por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Marisa Vidigal

 

            Um mergulho nas raízes

 

            O que nutre a alma de um artista? Onde está a fonte que sustenta e ajuda a desenvolver o seu talento? As respostas são múltiplas e variam com cada indivíduo. Tanto podem estar num detalhe como estar imersas numa complexidade simbólica de difícil decifração.

            A poética plástica da pintora Marisa Vidigal encontra suas raízes na cidade natal dela, atual Presidente Bernardes, antigo Santo Antonio de Calambau, Minas Gerais. A região foi desbravada antes de 1710 pelo paulista João Siqueira Afonso, que desceu o rio Guarapiranga, atual Piranga, e encontrou um local de mato aberto

Ali os índios Puri gostavam de pescar. Daí vem o nome Calambau, ou seja, em língua indígena, “lugar onde o mato é ralo”. Afonso buscava, como centenas de bandeirantes, ouro e, com o esgotamento das minas, a região passou a sobreviver economicamente com plantações vendidas para Mariana e Ouro Preto.

O povoado surgiu em torno da capela de Santo Antônio do Calambau. O primeiro terreno foi doado em 1733, mas em 1770 foi construída outra, em local mais plano. Em 12 de setembro de 1953, o distrito foi desmembrado de Piranga e transformado em município com o nome de Presidente Bernardes.

Essa breve história mostra como a cultura mineira está arraigada nas tradições da cidade, que conserva numerosas festas religiosas e folclóricas. Elas oferecem o material principal de Marisa, hoje radicada em Curitiba, PR, mas com toda uma forte presença imagética e simbólica de suas raízes do interior do Brasil.

Isso pode ser observado não apenas nos temas, como a Paixão de Cristo, a Santa Ceia, procissões, congadas, feiras e atos de devoção a Santo Antônio, São Francisco, São João e São Benedito, mas em certos traços estilísticos que a pintora, que iniciou suas atividades em 2005, apresenta.

Uma delas, que logo chama atenção, é a forma como decora os vestidos, saias ou blusas de muitas de suas personagens. Ao colocar bolinhas, rendas ou babados, geralmente brancos, transporta o olhar e a mente do observador para uma realidade em que predominam a atividade manual e a sabedoria popular.

Os enfeites pintados nas janelas também são um registro do poder de observação da artista e da sua ligação visual e afetiva com o universo do espaço público, da arte praticada na rua para ser melhor olhada e apreciada em procissões e outras festividades de devoção.

Nesse sentido, a maneira como mostra a sua Santa Ceia, com a presença de grande número de flores, além de frutas tropicais, como melancia, e mesmo um cardápio sobre a mesa, revela criatividade e bom humor, características de uma arte que tem compromisso, acima de tudo, com a liberdade de criar.

As cenas de batuques, congadas e samba ganham em movimento pela busca da interação entre as cores das vestimentas dos participantes de cada imagem. Essa particularidade se intensifica nas cenas de feiras populares, com suas dezenas de figuras típicas, marcadas pela descontração e pela alegria.

Marisa Vidigal busca, no Calambau, terra natal, citada em crônica de Carlos Drummond de Andrade, em O Estado de Minas, de 1954, sua matriz. A partir daquilo que lá viu, ouviu e ama, constrói sua vivência pictórica, tanto melhor quanto mais livre e ousada, principalmente na capacidade de mesclar as tradições ancestrais com sopros de modernidade nas formas de composição e nas soluções técnicas e plásticas.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Procissão de Santo Antônio (Cultura Calambuense)
acrílica sobre tela 50 x 60 cm 2006

Marisa Vidigal

 

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