Martha Lorenzo
A pintora do Paraíso
Paraíso, paradesha, em
sânscrito, significa região suprema. Na tradição judaico-cristã,
é geralmente descrito como um centro espiritual, a morada da
imortalidade, o coração do mundo e o ponto de comunicação
entre o Céu e a Terra. Adão, nesse Paraíso, teria vivido num
estado de graça sobrenatural, sendo-lhe apenas negado o direito
de saborear o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal,
que ficava bem no meio do jardim. Ao violar essa proibição, Adão
levou à queda do homem, como afirma o Gênesis, 2, 8-17.
É nesse contexto bíblico
e simbólico que a obra da pintora argentina Martha Lorenzo pode
ser melhor apreendida. Nascida em Rosario, em 28 de junho de 1940,
a artista considera-se naïf desde 1989, quando abandonou os
preconceitos contra esse tipo de arte, muitas vezes aprendidos e
desenvolvidos em estudos acadêmicos.
Decoradora de interiores, Martha começou,
a partir de 1991, a expor e a receber prêmios. "Uma obra naïf
é a criação livre espontânea, com a fantasia sempre presente.
É o mundo como o vemos. É a vida como a sentimos", afirmou
para o livro Arte Naïf: una visión poética de la vida, de Nilda
Marruco Carbonell, lançado no ano 2000.
A principal temática
da pintora é Adán y Eva. "Tem sido a mais forte pela sedução
que o casal provoca", declara a pintora. Dois quadros sobre
esse tema foram exibidos na III Bienal Internacional Naïf
promovida pela Fundación Rómulo Raggio, em Buenos Aires, em
1998.
Na primeira delas, intitulada En algún
lugar, el paraíso, mostra diversas árvores do pecado, com
serpentes, sendo que o tronco mais importante, em lilás, com a
serpente azul, contempla Adão e Eva quase encostando os lábios.
Ele segura o fruto do pecado com a mão direita, numa cena marcada
pela sedução.
O Paraíso é então apresentado como
uma ilha cercado pelo tom azul, seja do mar ou do infinito. Cabe
ressaltar a forma como a pintora constrói a vegetação, em
imagens densas, em que se destacam as serpentes que se enrolam nas
árvores. Surge assim um clima fantástico e misterioso, bem a
gosto dos naïfs.
Em Adán y Eva III,
exibido na mesma Bienal, o Paraíso é concebido de maneira
semelhante. Diversas árvores formam um círculo e, novamente, a
árvore, principal, colocada na base, é lilás e apresenta,
enrolada em seu tronco, a serpente do pecado. No topo dessa árvore,
surgem Adão e Eva. Ela cobre os seios e seu órgão sexual com
plantas e flores; e Adão também protege o membro com uma folha
de parreira, indiciando que ambos já perderam a pureza original e
tem vergonha de mostrar-se nus um ao outro.
A predominância do tom azul fornece
ao quadro uma impressão de infinitude e de eternidade à imagem,
como se ela estivesse fora do tempo e do espaço. Ainda nessa
linha de temática, há a tela Paraíso Perdido. O Paraíso parece
surgir do fundo de uma caverna. Uma enorme aureola amarela ilumina
uma árvore, mais um vez em lilás, com os frutos do pecado.
O primeiro casal do mundo está abraçado,
de costas, num local idílico, em que aparecem diversos animais,
como zebras e flamingos. A imagem segue a tradição ocidental de
apresentar o Paraíso como um jardim com vegetação luxuriante e
espontânea. Nesse ambiente, Adão nomeia os animais e obtém
assim a dominação do intelecto sobre os sentidos e os instintos.
Após provar da fruta do pecado,
haveria, no ser humano, o desejo do retorno ao estado edênico e
à obtenção de um estado equilibrado, a partir do qual se pode
fazer a ascensão espiritual ao longo do eixo terra-céu. Por
isso, o Paraíso é geralmente descrito como um local em que
reinam a primavera e a claridade eternas. Há ainda os que dizem
que um dia do paraíso vale mil dias terrestres, proporção que
dimensiona como a paz no Paraíso é incomparavelmente maior a
qualquer felicidade vivida na Terra.
Martha, que pertence ao Grupo Rosario
de Arte Ingenuo e Grupo de Arte de Rosario, teve sua obra citada
em La pintura ingenua argentina, de Oscar Félix Haedo (Edición
PPC/Fraterna, 1996). O livro traz ainda o quadro Mujer con hojas,
que mostra uma figura feminina, provavelmente Eva, debruçada
sobre o galho de uma árvore.
Nua, de olhos fechados, aparentemente
desconsolada, ela surge cercada de densa vegetação. Por não ter
preocupação em cobrir os seios, provavelmente ela ainda não
conheceu o pecado. Trata-se de uma imagem de grande pureza, em que
a floresta circundante evoca, como costuma ocorrer com a pintora,
quadros criados pelo pintor Henri Rousseau, o pai dos naïfs.
Integrante do Museu Austral Naïf de
Esquel e do Museu Naïf de Buenos Aires, Martha Lorenzo já
participou de mostras em Rosario, Buenos Aires, Santa Fe, Luján e
Tandil, na Argentina, e, no exterior, exibiu seu trabalho na
Espanha, Cuba, México e Venezuela.
Em 1999, a artista apresentou o quadro
Adán y Eva, no Museu de Arte Hispânica e Latino-Americana, na
Florida, EUA, na mostra Mês Cultural Argentino. Trata-se de mais
uma criação, em estrutura circular, do Paraíso. O casal é
mostrado um instante antes de se beijar.
Retratados do tronco para cima, Adão
e Eva aparecem cercados por oito árvores, sendo que uma delas,
novamente a violeta, a cor da paixão e do sofrimento de Cristo,
nasce bem acima das cabeças dos protagonistas, carregando os
frutos proibidos. Como é habitual na artista, Adão porta um
deles na mão direita, indiciando seu desejo de provar do fruto do
conhecimento e do pecado original.
Outra vertente do trabalho de Martha
Lorenzo está na transformação em imagens de letras de tangos,
como ocorre em Fumando espero. A melodia é ouvida em um rádio
antigo, enquanto uma mulher, de formas voluptuosas, está
recostada em uma espreguiçadeira de costas para o espectador.
A mulher olha pela janela uma praça
com uma fonte e, do rádio, surge escrita parte da letra do tango
que intitula a obra ("...tras los cristales de alegres
ventanales"). A imagem, portanto, vincula-se à letra, mas não
constitui apenas uma ilustração. Acrescenta novos dados, como o
gato, à direita da tela, que deseja brincar com à dona, com uma
flor na pata dianteira esquerda.
O mais curioso é que a continuação
da coleira do animal se transforma na assinatura da artista.
Destacam-se as paredes ricamente decoradas e as cortinas vermelhas
cuidadosamente desenhadas. A falta de perspectiva do tapete
caracteriza a obra como naïf, assim como a posição da perna
esquerda da mulher, que, levemente erguida, a deixaria numa situação
incômoda e irreal, bem dentro dos parâmetros do estilo. "O
desenho é mais uma expressão da criatividade", afirma a
artista.
O principal, porém, é o clima criado
a partir do tango, que evoca justamente toda a atmosfera de sedução,
solidão e sofrimento que caracteriza esse tipo de música. As
cores vibrantes, mescladas com esse universo, produzem um
resultado de elevado impacto visual, que conquista o espectador e
o leva a seguir cantarolando a melodia insinuada no quadro.
Menção Honrosa no Salão
Pequeno Formato, da Galeria de Las Naciones, em Buenos Aires, em
1999, a obra de Martha Lorenzo também se relaciona com a
literatura. A artista já mereceu um poema da escritora argentina
Beatriz Sicco Balladares e, no mesmo ano, a pintora participou,
junto com nove artistas de Rosario, de uma mostra em homenagem ao
escritor Jorge Luís Borges, na American Intercontinental
University, que mereceu notícia do jornal Mundo Hispano, de
Atlanta, Georgia, EUA.
A obra de Martha
Lorenzo, como um todo, é uma busca pelo Paraíso perdido. O tema
de Adão e Eva, ao ser recorrente, alerta para a capacidade da
arte de retomar o vínculo perdido entre o homem e o sagrado. A
artista, com suas cores bem definidas e imagens claras,
possibilita visualizar a reconstrução de nosso vínculo com o
que há de mais divino em cada ser humano: a capacidade de, pela
arte, transformar uma imagem poética e visualmente bem construída
num breve reencontro com a espontaneidade original humana, perdida
desde que Adão e Eva sucumbiram à tentação do fruto proibido.