por Oscar D'Ambrosio


 

 


Marina Inoue

 

            A poética da vivência

 

            O ser humano, desde as cavernas, vive imerso em inquietações, seja pela busca de alimento, pelo abrigo contra as intempéries, pela completude de sua sexualidade ou pela mera agonia de entender a sua existência no mundo perante os dilemas da passagem do tempo e da morte. Em alguns casos, esse sentimento de insatisfação perene de estar no mundo resulta em criações artísticas de talento.

            É o caso dos trabalhos da artista plástica Marina Inoue. Nascida em Lins, SP, em 30 de agosto de 1968, o seu processo criativo é um constante e renovado procedimento de retirar das próprias entranhas renovadas visões de mundo e questionamentos sobre o significado do ser e da vida.

            A carreira da artista começa no início do ensino fundamental, quando recebe um prêmio de melhor desenho. Trata-se do marco inicial de um processo criativo que aponta para uma imbricação entre arte e vida. Nesse sentido, o fato de cursar pós-graduação em Artes Visuais no Instituto de Artes da UNESP, em São Paulo, surge como um desdobramento e uma faceta complementar de suas aulas de arte contemporânea no ensino superior.

            No processo de transformar inquietação em talento, Marina admite que contou com diversos orientadores, como a sogra, o mestre Vicente Digrado e Percival Tirapeli, seu orientador na pós-graduação, que a indicou para participar da exposição Jovens Talentos, promovida, em 2004, numa parceria entre a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e o Museu de Arte Contemporânea da USP no Parque do Ibirapuera.

            Nesse processo de ordenar artisticamente as suas inquietações, Marina teve contato com fontes variadas. Com mãe umbandista, pai kardecista, avó budista e vizinho evangélico, além de uma experiência de nove anos num semi-internato católico, vivenciou diversas influências. Ela as soube tecer e desfiar – feito Penélope contemporânea – esses recortes, de maneira às vezes mais ordenada, às vezes mais caótica, criando manifestações expressivas que dão vazão aos seus questionamentos internos.       

Ao lado dessa pluralidade de influências religiosas, a artista tem diversas experiências ricas e diferenciadas que formam um caleidoscópio indagador. Marina cursou engenharia industrial e mecânica, entre 1986 e 1989, trabalhou como modelo no Japão, entre 1990 e 1996, e realizou diversas ações plásticas e educativas em favelas de São Paulo entre 1997 e 2000.

            Surge assim uma obra que mostra as entranhas – e trabalha com elas. A artista tem uma autêntica fascinação pela potencialidade criadora de tudo aquilo que vem do interior do ser humano. Um exemplo é a instalação A margem da criação, em que aparecem diversos elementos que acompanham o discurso poético de Marina.

            Um deles é o banheiro. Local íntimo em que o corpo se expressa em sua intimidade fisiológica, ele surge como local do recolhimento e reflexão. O escatológico cede lugar ao filosófico e a materialidade produzida pelo corpo torna-se, de certo modo, secundária perante a ausência de limites da mente de criar.

            Isso se torna ainda mais forte em outros elementos presentes na instalação. Argila e limo, por exemplo, remetem ao barro criador e, principalmente, ao processo de construção interno e externo do ser humano. Se o corpo apodrece irremediavelmente, a mente se pergunta sobre como enfrentar esse dilema.

            Se a materialidade física rui, a única alternativa da mente é o poder de não estagnar e de perguntar eternamente. Estabelece-se aí a mencionada inquietação de Marina, mais propensa a perguntar do que a responder. Nesse processo de indagação constante, seu eu se expõe ao mundo e, paradoxalmente, se torna objeto de análise daquele que não sabe responder ou que se incomoda com indagações incisivas.

            Marina trabalha, portanto, com a atmosfera das transparências de aquarelas e das opacidades das tintas, mas não utiliza esses elementos. É nas suas instalações que ela indaga a visibilidade do ser, pois o artista, em qualquer época e qualquer que seja o seu estilo, se expõe, de forma mais ou menos explícita, na obra que oferece ao espectador.

            Chega-se assim a mais um elemento das criações da artista paulista: as tripas de boi. Seja pelo seu tamanho, pela sua materialidade ou pelo seu poder indagador, elas ocupam um importante espaço simbólico. Provindas do interior do animal, ganham as paredes dos azulejos do banheiro da mencionada instalação e são um elemento onipresente no discurso verbal da artista.

            Se, por um lado, as tripas remetem aos exercícios de adivinhação dos gregos com vísceras de animais, também apontam para um impacto estético às vezes repulsivo. Afinal, são entranhas. E quem deseja mostrá-las? Coloca-las à mostra é, simultaneamente um ato de morte e de vida. A morte está na coragem psíquica de revelar as entranhas; e a vida, na possibilidade de renascimento que toda morte anuncia.

            O ato de desnudar o ser é a grande temática de Marina Inoue. Seu trabalho decorre de uma poética em que ressoam as palavras de Marcel Proust em O tempo redescoberto: “O que não precisamos decifrar, deslindar à nossa custa, o que já antes de nós era claro, não nos pertence. Só vem de nós o que tiramos da obscuridade reinante em nosso íntimo, o que os outros não conhecem”.

            Em um autêntico percurso proustiano, a artista obriga o espectador a acompanhá-la em seu desnudamento artístico. Seus banheiros e tripas de boi são elementos materiais da busca constante por dar a sua inquietação interior uma materialidade estética e poética que aponta para a maior função da arte: indagar o que é, em sua essência, o ser humano e o que torna alguns deles artistas. Possíveis respostas estão na vivência vivida de cada um e nas vísceras – próprias e alheias – que Marina expõe em seu trabalho.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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A margem da criação

instalação - técnica mista -  2004

Marina Inoue

 

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