por Oscar D'Ambrosio


 

 


Mario Gruber

 

            Um pião a indicar caminhos

 

            Um dos grandes nomes da arte brasileira, ao lado de Aldemir Martins, Marcelo Grassman e Otavio Araújo, Mario Gruber, na exposição Mario Gruber e a metafísica dos planos,  de 11 de maio a 4 de junho de 2006, na Galeria Marta Traba, no Memorial da América Latina, com curadoria de Saulo di Tarso, oferece uma de suas facetas mais intrigantes e ricas: a da gravura.

            Pintor, desenhista e gravador, Gruber, nascido em Santos, SP, em 1927, manteve uma das trajetórias mais coerentes da arte brasileira. Mesmo nos anos 1950, dominados pelas experiências ligadas ao concretismo, ele manteve a sua estética em que o figurativismo é central, seja em formas humanas ou paisagens.

            Radicado em São Paulo, SP, a partir de 1946, Gruber participou, no ano seguinte, da célebre exposição do Grupo dos 19, quando recebeu o prêmio de pintura. Começava assim a firmar-se no cenário paulista das artes plásticas. Aluno de gravura de Poty Lazzarotto, fez a sua primeira individual  em 1948, conquistando ainda mais espaço.

            Em 1949, com bolsa do governo francês, Gruber aperfeiçoou-se em Paris, com Edouard Goerg, e, de volta ao Brasil, fundou, em Santos, o Clube da Gravura, depois Clube das Artes. Manteve, assim, intensa atividade didática, bem como na área de política cultural, sendo um artista preocupado em entender melhor como se dava a mediação entre o criador, a obra, o mercado e o público.

            É nesse contexto que precisa ser revisitada a experiência estética que é o mote desta exposição no Memorial da América Latina. Na década de 1960, aos lançar um pião sobre uma placa de gravura e, depois, realizar as impressões, o artista santista introduz amplos questionamentos sobre o próprio sentido da criação.

            O resultado da imagem, que pode lembrar uma constelação ou até mesmo olhos de um rosto, é fruto do acaso, de um “lance de dados”, como diria Mallarmé. Mas, no contexto do trabalho de Gruber é muito mais do que isso: torna-se a abertura de possibilidades de entrada num universo lúdico dentro de um gravador caracterizado pela extrema competência e domínio do ofício.

            A presença na exposição de trabalhos de discípulos, mais ou menos diretos, de acordo com o caso, inclui o filho Gregório Gruber, o neto Lucio Tamino e Erneto Bonato, Fabrício Lopes, Chico Linares, Ulysses Bôscolo, Gavin Adamns, Pedro Palhares, Luciara Bruno Garcia, Flávio Castellan, Anderson Rei, Grupo Trans e projeto Lambe-Lambe.

            Todos eles, cada qual a seu modo, têm em mente que Gruber é um dos pioneiros do chamado realismo fantástico latino-americano e se manteve, ao longo da carreira, fiel a alguns assuntos dentro da expressão figurativa, como crianças, bonecos e máscaras, executados com técnica requintada.

            Na presente exposição, os trabalhos em gravura em que trata especificamente da figura humana são de uma definição plástica admirável, pois mostram como Gruber é, historicamente, um dos artistas brasileiros que mais conhece a “cozinha” da pintura, principalmente no que diz respeito a tintas, papéis e formas de impressão.

            A exposição valoriza a presença de uma gravura em vários estados e trabalhos de uma placa com cores diferentes. Além da pesquisa estética, o resultado revela o domínio técnico na realização de cada um desses caminhos, sempre à procura de aperfeiçoamento e lançando um alerta contra qualquer espécie de acomodação, seja no ato do fazer ou de pensar a gravura.

            Imagens como Tromba d´água remetem à pintura de Turner pelo movimento espiralado e pela necessidade de mostrar a intensidade daquele momento, em que a chuva parece dominar tudo pela sua potência cósmica. Está ali o seu poder de purificação e de destruição; de renovação, acima de tudo.

            O ciclista e a chuva  segue o mesmo raciocínio. Ele parece sumir em meio à imagem gerada pela impressão. Há nela a criação de uma atmosfera talvez muito mais próxima à pintura do que à gravura, mas sempre com referência do mundo concretas como estimulantes da produção do artista.

             Idílio na noite e imagens do porto de Santos e da Praça da Sé contribuem para acentuar esse painel denso de um artista capaz de instaurar o seu próprio mundo. Se a chave do realismo fantástico, principalmente na literatura, é estabelecer um mundo autônomo, que dispense o mundo chamado de real graças à sua coerência interna, Gruber atinge esse ideal.

            Cada gravura está envolta num sadio mistério. Por mais que a figura seja reconhecível devido à existência de um mundo real, suas criações bastam-se em si mesmas. Criam um universo de possibilidades pessoais em que nunca está em jogo a imitação do real, mas a sua superação por meio da arte, num questionamento de nossas raízes humanas.

            Parece significativo que o carnaval seja um dos temas da predileção de Gruber. As máscaras e o mundo fantástico que cerca essa festa popular é exatamente o que ele faz em cada nova gravura. Ele estabelece um universo de máscaras que somente podem ser retiradas pelo espectador.

            O observador de seu trabalho, porém, não deseja retirar esse véu da criação. Ele admira aquilo que foi feito e busca entender como, com a gravura, o resultado foi atingido. Instaura-se assim uma cumplicidade entre criador e receptor. Ambos compartilham um novo mundo, o da arte de qualidade, no qual Mario Gruber é um mestre. Como um pião a girar sobre a placa virgem, encanta discípulos de todas as idades e gerações, e aponta múltiplos caminhos.

 

 Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

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Auto-retrato
gravura - 1949

Mario Gruber

 

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