por Oscar D'Ambrosio


 

 


Marina Caram

 

            A distopia expressionista

 

            Quando se está perante uma obra de características marcadamente expressionistas, a tendência é ressaltar apenas o que existe nela associada ao estilo, como os contornos marcados, os rostos deformados e, muitas vezes, uma crítica social contundente.

            A obra de Marina Caram, falecida dia 3 de março de 2008, em São Paulo, SP,  foge desse reducionismo simplista justamente pela capacidade da artista de oferecer uma visão muito pessoal da realidade por meio de uma técnica que, com o perdão do neologismo e em analogia ao hiperrealismo, poderíamos chamar de hiper-expressionismo.

Isso se deve à maneira como ela enfoca os mais variados temas, sempre com o poder derrisório de destruir a chamada realidade em nome de uma obra sólida e madura. Sem construir utopias, apresenta uma distopia plena de sombras e de dor lancinante que encanta pelo vigor de cada traço. 

            Em seus desenhos, gravuras, pinturas e esculturas, Marina mostra a figura humana de modo a enfatizar a solidão existencial de cada indivíduo retratado. Em suas várias séries, embora a temática mude, há a mesma postura estética perante a sua resposta plástica ao mundo.

            A série Os humilhados, por exemplo, na qual se destaca O engraxate, a dramaticidade se faz presente pelos olhos esbugalhados e pela maneira como o pincel cria formas repletas de movimento. A maneira de preencher o espaço, com as figuras humanas ocupando o primeiro plano não deixa dúvidas de que o grande tema da artista é o ser humano e suas contradições internas e com a sociedade.

Marina tem uma trajetória artística bastante incomum. Nascida em Sorocaba, SP,  em 24 de outubro de 1925, mudou-se para São Paulo para morar com amigas. Quando trabalhava na Câmara Municipal, foi apresentada ao modernista Oswald de Andrade que, por sua vez, encantado com o trabalho plástico da jovem a apresentou a Pietro Maria Bardi.

Assim, aos 23 anos, fez sua primeira exposição individual no MASP. Permaneceu depois um ano e meio em Paris com uma bolsa de estudos do governo francês. Aprimorou assim a sua técnica, mas manteve uma visão pessoal da realidade, que tem momentos de plena expressão em imagens como Solidão, em que um homem contorcido, num bar, deslocado à direita, surge como o próprio símbolo do ser humano nada à vontade com o mundo.

 Nesse sentido, figuras como de prostitutas ou de um homem cercado de notas e rodeado por tristes mulheres mostra bem o grau da crítica social do trabalho plástico de Marina Caram. A mesma intensidade é encontrada em cenas aparentemente menos dramáticas, como as relativas ao carnaval.

A dramaticidade está sempre presente. As festas não são marcadas pela alegria, mas por um desespero onipresente, seja no mencionado universo do sexo transformado em mercadoria, na solidão das personagens ou na pobreza de uma índia boliviana. O instinto da pintora fala mais alto quando mendigos no jardim da biblioteca ou vendedores de siris da Bahia têm olhos e corpos com um mesmo traço inquieto e indagador.

As ruas de São Paulo são uma das matérias-primas de uma artista que se nega a oferecer soluções fáceis. Quando coloca duas meninas lado a lado, uma pobre e outra rica, não é apenas o lado social que vem à tona. Está lá uma profissional que domina o desenho em diferentes manifestações, valendo-se de nanquim e aguadas para dar vida a humilhados pelo sistema que ganham uma dimensão épica nos trabalhos da artista.

Enterros, engraxates, cenas de ensaio de carnaval e orixás, embora de séries diferentes, possuem uma mesma linguagem plástica. Os contornos marcados, o domínio do uso de nuances do negro e uma espontaneidade difícil de encontrar no trabalho com traços circulares são diferenciais da artista paulista.

O contista realista francês Maupassant (1850-1893) dizia que “qualquer que seja a coisa que se quer dizer, só há uma palavra para exprimi-la, um verbo para animá-la e um adjetivo para qualificá-la”. O mesmo ocorre com as artes visuais. Encontrar a melhor forma de expressar o que se quer exige clareza de idéias e domínio técnico.

Marina Caram, como alerta Maupassant, encontrou, na artes plásticas, a sua maneira de falar. Seja no desenho, na pintura ou na escultura, oferece uma linguagem com estilo bem definida, próximo ao expressionismo, mas que o ultrapassa pela sinceridade de cada imagem criada.

Há nelas o inconformismo que aponta para o desejo de reformular o mundo circundante. Assim, a artista cria a sua utopia, pois nos mostra, em traços expressionistas, um mundo que não queremos ver para que possamos criar uma sociedade melhor em que os humilhados estejam em extinção e onde a felicidade, ausente nos personagens da artista, seja possível.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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Solidão 2

nanquim (pincel e aguada) sobre papel
70 cm x 52,5 cm 1972
Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo
Marina Caram

 

 

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