por Oscar D'Ambrosio


 

 



Marilyn Itrat

        As nostálgicas carroças

        As carroças de Dom Aníbal, Dom Marcelo, Dom Nico, Dom Pocho, Dom Rubén e Dona Mariana, as cadeiras de Dom Luis, e a simbólica arca de Dom Augusto povoam o imaginário da pintora argentina Marilyn Itrat. Dentro de uma proposta estética que busca refletir o clima dos antepassados e as próprias raízes, velhas carroças, movidas por cavalos e homens igualmente idosos, constituem um painel diferenciado de imagens da Argentina.

        Embora enfoque diversos temas, as velhas carroças são a marca registrada de Marilyn. Uma das mais belas é A arca de Dom Augusto. Em um ambiente rural, numa estrada ladeada por girassóis, plantações e um lago, o protagonista conduz, a pé, uma carroça repleta de animais domésticos, como parcos, patos, gansos, galinhas numa gaiola e um gato num cesto. À frente de Dom Augusto, um cão e, atrás da carroça, uma vaca amarrada.

O céu azul com nuvens brancas reforça o ambiente pacífico e de integração do carroceiro com a natureza. O título, uma alusão à bíblica Arca de Noé, dá à imagem uma força simbólica, quase sobrenatural, pois a caminhada de Dom Augusto se torna praticamente uma jornada rumo à salvação. Seu andar pode ser o recomeçar da própria vida em outras paragens ou mesmo da própria humanidade, ansiosa por escapar da busca contínua por dinheiro e se reencontrar em atividades simples, como a agricultura, a pesca e a criação de animais para a subsistência, todas indiciadas na tela.

O quadro, que obteve o primeiro prêmio na III Bienal Naïf Internacional 1998 da Fundação Rômulo Raggio, é pintado também nas molduras, dando a impressão que os animais, o ambiente e o próprio Don Augusto vão sair do quadro e se integrar à nossa vida cotidiana.

Na mesma Bienal, Marilyn apresentou A carroça de Dom Nico. Em frente a um velho armazém, a carroça passa. Três cães de diferentes cores – branco, marrom e branco e preto e branco – e raças contemplam um gato, que caprichosamente observa tudo do teto do veículo.

Ao lado do armazém, uma pomba voa próxima ao vidro quebrado de uma janela de uma casa aparentemente abandonada. Instaura-se um clima de decadência e melancolia, não só pela espirituosa relação cães e gato, mas também pela pintura, do lado esquerdo, de um caminho de terra que desemboca numa plantação e se perde na linha do horizonte.

Um quadro que condensa a arte de Marilyn é A carroça de Dom Rubén. Mais uma vez, há as casas decadentes e o velho condutor da carroça, assim como três gatos e um cão, todos junto ao condutor, em meio a cestos, cadeiras e móveis. A nostalgia do protagonista reforça a cena, principalmente pela forma como olha para a única árvore florida em meio a um ambiente de velhas residências, uma delas até com os tijolos à mostra.

Marilyn explica como funciona sua mente ao criar esse tipo de quadro. "Minha vida é um turbilhão de atividades e de idéias, mas, quando pinto velhos cestos, tudo se detém no tempo e, do mesmo modo que meus avôs teceram junco e vime, continuo a tradição com meu pincel, acariciando e iluminando cada curva, cada ponto, com a mesma paciência e sem pressa", conta. "Comecei a pintar esse tema por acaso, mas logo se transformou numa característica da minha pintura, principalmente o vendedor que leva cestos e cadeiras, que é meu favorito."

        A crítica Argentina Elsa Etchegaray, ao comentar as telas de Marilyn, também se detêm nessas imagens. "Ela surpreende com a maturidade dos temas abordados. Há neles duas realidades. Uma é a realidade da profunda nostalgia, presente nos trabalhos sobre sua infância e adolescência, repletos de poética beleza, enfocando o que foi e não voltará a ser, e os vendedores ambulantes, que marcaram época entre nós. A outra realidade é a atual, do dia-a-dia, com especial ênfase no cotidiano, nas ocupações do homem do campo e da cidade".

Para a mesma crítica, Marilyn "é uma aguda observadora da vida e dos seus hábitos. Transita por eles sem omitir um detalhe sequer. Com grande sensibilidade, elabora interiormente o que depois nos oferece pelo jogo plástico: obras de arte que admiramos assombrados".

        Nascida em 27 de dezembro de 1956, em Buenos Aires, Marilyn Itrat diz que a pintura a dominou desde a infância. "Era minha atividade preferida. Apesar de não ser o que meus pais pretendiam para o meu futuro, a arte estava acima de tudo para mim", conta. "Em cada quadro descubro que é preciso desfrutar o milagre que se produz no efêmero instante de criar. É nessa hora que junto idéias e sentimentos. Quando o cotidiano desaparece entre os pincéis e a realidade se mistura com minha fantasia é o instante exato para plasmar o que sinto".

        Marilyn trabalhou como professora de escolas primárias, em Buenos Aires, durante 16 anos. "Além de ensinar as crianças a ler e escrever, procurei transmitir o ‘amor à arte", diz. Em 1983, freqüenta o ateliê-escola de cerâmica Ninsei e começa a estudar pintura, em 1988, com Maria Marta Rasso, aperfeiçoando-se, a partir de 1990, com Virginia Scari, mas quem a impulsionou, de fato, na arte naïf, foi a companheira de profissão e amiga Micaela Schreckenberg. "Não se pode ser uma artista naïf sem acreditar no amor, na alegria, na paz e nos frutos do espírito", define.

        Começou assim uma carreira artística que inclui numerosas exposições coletivas e individuais. Em 1995, devido a sua destacada trajetória nos salões de arte naïf para a comunidade, é nomeada Membro Honorário de Apa, círculo de Artistas por Amor. No ano seguinte, passa a integrar o grupo de pintores naïfs do Museu Austral de Esquel, em Neuquén, e hoje suas obras estão em coleções particulares de diversas províncias argentinas, na Alemanha e no Peru.

Atualmente, Marilyn dirige seu próprio ateliê e conta com dezenas de alunas . "Disfruto com elas o prazer de plasmar na tela os sentimentos com cores", diz. "Sou feliz com aquilo que faço. Quando ensino, transmito tudo o que sei e o entrego com autenticidade, como eu sou, sem posturas etiquetadas." De fato, Marilyn pinta o passado, a memória, mas sempre com uma perspectiva futura. "A lembrança de onde viemos nos leva aonde vamos...’vivimos", afirma.

        Além dos carros com seus velhos condutores, que evocam um passado perdido, Marilyn pinta locais típicos de Buenos Aires, como a célebre rua Caminito, além de telas que aludem à região norte da Argentina, como a série Melodia nortenha, a tela Pueblito norteño e a série Canavalito, manifestação folclórica da região.

        Outra série que impressiona pela variação visual em torno de um tema é Crianças de rua, que enfoca o Natal sempre como um momento de esperança e de redenção, por meio da solidariedade, para todos, mesmo os socialmente mais marginalizados. É o que se observa em telas como Caridade, Fé, Esperança, Ilusão, Presentes para todos, Sonho de moleques. Os próprios títulos indicam o conteúdo dos quadros, que transmitem a possibilidade da existência de uma sociedade mais harmônica.

Embora sejam cartões de Natal, que muitos vêm como um gênero menor, revelam uma preocupação social elogiável e uma ambigüidade, pois a artista demonstra dominar tanto as recordações das carroças de um passado como a miséria que se espalha no espaço urbano presente.

        A crítica Elsa afirma ainda que as principais qualidades de Marilyn são a magia do excelente desenho e a rica policromia de uma paleta que nunca se apresenta estridente". As palavras de Marilyn confirmam uma posição estilística que não deseja chocar o leitor, mas sim encanta-lo e conquistá-lo pela suavidade e pela delicadeza. "É no verdadeiramente simples que está o que tanto buscamos, a paz. Disfruto o caminho do ato de fazer... a vida é hoje", ensina.

        Marilyn Itrat combina duas qualidades raras: primor técnico e sensibilidade. Suas forma e cores são colocadas à serviço de viagens nostálgicas por uma Argentina que não existe mais e que, portanto, é universal. Seus carroceiros são metáforas bem elaboradas do movimento do tempo.

Enquanto eles mergulham lentamente no esquecimento a bordo de seu antiquado meio de transporte, um novo mundo aponta no horizonte. Conhecer o passado que a artista resgata em suas telas é a melhor forma de saber como se comportar na realidade que se avizinha. Marilyn realiza, com imagens nostálgicas, essa ponte, concretizando, em suas pinturas de hoje, o célebre desafio de pintar o ontem para ser lembrada no amanhã.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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