por Oscar D'Ambrosio


 

 


.

Matusalém Silvério

 

            A dança das cores

 

            No momento em que os rótulos na história da arte vêm sendo questionados e nomenclaturas como naïf, arte ingênua e cultura popular têm sua legitimidade colocada em xeque, artistas como Matusalém Silvério precisam ter a sua obra visual revisitada. Os textos e imagens que deixou constituem um registro com dois valores: o estético e o cultural, pois sua arte é, acima de tudo, uma forma brasileira de ver o mundo.

            Nascido em Perdões, MG, em 24 de dezembro de 1945, filho de pais lavradores, desde as primeiras viagens se apaixonou pela cultura popular, principalmente por manifestações como a congada e folias de reis. Radicado em São Paulo, SP, desde os anos 1960, seu olhar para a cultura popular foi o de um estudioso nato, que gravava e anotava o que via, e também do artista, que transportava para suportes bidimensionais esse rico universo.

            Tendo atuado como capitão de grupo e embaixador de folia, Matusalém unia à prática de pintor o dinamismo do dançarino. A observação das diferenças entre o folclore no passado e no presente o levou não só a conhecer profundamente o tema como a se tornar uma referência para artistas voltadas para a arte popular, como a cantora Inezita Barroso.

            Os seus registros audiovisuais estão hoje incorporados à Coleção Geral da  Associação Cultural Cachuera!, em São Paulo. Quanto à sua produção, tanto de pintura como de versos, foi ali exposta, em 2003, com a curadoria de Solange Lisboa. Foi possível ver então, em 40 pinturas e 30 serigrafias, sua visão de manifestações como batuque, congadas, folias de reis e moçambiques, entre outros.

            Todo esse universo foi levado para a arte visual por Matusalém, com alguns elementos diferenciadores. O primeiro está no seu amor pela cor. É no contraste entre elas e no uso de tonalidades quentes que sua obra se diferencia. A dança torna-se o elemento primordial e surge de variadas maneiras.

            Geralmente são grupos de pessoas, que retratam situações reais e mesclas imaginárias de tendências e grupos numa festa para os olhos. Engana-se, porém, quem pensa que essas pinturas tenham apenas valor antropológico ou folclórico. Elas abordam os temas de predileção do artista com algumas constantes plásticas.

            A principal está no equilíbrio das composições. É geralmente possível dividir a imagem na horizontal ou na vertical de maneira a compor áreas onde os olhos do observador se concentram. Não cabe perguntar se isso é proposital ou não, mas sim verificar como essa construção visual torna as suas pinturas cativantes.

            Há ainda uma preocupação de equilibrar um personagem gigante com vários pequenos, criando uma atmosfera toda peculiar. Quando há duas figuras centrais, o movimento de uma para cima e outra para baixo garante o dinamismo da tela. E, nos grupos, cada figura é diferente, o que impede a monotonia do conjunto.

            Pesquisador do folclore, poeta e pintor, não necessariamente nessa ordem de importância, Matusalém Silvério, com suas danças e cores, preenche uma importante lacuna na cultura nacional. Devotou-se a ela e a expressou de diversas formas, todas marcadas pela seriedade da pesquisa, pelo bom humor e por uma dedicação ímpar às expressões populares brasileiras.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto


Cabra Bão de Folia

óleo sobre tela 53 x 144 cm 2000

Matusalém Silvério

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio