por Oscar D'Ambrosio


 

 


Mazzilli

 

            Um lírico vitorioso

 

Nascido em 1963, em São José do Rio Pardo, SP, Domingos Mazzilli Júnior, que passou sua infância no interior de Minas Gerais e está hoje radicado em Belo Horizonte, assina seus trabalhos como Mazzilli. Ele tem  o poder de, com sua obra plástica, fornecer distintos graus de revelação aos que conhecem as suas criações.

Não se trata de um momento sagrado no sentido puramente religioso, mas de uma postura existencial. A forma como utiliza os mais diversos objetos comporta uma cristalização de interpretações do real. Estão ali imagens que guardam bem mais do que pode  parecer à primeira vista.

Seu maior segredo está em oferecer algo novo naquilo que se acredita conhecido. Há o talento de ver o cotidiano como se fosse único. A maior arte está numa dimensão, muitas vezes ignorada pelas manifestações contemporâneas, de verificar como o que está próximo de nos guarda os maiores mistérios por não ser praticamente visto.

Nesse sentido, existe mais ciência em saber de fato ver o nosso entorno do que em explorar o cosmos. Em boa parte do trabalho plástico de Mazzilli, a fascinação pelo bordado decorre pelo uso da linha e da agulha como elementos construtores de uma narrativa.

Muito mais do que a visão do feminino está em jogo. O grande assunto é a própria liberdade de expressão humana, cerceada há séculos. Quando o artista retoma, por exemplo, objetos relacionados com as tradições católicas, aponta para todo um universo em que o interdito sempre é maior que o dito.

A voz que o objeto ganha ao longo dos anos geralmente se amplia pela possibilidade da arte enxergar nele não apenas o manifesto, mas, principalmente, de desvendar tudo aquilo que ele guarda. Isso ocorre em sua essência pelo processo de construção do objeto e por tudo aquilo que este guarda à espera do olhar que o liberte.

A tendência da obra de Mazzilli é a de buscar cada vez mais uma limpeza formal para que a sua linguagem contemporânea se expresse proporcionalmente mais pela imagem e menos pelo texto. Nesse aspecto, o bordado entendido como uma tradição artesanal construtora de representações ganhará força.

O artista consegue dar às mais variadas dimensões da angústia do ser humano de hoje uma visibilidade que ultrapassa a dialética do sagrado e do profano. Sua poética se localiza além da sexualidade e da palavra, numa esfera muito mais ligada à existência do que a mera sobrevivência do dia-a-dia em que estamos mergulhados.

Os melhores momentos de sua obra atingem o âmago de cada um de nós, uma  matriz primordial em eterna mutação que nos faz indagar sobre o sentido da vida atual e de seu ritmo alucinante rumo a lugar algum. Ao conseguir que cada observador pare um pouco essa roda-viva para entrar em seu trabalho, Mazzilli é um parcial e lírico vitorioso.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

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  Breakfast at Tiffany's (homenagem a Audrey Hepburn)
 broche e bordado sobre vestido 144x49 cm 2007

Mazzilli

 

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