por Oscar D'Ambrosio


 

 



Martha Tominaga
O mundo das arcas


Morada protegida por Deus, a arca de Noé é um santuário móvel, que garantiu, de acordo com o Antigo Testamento, a existência dos homens e dos animais após o Dilúvio. Símbolo da presença divina na Terra, pode ser considerada uma representação da própria igreja, pois abriga todos aqueles que a procuram, garantindo a aliança entre Deus e o seu povo.
A embarcação, que navega sobre as águas do Dilúvio purificador da Terra, levando, além do escolhido Noé e sua família, os casais de animais que permitiram a restauração da vida, é justamente o tema preferido da pintora argentina Martha Tominaga, que libera nessa temática um mundo de intensa fantasia e criatividade, caracterizado pelo talento de realizar composições repletas de pequenas imagens que se articulam de forma vivaz e expressiva.
Segundo os numerosos intérpretes da Bíblia , a arca do texto sagrado foi construída de madeira incorruptível, provavelmente de resinas ou acácia, sendo, como a Arca da Aliança entre Deus e os homens, um elo entre o sagrado e o profano. Com seus três andares, respeitados na maioria das representações de Martha, simboliza a Trindade católica, formada pelo Pai, Filho e Espírito Santo.
Nascida em Buenos Aires, a sexagenária Martha Tominaga ingressou no mundo das artes desde a infância, realizando desenhos e flores no estilo de Rabusiu. Realizou, posteriormente, cursos de papel feito a mão e, por mais de 15 anos, estudou diversas atividades artísticas, como papel maché e artesanato japonês. "Acho que, desde que me entendo por gente, sou naïf", comenta.
Sua introdução no mundo da arte naïf ocorreu pelas mãos da artista Alejandra Sanguinetti. Iniciou-se assim uma rotina de exposições individuais e coletivas, que tem como ponto de alto sua inclusão, em 1996, entre os artistas presentes na Galeria Libertad, em Queretaro, México. Isso possibilitou que mais pessoas conheçam o seu trabalho e recebam o convite de participar de um mundo em que a fantasia impera. "Tenhamos o atrevimento de desfrutar daquilo que é genuíno", diz a artista.
O tom autêntico dos trabalhos de Martha pode ser verificado na tela Casamento em "La Gertrudis". O vestido lilás da noiva, o carro com um laço gigante, um balão pronto a partir ao fundo, anjos cantando e tocando instrumentos, além de pombas, imagem tradicionalmente vinculada à paz, dão à cena um toque mágico e próximo ao surrealismo. As roupas do século XIX e a igreja, com uma janela iluminada por dentro, contribuem para uma atmosfera fantástica. "A pintura, com sua magia nos transporta rumo a todos os anos em que vivemos", afirma.
A pintora deixa em suas telas sua marca registrada, um símbolo oriental, presente, por exemplo, dentro do tronco de uma árvore na tela Favela, em que, de cima para baixo, vemos paralelepípedos, uma árvore frondosa, residências, um morro coberto pela copa da árvore e casas sobrepostas com um fundo de palmeiras e antenas de televisão, que conectam esse mundo marginalizado com o resto da sociedade.
Martha declara que produz trabalhos com muitos detalhes, como costuma ocorrer com suas arcas. "Elas são meu tema favorito, justamente porque nelas posso desenvolver tudo o que eu imagino", declara a artista, que só gosta de mostrar telas desenvolvidas com capricho e perfeito acabamento. "Tenho muita paciência", conta.
Um exercício de disciplina está no fato de freqüentar há 15 anos o mesmo ateliê. "Compartilho, com minhas companheiras, alegrias e tristezas; e cada aniversário é festejado com champanhe", afirma, orgulhosa de uma convivência que rende uma ampla experiência de vida, transposta para as suas telas por meio de imagens.
Mas é nas arcas que Martha realiza seu talento, sendo que cada uma delas possui um diferencial. A Arca III, por exemplo, apresenta os tradicionais três andares e numerosos casais de animais. Chama particularmente a atenção a presença de um urso polar e de um alce, além de lençóis pendurados numa espécie de varal, assim como gatos sobre um telhado. Na água, a variedade da fauna é admirável, pois há baleias, patos e tartarugas, enquanto a arca se mantém sobre a água presa por uma âncora lilás, cor que, no universo da Igreja católica, simboliza a ressurreição.
A Arca IV, por sua vez, apresenta semelhante riqueza, destacando-se a figura de um elefante violeta e de uma zebra gorda, além de bóias com o nome Noé escrito nelas. Um pavão no telhado com a cauda aberta também atrai o olhar do espectador, assim como o número elevado de detalhes, que revela a devoção da artista ao seu trabalho. Ao contrário da anterior, porém, não mostra a âncora, e a embarcação parece estar prisioneira em meio ao mar revolto e as pedras.
Menção Honrosa na III Bienal Naïf Internacional 1998, da Fundação Rómulo Raggio, em Vicente López, em Buenos Aires, em Arca VIII, a situação é outra. O tema preferido da artista aparece com formas alongadas, próximas ao surrealismo, enquanto os animais vão entrando. Não se segue a tradição de casais em paralelo, mas sim de uma vasta fauna que se dirige ao refúgio sem uma ordem pré-estabelecida.
Além da presença novamente de um varal no topo da arca, destacam-se as pipas empinadas ao sabor do vento e as estrelas presas à arca por meio de uma tênue linha branca, que parece balançar. Pequenas casas brancas são visualizadas ao longo da costa, o que dá certa humanidade à cena. O sol, a lua e o papagaio invadem a moldura do quadro, o que dá à tela um intenso dinamismo e um irresistível toque de ingenuidade, pois todo o espaço é aproveitado, característica marcante da arte naïf de modo geral.
Na tela A importância de passar despercebido, exibida na IV Bienal Naïf Internacional 2000, da Fundação Rómulo Raggio, em Buenos Aires, há uma visão delicada do tema do racismo, pois aparecem no quadro cinco negros, um deles com uma camiseta com a inscrição Bahamas. Entre eles não há qualquer tipo de preconceito. Cada um aparece com um boné diferente e a atmosfera tropical da cena é acentuada pela presença, em frente a aos protagonistas, de uma mesa com diversas frutas, como melancia, melão, pêra, bananas e cerejas.
Já A importância de passar despercebido I, terceira menção honrosa na Bienal daquele ano, também mostra um grupo de iguais. São 18 idosos, que se irmanam no cabelo branco e nas roupas discretas, em que há a predominância da cor amarela e vários tons azulados, que vão do celeste a um roxo mais escuro. Os rostos diferentes e os tipos variados de penteado conferem dinamismo ao quadro.
Um outro universo surge na tela Festa no avenida. Trata-se de uma homenagem ao centenário, celebrado em 1994, do Teatro homônimo, localizado no número 1222 da Avenida de Mayo, em Buenos Aires. À direita da tela, aparece o caracter chinês que caracteriza o trabalho da autora.
Em frente ao teatro, surgem, entre outras figuras marcantes, vinculadas à cultura espanhola, e simbólicas, palhaços em pernas-de-pau, mulheres com roupas de flamenco e uma florista, que evoca a célebre "violetera" do cinema, a espanhola Sarita Montiel. Também se destacam um mímico, casais com roupas típicas de vários países do mundo e um senhor que leva pela coleira as máscaras gregas da tragédia e da comédia.
A temática religiosa aparece em telas como Para nossa glória, em que uma figura do rosto de Jesus Cristo surge rodeada das faces dos doze apóstolos. O trabalho evoca as obras presentes nas portas e altares de igrejas européias em sua rica sobriedade e sublime elegância ao tratar dos principais temas bíblicos. Cada rosto é diferenciado, o que confere uma dimensão humana ao universo sagrado dos companheiros de peregrinação de Jesus. De fato, a artista consegue aproximar situações bíblicas, seja uma arca ou os discípulos de Cristo, do cotidiano.
O psicólogo suíço Carl Jung considera a arca a imagem do seio materno, universo seguro que navega sobre o mar onde o sol submerge para renascer. Analogamente, a arca é o indício de uma nova etapa, de um mundo pronto a ser reiniciado. Com abordagens originais e imaginativas de temas consagrados e renovada inspiração, Martha trata qualquer tema sempre sob um diferente aspecto. Suas telas possibilitam assim novas visões, mesmo onde parecia que nada de novo poderia ser feito.
Se a arca de Noé pode ser considerada o coração do ser humano, por ser a sede da vida, a arte de Martha Tominaga evoca a capacidade criativa e o amor ao detalhe e ao perfeccionismo que torna cada minuto vivido uma lição de vida. Suas arcas, imagens de grupos e festas acentuam a criatividade da pintora, capaz de tornar cada viagem bíblica numa nova empreitada pelo mundo da imaginação, universo em que impera a liberdade de criação, princípio artístico que a pintora domina com paciência, metodologia e talento.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio