por Oscar D'Ambrosio


 

 


Mauricio Parra

 

            A força dos ícones

 

            O termo ícone vem do grego eikon e tem, no mínimo, dois significados muito importantes. Por um lado, refere-se às igrejas russa e grega, a pinturas sagradas em madeira, pedra ou metal que retratam, individualmente, Cristo, a Virgem Maria, santos ou anjos individualmente. Por outro, refere-se, na lingüística de Peirce, a sinais que tem uma relação de semelhança com a realidade exterior. Sendo assim, a imagem de um objeto, de uma casa ou de uma  pessoa é um ícone enquanto se aproxima do modelo real. 

O conhecimento dos ícones da arte bizantina e de artistas que trabalham com o conceito do ícone como forma de representação, como o inglês Francis Bacon, são passos importantes para penetrar no universo criativo de Maurício Parra, que, com suas conchas, parafusos e papas ou anti-papas diluídos e mesclados com a figura de Cristo crucificado.

Nascido em 24 de outubro de 1976, em São Paulo, SP, o artista mudou com dois meses de idade com a família para Pindamonhangaba, SP, onde viveu até 2000, quando se mudou para São Paulo. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Taubaté (Unitau), em 2000, e. durante o curso, despertou para a prática da pintura.

Inicialmente, o seu trabalho foi marcado pela abstração. As suas referências eram principalmente Kandinski, Mondrian e Paul Klee. No entanto, o próprio Parra começou a sentir a falta da figura em sua obra. Por isso, iniciou pesquisas estéticas que levaram a um segundo momento.

Surgem então imagens – ícones – de objetos cotidianos, como cadeiras, mesas, armários, liquidificadores e outros eletrodomésticos, a maioria pintados em telas de grandes dimensões. Os artistas preferidos mudam, com o contato com as obras de Picasso, De Chirico e Daniel Senise, entre outros, que souberam dar a elementos e formas aparentemente desprovidos de valor artístico interpretações imagéticas insuspeitadas.

Faltava, porém, mais um passo: a inclusão da figura humana. Parra traz para tela pessoas de suas relações afetivas – como namoradas – e episódios da própria vida num estilo muitas vezes marcadas pelo expressionismo. Com o fim do curso universitário, a arte se torna parte essencial da sua  existência, o que o leva a apreciar criadores de composições viscerais, plenos de energia no trato das formas, como os brasileiros Di Cavalcanti, Portinari e Aldemir Martins, além dos estrangeiros Otto Dix, Kirchner e Klimt.

            Com o desejo de mergulhar ainda mais na compreensão da arte como parceira fiel e umbilical de sua vida, Parra se muda para São Paulo, em 2001, para iniciar o curso de pós-graduação em História da Arte na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Conhece então – e passa a freqüentar –  o ateliê do artista Rubens Matuck.

A grande transformação é que Parra passa a compreender que a importância do processo vai muito além do resultado. Começa a conhecer e a se apaixonar pelas técnicas de pinturas, seus processos e suportes. Adquire então a consciência de que o enfoque ético e artístico que se tem sobre o ato de pintar é mais importante do que a temática.

            A conseqüência desse processo é o retorno à pintura de objetos do cotidiano, principalmente os mencionados parafusos, martelos e conchas. Mais importantes do que eles, são as formas que evocam e os usos que permitem. Além de Matuck, artistas como Morandi, Poussin, o já mencionado Francis Bacon e Vermeer tornam-se focos de reflexão artística.

            Parra, que já realizou exposições individuas em São Bernardo do Campo e Taubaté, e participou de coletivas em Piracicaba, Santos e São Paulo, oferece, com sua pintura a óleo figurativa, toda a força expressiva dos ícones bizantinos, essenciais na história da arte justamente pelo poder de evocar o divino de uma forma religiosa, sem dúvida, mas, principalmente, plena de soluções estéticas, em termos de forma e equilíbrio, que seriam – e , de certo modo, são – referência até a exaustão.

            Em trabalhos como o de papas aparentemente diluídos (ou derretidos?), que parecem gritar de dor perante a crucificação ou, talvez, gargalhar indiferentes ao sofrimento alheio, a arte de Mauricio Parra revela, além de um progressivo domínio de cores, formas e materiais, uma imensa humanidade.

Assim, os ícones do artista, sejam imagens humanas, parafusos ou conchas, têm uma densidade que os torna referências da passagem do tempo, da precariedade das coisas e da certeza de que apenas a grande arte, realizada com sólidos princípios éticos e técnicos, permanece.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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óleo sobre tela

73 x 39,5 cm -  2001

Mauricio Parra

 

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