Estrada de Ferro Sorocabana. As lembranças familiares vêm associadas a novos temas num jogo de intensa poeticidade e ludismo.

desde imagens que se referem diretamente à família do artista, recriadas a partir de antigas fotos, a depoimentos visuais sobre as localidades pelas quais Teles passou em diversas cidades brasileiras. Isso inclui o envolvimento com os sem-terra, a observação do cotidiano da cidade de São Paulo em dias de chuva ou a saga de migrantes em busca de novas chances na vida.

Além das 25 imagens que a exposição oferece, acompanha o projeto o texto “Cem dias de solidão a dois”, em que Teles trata de sua complexa relação com o pai, inclusive a dificuldade de sua aceitação como artista plástico, fato que só aconteceu pouco antes do falecimento dele, em 2007.

Também está prevista a colocação, numa vitrine, das ferramentas que o pai utilizava em suas diversas atividades em São Paulo. Trata-se de uma homenagem singela e sincera para coroar um diálogo nem sempre harmonioso, mas que, no fundo, constitui um retrato da dificuldade dos artistas sobreviverem de seu trabalho e de conseguirem reconhecimento por isso.

Especificamente em relação às obras apresentadas, há uma predominância do vermelho, talvez por se tratar de pinturas absolutamente viscerais, em que o artista plástico não abre mão de sua técnica para falar com o público, mas o faz de uma maneira muito lírica.

Cada obra, nesse sentido, é um depoimento de um estado de alma do artista. Funciona como uma carta de intenções de sua humanidade e como uma forma de dizer que permanece vivo e ativo num processo de constante transformação, apresentando sempre a qualidade como condição essencial de estar no mundo e de criar dentro dele.

A pintura se dá então como elo de comunicação e como uma maneira de sobrevivência. Trata-se de um depoimento diferenciado e de uma manifestação visual em que Genésio Teles retoma a própria vida e a oferece ao público sem mágoa, com singela leveza, e, ao se reaproximar do paitraça uma memória íntima que divide com todos nós.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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