Maroubo
A arte contra a violência
O mundo nunca atingiu tamanho progresso tecnológico. A
globalização derrubou as fronteiras geográficas e a internet
possibilita a redução da comunicação entre lugares distantes a
frações de segundos. O ser humano, porém, continua a exibir
alguns de seus instintos mais primitivos em variadas formas de
violência, que atingem desde o mais humilde dos trabalhadores à
principal figura do cristianismo na Terra, o Papa.
A arte do pintor Maroubo
surge como um libelo contra as diversas formas de agressividade.
As telas em que se volta para a pureza da infância, para a violência
cometida pelas crianças em brincadeiras infantis ou ainda para
pombas que voam com um ramo de oliveira no bico constituem um
universo de intensa preocupação com um mundo que muitas vezes
parece estar descarrilando.
A metáfora se aplica a Maroubo,
que foi ferroviário e, na tela Maria-fumaça, de
inspiração realista, coloca a locomotiva em destaque,
imponente, em toda a sua onipotência. A máquina desperta admiração
com sua chaminé cuspindo fumaça cinzenta. A impressão é que
ela vai sair do quadro com o vigor de seus pistões a todo vapor.
Esse
quadro é apenas uma pequena amostra do talento de José Gonçalves
Maroubo. Nascido em Cândido
Mota, interior de São Paulo, em 24 de julho de 1931 e
falecido em 6 de maio de 2009, ele começou a pintar desde criança,
tendo, no grupo escolar, o incentivo da mestra Dona Mafalda. Foi
ainda nessa cidade que realizou seus primeiros trabalhos com o
barro vermelho que recolhia nas ruas e esculpia nas mais diversas
formas, chegando a fazer seu próprio presépio de Natal.
Em 1960, Maroubo
mudou-se para Assis, SP. Autodidata na arte,
viveu da sua aposentadoria como ferroviário da extinta
Estrada de Ferro Sorocabana e da sua pintura, que já lhe concedeu
prêmios nos EUA, Portugal e Uruguai. Em 1961, ele também fundou
a Escolinha de Artes Plásticas de Assis, que ensinou os primeiros
passos da arte a muitas pessoas da região.
O
artista idealizou a primeira exposição de pintura em Assis, em
1966 e se envolveu em outras atividades, como a fundação do
Teatro Amador da Vila Operária. Tais ações culturais lhe
renderam o reconhecimento da comunidade, cristalizado na outorga,
em 1994, do título honorífico de cidadão assisense.
Católico, em 1987, Maroubo
pintou três telas que foram entregues ao Papa João Paulo II, que
enviou inclusive uma carta de agradecimento. Das três, Atentado
à paz é a de maior impacto, ao mostrar uma ave ferida,
pairando sobre o globo terrestre, derramando sangue sobre a Itália.
O ramo de oliveira que carregava no bico está caindo, indicando a
sua dor perante um mundo cada vez mais marcado por ações sem
sentido que eliminam anualmente milhares de pessoas em todo o
globo.
Aproximação I, com
tons quentes que vão do vermelho ao amarelo e II, em um
exercício com diferentes tonalidades de verde, também surge a
imagem da pomba. Na primeira tela, o ramo de oliveira é carregado
em direção às Américas e, no segundo, à Ásia, expressando o
desejo de que a paz se espalhe entre todos os povos.
O quadro Memórias de minha infância, por sua vez,
apresenta um interessante conjunto de cores terrosas cuja temática
é o jogo do pião. Três deles são colocados na tela num jogo
simétrico, um sobre uma corda e dois dentro de um círculo. Na
parte superior, é estabelecida uma atmosfera de simplicidade graças
à porta semi-aberta de um rancho com paredes de madeira e ao chão
de terra.
Mas as crianças que brincam não
são sempre vistas com ingenuidade e pureza. É o caso de Infantilidade,
em que um estilingue, ladeado de pequenas pedras e de um pássaro
morto traz o alerta de que mesmo os jogos infantis podem carregar
dentro de si muito da violência primitiva da qual o ser humano
ainda não se libertou.
O
sangue próximo ao bico do pássaro denuncia qualquer ato contra
um animal indefeso como um dos maiores males da humanidade. A
composição trabalha basicamente com três elementos: o corpo sem
vida do pássaro, o estilingue de couro e uma sacola, colocadas
lado ao lado sobre tábuas de madeira. Eles interagem para mostrar
que a infância – nem sempre tão ingênua como gostaríamos –
porta as sementes de atos intempestivos que geram mortes gratuitas
por mero prazer.
Seja
na figura de uma ave morta ou ferida, Maroubo
apresenta em suas telas um canto de paz. A imagem da locomotiva
que percorre os trilhos com todo o entusiasmo que a velocidade lhe
permite é justamente a imagem de um artista que acredita na força
humana de percorrer um trajeto que leve a aquilo que é justo e
pacífico. Sua pintura expressa essa necessidade com técnica
esmerada, extrema dedicação e a preocupação constante de
conscientizar o ser humano de que a violência nunca é o melhor
caminho.
Oscar
D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de
Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro
de Deus (Editora Unesp).