por Oscar D'Ambrosio


 

 


Marina Martinelli

 

Mergulho nas águas

 

O trabalho com aquarela exige uma relação íntima e densa com a água. Assim como esta se ajusta ao local em que é colocada, seja um vaso, um copo ou um tubo de ensaio, a arte da aquarela exige essa mesma capacidade de se adaptar a diferentes situações em busca de um resultado que combine apuro técnico com sensibilidade e intuição.

Marina Martinelli é um exemplo disso. Ao se valer de diversas técnicas, ela mostra certas características, como uma pincelada geralmente larga e um amor à cor presente em boa parte de sua obra. A sua criação não se limita, portanto, a refletir sobre aquilo que vê, mas inclui o desejo de explorar novas fronteiras, seja em termos de formato ou cores.

Isso pode ser verificado na leitura e visualização atenta de Maraguainá, monografia de conclusão do curso de pós-graduação “latu sensu” em Artes Plásticas – Pintura em Aquarela, apresentada por Marina na Faculdade Santa Marcelina, em 2002, sob orientação de Iole Di Natale.

A artista retoma as experiências com textos manuscritos realizadas por mestres como William Blake, De Chirico, Matisse e o brasileiro Sérgio Lima, para estabelecer uma reflexão sobre o seu próprio trabalho a partir de uma viagem realizada à Amazônia que a impressionou profundamente.

Por um lado, a jornada à Região Norte do País resultou em aquarelas de 2 m x 1,40 m, nas quais ficam evidentes as marcas que a vegetação e as cores locais deixaram na artista. Por outro, a jornada de construção desse material de grande valor e impacto é narrado com pincel e tinta Sumi, à moda oriental.

A combinação ganha relevo porque é também acompanhada de uma breve reflexão metalingüística sobre o ato de criar como um todo e sobre a própria história artística. Marina lembra, por exemplo, que seu pai, o engenheiro arquiteto Italo Martinelli, foi o responsável pela equipe que participou da construção do primeiro arranha-céu de São Paulo, o prédio Martinelli, de propriedade de José Martinelli, irmão do avô da artista plástica, enquanto a mãe, Enedina Fornasaro, foi a primeira aluna a se formar em piano pelo Instituto Musical Santa Marcelina, em 1936.

Dessa mescla entre a engenharia e a música nasceu uma artista que aprendeu, ainda criança a admirar Dante Alighieri, especialmente a célebre Divina Comédia, principalmente quando ilustrada por artistas do gabarito de Michelangelo, Delacroix, Gustave Doré e William Blake. Também desenvolveu a admiração por Rodin, especialmente a escultura em que Ugolino é mostrando devorando os filhos.

Essa sensibilidade em relação aos artistas que souberam captar o sofrimento humano levou Marina a se formar em Artes Plásticas, em Desenho, na Faculdade Santa Marcelina, na década de 1960, tendo, em seguida, ensinado desenho de moda na Escola Panamericana de Arte, conforme o método de Eugénie Villien.

A inquietação artística levou Marina ainda a outros caminhos, como batik em couro, além da confecção de cintos e bolsas, com design, atividade que manteve inclusive quando foi morar na Colômbia, onde conseguia couro com facilidade. Além da atividade diversificada, a vivência em vários países, como a mencionada Colômbia, Itália e Índia, levou-a a incorporar elementos de diversas culturas no seu trabalho.

Marina domina a aquarela, o batik, o desenho, a gravura, a cerâmica e o mosaico. Tudo isso é exercido com extrema criatividade. Um exemplo é a sua relação com a técnica do batik. Embora tenha aprendido a técnica sobre algodão, na Índia, em meados da década de 70, quando retornou ao Brasil, passou a realiza-la em seda, num processo de tingimento por banhos de pintura com pincel (rooketsu-zomê, em japonês).

Para dominar o rooketsu-somê, Marina estudou no ateliê da artista plástica japonesa radicada no Brasil Kasuko Tanaka, assim como se aprimorou na gravura calcográfica com Iole Di Natale. Numa busca constante de novos meios de expressão para uma arte repleta de significados.

Maria lembra, com propriedade, que o batik e a aquarela trabalham com água e pigmento colorido, só que, enquanto, no batik, o suporte tradicional é o pano, na aquarela é o papel, funcionando a goma arábica como elemento aglutinante. É justamente no domínio da superfície aquosa que a artista mostra a sua maleabilidade e domínio expressivo.

Basta lembrar que Marina aprecia muito a pintura ao ar livre, tendo a natureza como uma de suas principais temáticas. Em suas viagens, realiza cadernos de pintura, estabelecendo, por intermédio de cores, formas, linhas e gestos, uma rica relação entre aquilo que vê e vivencia.

Esses cadernos são de locais como Minas Gerais, Itatiaia,Espanha e Inglaterra, além de imagens do Pantanal, da Amazônia, da Bahia, até aquarelas em forma de sanfona do Estado de Goiás. Essa riqueza imagética serve de ponto de partida para a realização de trabalhos de maiores dimensões ou como pesquisa para futuras empreitadas criativas.

Tecnicamente, Marina vale-se de contínuas sobreposições e esperas de secagem seguidas de novas investidas com o pincel. Obtém assim um fascinante resultado de transparências e velaturas que encontra um paralelo em suas pesquisas com desenho em grafite no papel, quando se vale continuamente da borracha, num intenso jogo de fazer e desfazer, construir/desconstruir seu próprio objeto artístico, num exercício de criação marcado pela perseverança.

Nesse conjunto artístico, uma figura é, de certa maneira, onipresente. Trata-se de Maraguainá, auto-retrato de Marina Martinelli. Deusa das águas e da própria natureza, a imagem surge com toda força no trabalho apresentado na Faculdade Santa Marcelina como uma mescla de musa e esfinge a interrogar o leitor e apreciador das imagens artísticas de seu trabalho.

Pintora também de pássaros e de cenas de tauromaquia, além de passagens da Comédia, de Dante – temáticas que trata com um peculiar e pessoal movimento plástico –, Marina tem um grande envolvimento com a dança. Na juventude, estudou dança clássica com Maria Olenewa, bailarina russa radicada em São Paulo, e Alina Biernaka. Depois, conheceu a dança expressionista de Renée Gumiel, influenciada por Mairice Béjart.

Nos últimos dez anos, freqüenta o estúdio da atriz e bailarina flamenca Ana Esmeralda. A mesma alma que revela na dança utiliza em sua arte pictórica. Há sempre em seus quadros um constante desejo de aprimoramento e realizações de elevada qualidade estética, em que os referenciais não são totalmente abandonados, mas sim tratados livremente.

Marina Martinelli está, desde a origem de seu nome, entre mar e terra. Se a palavra “marina” significa um local à beira-mar com instalações apropriadas para a guarda e embarcações, o sobrenome Martinelli lembra o arranha-céu que, até hoje, é um dos referenciais paulistanos.

A arte de Marina Martinelli realiza justamente esse jogo entre água e terra. Ao lidar com o meio aquoso, o faz de maneira consistente, criando uma obra lúcida, na qual, principalmente nas aquarelas, surge um poderoso vigor imagético, como ocorre com os trabalhos inspirados na Amazônia, que revela uma autêntica artista, digna desse nome pela constante capacidade de surpreender, mergulhando nas águas da criação e, como uma divindade amazônica, surgindo sempre renovada e pronta a assumir novos desafios.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

 

 

 

 

 

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"Maraguainá"

 
aquarela 56x76 cm 1994

Marina Martinelli

 

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