por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Marina de Falco

 

            Folhas que caem

 

A multifacetada artista plástica Marina de Falco guarda em seu ateliê, ao fundo do qual se situa um belo jardim que ela mesma preserva, as mais variadas surpresas. Não se trata apenas de uma coleção de imagens muito bem conservadas e com grande força e intensidade. Reside ali um mundo a ser desvendado.

desde gravuras feitas a partir de poemas de Adélia Prado a pinturas em óleo e acrílica que discutem a questão do espaço, com predominância dos verdes e azuis, além de monotipias que tomam a taça de vinho e o universo visual que ela possibilita como ponto de partida.

No entanto, o supremo encanto do portal que seu ateliê permite vislumbrar está no trabalho aparentemente mais delicado e enganadoramente despretensioso. São as gravuras da série “Folhas que caem”. O segredo dessa jornada no espaço é oferecer um resultado plástico conciso, sem artifícios, fruto de um processo sereno, que mescla o visceral do desejo de criar com o rigor do fazer.

Tudo começa com uma matriz da qual é arrancado um fragmento em forma de folha. Esse pedaço é então impresso, repetidas vezes, de acordo com o desejo da artista, em variadas posições sobre o papel branco de modo a criar diversas possibilidades visuais da imagem da folha, isolada, sobreposta, solta no espaço ou próxima a outras.

São constituídas famílias visuais que estabelecem um império de delicadeza pelo aspecto majestático do conjunto. Sua solenidade está na beleza e na conquista de certa tridimensionalidade, pois as imagens das folhas de fato parecem estar voando, podendo cair sobre o solo a qualquer momento.

O poder dessas folhas gera no observador encantamento e também reflexão filosófica, pois a idéia desses elementos visualmente oriundos da jaqueira flutuando sobre o papel e na parede de uma galeria evoca a reflexão sobre a transitoriedade do tempo.

Marina de Falco nos lembra, com simplicidade e elegância, que o tempo não foi inventado. Ele simplesmente existe. Nesse sentido, o movimento sugerido pelas imagens das folhas gravadas pela artista alerta constantemente que o saber administrar a queda das folhas é um exercício refinado de acuidade visual.

Não se trata de técnica no que diz respeito à gravura, mas, acima de tudo, de domínio da criadora sobre si mesma. Qualquer exagero põe a perder uma pesquisa marcada pela contenção do gesto, caracterizada pela liberdade de saber usar os silêncios em nome da construção de um ruído interior, propiciado pela consciência da feitura de um trabalho significativo que precisa voar para novas e longínquas paragens. Trata-se de uma folha solta ao vento, que sente que é hora de partir embora não saibanem precise saberpara onde.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

  Jack
gravura em metal 35 x 24 cm 1999

Marina de Falco

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio