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Martha Tominaga
O mundo das arcas
Morada protegida por Deus, a arca de Noé é um santuário móvel,
que garantiu, de acordo com o Antigo Testamento, a existência dos
homens e dos animais após o Dilúvio. Símbolo da presença
divina na Terra, pode ser considerada uma representação da
própria igreja, pois abriga todos aqueles que a procuram,
garantindo a aliança entre Deus e o seu povo.
A embarcação, que navega sobre as águas do Dilúvio purificador
da Terra, levando, além do escolhido Noé e sua família, os
casais de animais que permitiram a restauração da vida, é
justamente o tema preferido da pintora argentina Martha Tominaga,
que libera nessa temática um mundo de intensa fantasia e
criatividade, caracterizado pelo talento de realizar composições
repletas de pequenas imagens que se articulam de forma vivaz e
expressiva.
Segundo os numerosos intérpretes da Bíblia , a arca do texto
sagrado foi construída de madeira incorruptível, provavelmente
de resinas ou acácia, sendo, como a Arca da Aliança entre Deus e
os homens, um elo entre o sagrado e o profano. Com seus três
andares, respeitados na maioria das representações de Martha,
simboliza a Trindade católica, formada pelo Pai, Filho e
Espírito Santo.
Nascida em Buenos Aires, a sexagenária Martha Tominaga ingressou
no mundo das artes desde a infância, realizando desenhos e flores
no estilo de Rabusiu. Realizou, posteriormente, cursos de papel
feito a mão e, por mais de 15 anos, estudou diversas atividades
artísticas, como papel maché e artesanato japonês. "Acho
que, desde que me entendo por gente, sou naïf", comenta.
Sua introdução no mundo da arte naïf ocorreu pelas mãos da
artista Alejandra Sanguinetti. Iniciou-se assim uma rotina de
exposições individuais e coletivas, que tem como ponto de alto
sua inclusão, em 1996, entre os artistas presentes na Galeria
Libertad, em Queretaro, México. Isso possibilitou que mais
pessoas conheçam o seu trabalho e recebam o convite de participar
de um mundo em que a fantasia impera. "Tenhamos o atrevimento
de desfrutar daquilo que é genuíno", diz a artista.
O tom autêntico dos trabalhos de Martha pode ser verificado na
tela Casamento em "La Gertrudis". O vestido lilás da
noiva, o carro com um laço gigante, um balão pronto a partir ao
fundo, anjos cantando e tocando instrumentos, além de pombas,
imagem tradicionalmente vinculada à paz, dão à cena um toque
mágico e próximo ao surrealismo. As roupas do século XIX e a
igreja, com uma janela iluminada por dentro, contribuem para uma
atmosfera fantástica. "A pintura, com sua magia nos
transporta rumo a todos os anos em que vivemos", afirma.
A pintora deixa em suas telas sua marca registrada, um símbolo
oriental, presente, por exemplo, dentro do tronco de uma árvore
na tela Favela, em que, de cima para baixo, vemos
paralelepípedos, uma árvore frondosa, residências, um morro
coberto pela copa da árvore e casas sobrepostas com um fundo de
palmeiras e antenas de televisão, que conectam esse mundo
marginalizado com o resto da sociedade.
Martha declara que produz trabalhos com muitos detalhes, como
costuma ocorrer com suas arcas. "Elas são meu tema favorito,
justamente porque nelas posso desenvolver tudo o que eu
imagino", declara a artista, que só gosta de mostrar telas
desenvolvidas com capricho e perfeito acabamento. "Tenho
muita paciência", conta.
Um exercício de disciplina está no fato de freqüentar há 15
anos o mesmo ateliê. "Compartilho, com minhas companheiras,
alegrias e tristezas; e cada aniversário é festejado com
champanhe", afirma, orgulhosa de uma convivência que rende
uma ampla experiência de vida, transposta para as suas telas por
meio de imagens.
Mas é nas arcas que Martha realiza seu talento, sendo que cada
uma delas possui um diferencial. A Arca III, por exemplo,
apresenta os tradicionais três andares e numerosos casais de
animais. Chama particularmente a atenção a presença de um urso
polar e de um alce, além de lençóis pendurados numa espécie de
varal, assim como gatos sobre um telhado. Na água, a variedade da
fauna é admirável, pois há baleias, patos e tartarugas,
enquanto a arca se mantém sobre a água presa por uma âncora
lilás, cor que, no universo da Igreja católica, simboliza a
ressurreição.
A Arca IV, por sua vez, apresenta semelhante riqueza,
destacando-se a figura de um elefante violeta e de uma zebra
gorda, além de bóias com o nome Noé escrito nelas. Um pavão no
telhado com a cauda aberta também atrai o olhar do espectador,
assim como o número elevado de detalhes, que revela a devoção
da artista ao seu trabalho. Ao contrário da anterior, porém,
não mostra a âncora, e a embarcação parece estar prisioneira
em meio ao mar revolto e as pedras.
Menção Honrosa na III Bienal Naïf Internacional 1998, da
Fundação Rómulo Raggio, em Vicente López, em Buenos Aires, em
Arca VIII, a situação é outra. O tema preferido da artista
aparece com formas alongadas, próximas ao surrealismo, enquanto
os animais vão entrando. Não se segue a tradição de casais em
paralelo, mas sim de uma vasta fauna que se dirige ao refúgio sem
uma ordem pré-estabelecida.
Além da presença novamente de um varal no topo da arca,
destacam-se as pipas empinadas ao sabor do vento e as estrelas
presas à arca por meio de uma tênue linha branca, que parece
balançar. Pequenas casas brancas são visualizadas ao longo da
costa, o que dá certa humanidade à cena. O sol, a lua e o
papagaio invadem a moldura do quadro, o que dá à tela um intenso
dinamismo e um irresistível toque de ingenuidade, pois todo o
espaço é aproveitado, característica marcante da arte naïf de
modo geral.
Na tela A importância de passar despercebido, exibida na IV
Bienal Naïf Internacional 2000, da Fundação Rómulo Raggio, em
Buenos Aires, há uma visão delicada do tema do racismo, pois
aparecem no quadro cinco negros, um deles com uma camiseta com a
inscrição Bahamas. Entre eles não há qualquer tipo de
preconceito. Cada um aparece com um boné diferente e a atmosfera
tropical da cena é acentuada pela presença, em frente a aos
protagonistas, de uma mesa com diversas frutas, como melancia,
melão, pêra, bananas e cerejas.
Já A importância de passar despercebido I, terceira menção
honrosa na Bienal daquele ano, também mostra um grupo de iguais.
São 18 idosos, que se irmanam no cabelo branco e nas roupas
discretas, em que há a predominância da cor amarela e vários
tons azulados, que vão do celeste a um roxo mais escuro. Os
rostos diferentes e os tipos variados de penteado conferem
dinamismo ao quadro.
Um outro universo surge na tela Festa no avenida. Trata-se de uma
homenagem ao centenário, celebrado em 1994, do Teatro homônimo,
localizado no número 1222 da Avenida de Mayo, em Buenos Aires. À
direita da tela, aparece o caracter chinês que caracteriza o
trabalho da autora.
Em frente ao teatro, surgem, entre outras figuras marcantes,
vinculadas à cultura espanhola, e simbólicas, palhaços em
pernas-de-pau, mulheres com roupas de flamenco e uma florista, que
evoca a célebre "violetera" do cinema, a espanhola
Sarita Montiel. Também se destacam um mímico, casais com roupas
típicas de vários países do mundo e um senhor que leva pela
coleira as máscaras gregas da tragédia e da comédia.
A temática religiosa aparece em telas como Para nossa glória, em
que uma figura do rosto de Jesus Cristo surge rodeada das faces
dos doze apóstolos. O trabalho evoca as obras presentes nas
portas e altares de igrejas européias em sua rica sobriedade e
sublime elegância ao tratar dos principais temas bíblicos. Cada
rosto é diferenciado, o que confere uma dimensão humana ao
universo sagrado dos companheiros de peregrinação de Jesus. De
fato, a artista consegue aproximar situações bíblicas, seja uma
arca ou os discípulos de Cristo, do cotidiano.
O psicólogo suíço Carl Jung considera a arca a imagem do seio
materno, universo seguro que navega sobre o mar onde o sol
submerge para renascer. Analogamente, a arca é o indício de uma
nova etapa, de um mundo pronto a ser reiniciado. Com abordagens
originais e imaginativas de temas consagrados e renovada
inspiração, Martha trata qualquer tema sempre sob um diferente
aspecto. Suas telas possibilitam assim novas visões, mesmo onde
parecia que nada de novo poderia ser feito.
Se a arca de Noé pode ser considerada o coração do ser humano,
por ser a sede da vida, a arte de Martha Tominaga evoca a
capacidade criativa e o amor ao detalhe e ao perfeccionismo que
torna cada minuto vivido uma lição de vida. Suas arcas, imagens
de grupos e festas acentuam a criatividade da pintora, capaz de
tornar cada viagem bíblica numa nova empreitada pelo mundo da
imaginação, universo em que impera a liberdade de criação,
princípio artístico que a pintora domina com paciência,
metodologia e talento.
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Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
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