Martha W. Farias
Oferendas da Bahia
Um dos
mistérios da Bahia está na
quantidade e
qualidade dos
artistas
plásticos
que
ela oferece.
Talvez a
raiz dessa
produção esteja na
confluência de
diversos
elementos,
que
vão
desde as
belezas
naturais
até a
forte
presença da religiosidade
em
tudo
que envolve o
Estado.
A
obra
plástica de Martha W. Farias se insere
justamente nesse
universo
em
que o místico e o
pictórico se encontram.
Suas
baianas pintadas
não
são
apenas
ícones à
espera de
fria
análise
técnica
ou
conceitual. Extravasam
um
desejo de
transcendência
presente
em
cada
pincelada.
As
imagens
não se bastam
apenas
enquanto
símbolos de
fé,
mas concretizam,
mesmo
para
quem pode
não
ser
afeito ao candomblé,
um
bem realizado
exercício
pictórico, seja na
construção de
camadas, seja na
busca de
um
resultado
final
em
que a
técnica e o
assunto escolhido dialoguem
em
harmonia.
Martha
também
não se atém a
um
mero
exercício de
resgate de raízes.
Sua
forma de
mostrar as
baianas traz uma
forte
carga de
sensibilidade,
seguramente garantida
pela
sua
intimidade
com o
tema e
pela
certeza de
que as
suas
baianas
não
são
fruto de
um
mero
exercício,
mas
sim de
um
conhecimento
prévio do
tema.
O
grande
mérito de
sua
pintura está na
direção de
captar,
por
meio das
cores vibrantes, a
energia e a
espiritualidade das
baianas, mostradas
em variadas
situações, seja
em
locais
específicos,
como a
lagoa do Abaeté,
ou
em
ações cotidianas, carregando,
por
exemplo,
cestos
com
flores e
frutas.
O
maior
interesse nessas
imagens é
que a religiosidade e a
busca de
atingir
novos
patamares da
consciência pode
ocorrer nas
ações do
dia-a-dia.
Não é
necessária a instauração de
um
clima
mágico,
pois
magia
já está no
cotidiano
que a
própria Bahia propicia.
Martha realiza uma
prática
pictórica
que se
vale dos
jogos de
cores e da
distribuição delas
em
áreas
para
obter
efeitos
visuais. O
desafio é
dar a
cada
tela o
frescor de uma
espiritualidade
que se renova a
cada
momento,
já
que se
alimenta de
si
mesma num
círculo
virtuoso impulsionado
pela
fé e
pela
alegria de
viver.
A
tela
Oferenda, nesse
sentido,
talvez seja uma da
mais significativas da pintora,
pois consegue
um
belo
resultado ao
compor uma
figura
humana
com
um
fundo
mais destruído,
que se
torna uma
abstração,
onde o
essencial está na
maneira
como as
cores
são aplicadas
para
erguer uma
atmosfera de
encantamento.
É no
lidar
com os
planos
que os
elos
emocionais
entre a
artista e as
suas
baianas
são
melhor
vistos. Da
união
entre
aquilo
que
não se
vê e o
que se pode
contemplar resulta uma
riqueza
que
precisa se absorvida
quadro a
quadro,
pois uma
visão
apressada faz
perder as nuanças de
cada
trabalho isoladamente e dele relacionado ao
todo.
Os
quadros de Martha W. Farias cruzam
diversos
níveis de
leitura.
Tanto a
parte
técnica
quanto a ritualística se coadunam
para
propiciar ao
observador
um
conjunto
que se caracteriza
por
realçar
que a
divindade pode
tanto
estar no
simples
ato de
carregar
flores
como na
realização de uma
oferenda propriamente
dita. O
importante está naquilo
que, de
fato, se faz,
vê e se sente
com
sinceridade.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da UNESP, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).