por Oscar D'Ambrosio


 

 
 
Mauro Rombi

 

            Uma ilha muito pessoal

 

            Há obras de arte que somente podem ser feitas por um determinado artista dentro de um realidade que ele conhece bem e com a qual estabelece um casamento harmonioso que resulta numa solução plástica única e própria. Esse é o caso das fotografias do italiano Mauro Rombi que têm como assunto casas rurais da Ilha de São Pedro, litoral sul da Sardenha, Itália.

Intitulado O recanto – fotografias 1986/2006, de 5 a 23 de julho de 2006, na Sala Alex Vallauri, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, SP, o trabalho impressiona  pela limpeza estética das imagens captadas. Como aponta, no texto de apresentação, o curador Fernando Durão, há ali mais do que arquitetura do Mediterrâneo ou ainda um jogo sutil de planos geométricos que são construídos de modo a conquistar o espectador.

O que há de mais impactante nesse trabalho? Talvez seja preciso retomar a própria complexidade da ilha natal do fotógrafo, ali nascido em 1957. Localizada no mar Tirreno, a quase 200 km do continente e ao sul da Ilha de Córsega, é uma região montanhosa cortada por vales estreitos e profundos.

Nada disso está nas fotos explicitamente, mas há sim sugestões do relevo em certas angulações que anunciam caminhos de terra prontos a comunicar regiões distintas. Muros de pedra que indicam aridez também se fazem presentes num conjunto em que as paredes brancas ocupam a maior parte do espaço num diálogo com a intensidade do azul do céu.

A economia local, essencialmente agropecuária, baseia-se no trigo, na azeitona e na uva, além da criação de cabras e carneiros. O peixe e a cortiça também são produtos importantes. Novamente, esses elementos econômicos não estão explicitados nas imagens, mas surgem, evocados, pelos poucos elementos verdes em um mundo de brancos e azuis. A natureza ali está, quase escondida, mas vigorosa.

A Sardenha é um caldeirão de culturas. Foi ocupada, sucessivamente, por fenícios, cartagineses, romanos, vândalos e bizantinos. Devido a disputas políticas, pertenceu à Espanha e à Áustria. Liderou a luta pela unificação italiana, e Reino desde 1718, derrotado na luta contra a Revolução Francesa, formou, em 1861, o núcleo do recém-criado reino da Itália.

Esses dados também não podem ser vistos nas fotos de Rombi, mas são elementos que nos ajudam a ter uma visão histórica das imagens do artista. Trata-se de um mundo de linhas retas em que a natureza, quase ausente, comparece apenas em algumas plantas e pastos.

O mistério plástico se instaura pelos sucessivos tons de branco captados pelas lentes do fotógrafo na visualização das mencionadas paredes. Geralmente criando perspectivas às vezes esses conjuntos de brancos parecem a parte dianteira de um navio a sair da imagem e penetrar em nossa mente.

Aí está parte do segredo das imagens de Rombi. Elas saem do espaço fotográfico e provocam o desejo de viajar. Não se trata da ingênua ilusão de que ver as fotos significa ir para a Sardenha. Pelo contrário, as fotografias não nos levam até a Sardenha, mas a trazem até nós.

Como o navio fantasma imortalizado na ópera de Wagner, cada imagem se move como um barco a estabelecer uma ponte entre mundos. Elas esticam uma ponte pênsil e nos convidam a realizar o próprio cruzeiro, marcado pelo branco das paredes, o azul do céu e os verdes da vegetação, num triângulo cromático muito pessoal, em que as pedras fazem o papel de cor complementar a acentuar certa aridez.

O universo rural italiano de Mauro Rombi é uma das visões possíveis do antigo reino. Seu recorte não é apenas o de um recanto, mas, sim, o de um mundo com poucas sombras e muita luz, numerosas angulações de linhas e diminutas curvas. Trata-se de uma Sardenha acessível a poucos, como o talentoso fotógrafo, que nos mostra a sua ilha e nos leva a mergulhar nas profundezas de cada um de nós.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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O recanto
Fotografias (1986/2006)

Mauro Rombi

 

 

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