Mazzilli
Um
lírico
vitorioso
Nascido
em 1963,
em
São José do
Rio
Pardo, SP,
Domingos Mazzilli
Júnior,
que passou
sua
infância no
interior de
Minas
Gerais e está
hoje radicado
em
Belo
Horizonte, assina
seus
trabalhos
como Mazzilli.
Ele tem o
poder de,
com
sua
obra
plástica,
fornecer
distintos
graus de
revelação aos
que conhecem as
suas
criações.
Não se
trata de
um
momento
sagrado no
sentido
puramente
religioso,
mas de uma
postura existencial. A
forma
como utiliza os
mais
diversos
objetos
comporta uma cristalização de
interpretações do
real. Estão
ali
imagens
que guardam
bem
mais do
que pode parecer à
primeira
vista.
Seu
maior
segredo está
em
oferecer
algo
novo naquilo
que se acredita
conhecido. Há o
talento de
ver o
cotidiano
como se fosse
único. A
maior
arte está numa
dimensão, muitas
vezes ignorada pelas
manifestações contemporâneas, de
verificar
como o
que está
próximo de
nos
guarda os
maiores
mistérios
por
não
ser praticamente
visto.
Nesse
sentido, existe
mais
ciência
em
saber de
fato
ver o
nosso entorno do
que
em
explorar o
cosmos.
Em boa
parte do
trabalho
plástico de Mazzilli, a
fascinação
pelo
bordado decorre
pelo
uso da
linha e da
agulha
como
elementos construtores de uma
narrativa.
Muito
mais do
que a
visão do
feminino está
em
jogo. O
grande
assunto é a
própria
liberdade de
expressão
humana, cerceada há
séculos.
Quando o
artista retoma,
por
exemplo,
objetos relacionados
com as
tradições católicas, aponta
para
todo
um
universo
em
que o
interdito
sempre é
maior
que o
dito.
A
voz
que o
objeto
ganha ao
longo dos
anos
geralmente se amplia
pela possibilidade da
arte
enxergar nele
não
apenas o
manifesto,
mas,
principalmente, de
desvendar
tudo
aquilo
que
ele
guarda.
Isso ocorre
em
sua
essência
pelo
processo de
construção do
objeto e
por
tudo
aquilo
que
este
guarda à
espera do
olhar
que o liberte.
A
tendência da
obra de Mazzilli é a de
buscar
cada
vez
mais uma
limpeza
formal
para
que a
sua
linguagem
contemporânea se expresse proporcionalmente
mais
pela
imagem e
menos
pelo
texto. Nesse
aspecto, o
bordado
entendido
como uma
tradição
artesanal construtora de representações
ganhará
força.
O
artista consegue
dar às
mais variadas
dimensões da
angústia do
ser
humano de
hoje uma
visibilidade
que ultrapassa a
dialética do
sagrado e do
profano.
Sua
poética se localiza
além da
sexualidade e da
palavra, numa
esfera
muito
mais
ligada à
existência do
que a
mera
sobrevivência do
dia-a-dia
em
que estamos mergulhados.
Os
melhores
momentos de
sua
obra atingem o
âmago de
cada
um de
nós, uma
matriz
primordial
em
eterna
mutação
que
nos faz
indagar
sobre o
sentido da
vida
atual e de
seu
ritmo alucinante
rumo a
lugar
algum. Ao
conseguir
que
cada
observador pare
um
pouco essa
roda-viva
para
entrar
em
seu
trabalho, Mazzilli é
um
parcial e
lírico
vitorioso.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).