por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

            Matinê, de Eduardo Schamó

 

            A exposição do artista plástico Eduardo Schamó, no Reserva Cultural, em São Paulo, SP, por meio de colagens e esculturas, propicia uma reflexão de como a arte pode ser feita a partir dos mais diversos materiais, muitos geralmente jogados fora como refugo de uma sociedade consumista, na qual o valor de uso está em primeiro plano.

Caixas de isopor, chaves e outros pequenos objetos são a matéria e o suporte com o qual Schamó faz a sua viagem pelo cinema. A leitura de sua jornada, como o título da exposição indica, é o de uma matinê, ou seja, uma sessão de cinema vespertina em que geralmente a diversão é mais importante que o intelecto.

O lúdico é fundamental no trabalho de Schamó, mas não se trata de entendê-lo como meramente diversional, mas sim de perceber como é possível indiciar temas sérios tendo como ponto de partida o cotidiano e objetos que muitas vezes nos passam despercebidos.

A partir de alguns filmes, o artista alimenta nosso imaginário com visões surpreendentes. O painel central, baseado em colagens, feito a partir de Gritos e sussurros, de Ingmar Bergman, destaca algumas palavras, como “violência” e “ilusão” num contexto fragmentário. Trata-se de um retrato da sociedade contemporânea, marcada justamente por visões multifacetadas em que o todo geralmente prevalece à soma das partes.   

            Referência obrigatória para cinéfilos, Cidadão Kane, de Orson Welles, se faz presente por meio da alusão ao trenó, objeto de desejo do protagonista do filme, feito com caixa de isopor. O artista cobre o material com jornais, estabelecendo um diálogo com o magnata, que tem como atividade primordial uma rede de jornalismo impresso.          

            Os trabalhos sobre os filmes Marte ataca!, com uma alusão direta a discos voadores, e Jurassic Park, com uma caveira que indica o mundo pré-histórico e sinaliza para toda a comunicação visual do filme, merecem destaque pela forma bem-humorada como seus principais elementos ganham a forma visual.

            No conjunto, as esculturas e a colagem apontam para o talento de Eduardo Schamó de trazer para a exposição a linguagem das matinês, com sua peculiaridade de propiciar diversão, mas sem perder aquilo que mais o caracteriza enquanto criador plástico: a capacidade de provocar no público o ato de pensar.

Esse desafio o artista argentino radicado no Brasil cumpre com distinção. Suas obras partem de referências do cinema para promover a indagação sobre os materiais utilizados. Evocam, portanto, tanto a memória cinematográfica de cada um como a capacidade de observar como diferentes suportes são reciclados em nome de uma produção artística que se sustenta pelo poder de impedir a acomodação mental e de estimular o ato de perguntar sempre.              

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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