por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

 

Martha W. Farias

 

            Oferendas da Bahia

 

            Um dos mistérios da Bahia está na quantidade e qualidade dos artistas plásticos que ela oferece. Talvez a raiz dessa produção esteja na confluência de diversos elementos, que vão desde as belezas naturais até a forte presença da religiosidade em tudo que envolve o Estado.

            A obra plástica de Martha W. Farias se insere justamente nesse universo em que o místico e o pictórico se encontram. Suas baianas pintadas não são apenas ícones à espera de fria análise técnica ou conceitual. Extravasam um desejo de transcendência presente em cada pincelada.

            As imagens não se bastam apenas enquanto símbolos de , mas concretizam, mesmo para quem pode não ser afeito ao  candomblé, um bem realizado exercício pictórico, seja na construção de camadas, seja na busca de um resultado final em que a técnica e o assunto escolhido dialoguem em harmonia.

Martha também não se atém a um mero exercício de resgate de raízes. Sua forma de mostrar as baianas traz uma forte carga de sensibilidade, seguramente garantida pela sua intimidade com o tema e pela certeza de que as suas baianas não são fruto de um mero exercício, mas sim de um conhecimento prévio do tema.

O grande mérito de sua pintura está na direção de captar, por meio das cores vibrantes, a energia e a espiritualidade das baianas, mostradas em  variadas situações, seja em locais específicos, como a lagoa do Abaeté, ou em ações cotidianas, carregando, por exemplo, cestos com flores e frutas.

O maior interesse nessas imagens é que a religiosidade e a busca de atingir novos patamares da consciência pode ocorrer nas ações do dia-a-dia. Não é necessária a instauração de um clima mágico, pois magia está no cotidiano que a própria Bahia propicia.

Martha realiza uma prática pictórica que se vale dos jogos de cores e da distribuição delas em áreas para obter efeitos visuais. O desafio é dar a cada tela o frescor de uma espiritualidade que se renova a cada momento, que se alimenta de si mesma num círculo virtuoso impulsionado pela e pela alegria de viver.

A tela Oferenda, nesse sentido, talvez seja uma da mais significativas da pintora, pois consegue um belo resultado ao compor  uma figura humana com um fundo mais destruído, que se torna uma abstração, onde o essencial está na maneira como as cores são aplicadas para erguer uma atmosfera de encantamento.

É no lidar com os planos que os elos emocionais entre a artista e as suas baianas são melhor vistos. Da união entre aquilo que não se e o que se pode contemplar resulta uma riqueza que precisa se absorvida quadro a quadro, pois uma visão apressada faz perder as nuanças de cada trabalho isoladamente e dele relacionado ao todo.

Os quadros de Martha W. Farias cruzam diversos níveis de leitura. Tanto a parte técnica quanto a ritualística se coadunam para propiciar ao observador um conjunto que se caracteriza por realçar que a divindade pode tanto estar no simples ato de carregar flores como na realização de uma oferenda propriamente dita. O importante está naquilo que, de fato, se faz, e se sente com sinceridade.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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Oferenda
óleo sobre tela 100 x 60 cm sem data

Martha W. Farias

 

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