Marilyn Itrat
As nostálgicas carroças
As carroças de Dom Aníbal,
Dom Marcelo, Dom Nico, Dom Pocho, Dom Rubén e Dona Mariana, as
cadeiras de Dom Luis, e a simbólica arca de Dom Augusto povoam o
imaginário da pintora argentina Marilyn Itrat. Dentro de uma
proposta estética que busca refletir o clima dos antepassados e
as próprias raízes, velhas carroças, movidas por cavalos e
homens igualmente idosos, constituem um painel diferenciado de
imagens da Argentina.
Embora enfoque diversos
temas, as velhas carroças são a marca registrada de Marilyn. Uma
das mais belas é A arca de Dom Augusto. Em um ambiente rural,
numa estrada ladeada por girassóis, plantações e um lago, o
protagonista conduz, a pé, uma carroça repleta de animais domésticos,
como parcos, patos, gansos, galinhas numa gaiola e um gato num
cesto. À frente de Dom Augusto, um cão e, atrás da carroça,
uma vaca amarrada.
O céu azul com nuvens brancas reforça
o ambiente pacífico e de integração do carroceiro com a
natureza. O título, uma alusão à bíblica Arca de Noé, dá à
imagem uma força simbólica, quase sobrenatural, pois a caminhada
de Dom Augusto se torna praticamente uma jornada rumo à salvação.
Seu andar pode ser o recomeçar da própria vida em outras
paragens ou mesmo da própria humanidade, ansiosa por escapar da
busca contínua por dinheiro e se reencontrar em atividades
simples, como a agricultura, a pesca e a criação de animais para
a subsistência, todas indiciadas na tela.
O quadro, que obteve o primeiro prêmio
na III Bienal Naïf Internacional 1998 da Fundação Rômulo
Raggio, é pintado também nas molduras, dando a impressão que os
animais, o ambiente e o próprio Don Augusto vão sair do quadro e
se integrar à nossa vida cotidiana.
Na mesma Bienal, Marilyn apresentou A
carroça de Dom Nico. Em frente a um velho armazém, a carroça
passa. Três cães de diferentes cores – branco, marrom e branco
e preto e branco – e raças contemplam um gato, que
caprichosamente observa tudo do teto do veículo.
Ao lado do armazém, uma pomba voa próxima
ao vidro quebrado de uma janela de uma casa aparentemente
abandonada. Instaura-se um clima de decadência e melancolia, não
só pela espirituosa relação cães e gato, mas também pela
pintura, do lado esquerdo, de um caminho de terra que desemboca
numa plantação e se perde na linha do horizonte.
Um quadro que condensa a arte de
Marilyn é A carroça de Dom Rubén. Mais uma vez, há as casas
decadentes e o velho condutor da carroça, assim como três gatos
e um cão, todos junto ao condutor, em meio a cestos, cadeiras e móveis.
A nostalgia do protagonista reforça a cena, principalmente pela
forma como olha para a única árvore florida em meio a um
ambiente de velhas residências, uma delas até com os tijolos à
mostra.
Marilyn explica como funciona sua
mente ao criar esse tipo de quadro. "Minha vida é um turbilhão
de atividades e de idéias, mas, quando pinto velhos cestos, tudo
se detém no tempo e, do mesmo modo que meus avôs teceram junco e
vime, continuo a tradição com meu pincel, acariciando e
iluminando cada curva, cada ponto, com a mesma paciência e sem
pressa", conta. "Comecei a pintar esse tema por acaso,
mas logo se transformou numa característica da minha pintura,
principalmente o vendedor que leva cestos e cadeiras, que é meu
favorito."
A crítica Argentina
Elsa Etchegaray, ao comentar as telas de Marilyn, também se detêm
nessas imagens. "Ela surpreende com a maturidade dos temas
abordados. Há neles duas realidades. Uma é a realidade da
profunda nostalgia, presente nos trabalhos sobre sua infância e
adolescência, repletos de poética beleza, enfocando o que foi e
não voltará a ser, e os vendedores ambulantes, que marcaram época
entre nós. A outra realidade é a atual, do dia-a-dia, com
especial ênfase no cotidiano, nas ocupações do homem do campo e
da cidade".
Para a mesma crítica, Marilyn "é
uma aguda observadora da vida e dos seus hábitos. Transita por
eles sem omitir um detalhe sequer. Com grande sensibilidade,
elabora interiormente o que depois nos oferece pelo jogo plástico:
obras de arte que admiramos assombrados".
Nascida em 27 de
dezembro de 1956, em Buenos Aires, Marilyn Itrat diz que a pintura
a dominou desde a infância. "Era minha atividade preferida.
Apesar de não ser o que meus pais pretendiam para o meu futuro, a
arte estava acima de tudo para mim", conta. "Em cada
quadro descubro que é preciso desfrutar o milagre que se produz
no efêmero instante de criar. É nessa hora que junto idéias e
sentimentos. Quando o cotidiano desaparece entre os pincéis e a
realidade se mistura com minha fantasia é o instante exato para
plasmar o que sinto".
Marilyn trabalhou como
professora de escolas primárias, em Buenos Aires, durante 16
anos. "Além de ensinar as crianças a ler e escrever,
procurei transmitir o ‘amor à arte", diz. Em 1983, freqüenta
o ateliê-escola de cerâmica Ninsei e começa a estudar pintura,
em 1988, com Maria Marta Rasso, aperfeiçoando-se, a partir de
1990, com Virginia Scari, mas quem a impulsionou, de fato, na arte
naïf, foi a companheira de profissão e amiga Micaela
Schreckenberg. "Não se pode ser uma artista naïf sem
acreditar no amor, na alegria, na paz e nos frutos do espírito",
define.
Começou assim uma
carreira artística que inclui numerosas exposições coletivas e
individuais. Em 1995, devido a sua destacada trajetória nos salões
de arte naïf para a comunidade, é nomeada Membro Honorário de
Apa, círculo de Artistas por Amor. No ano seguinte, passa a
integrar o grupo de pintores naïfs do Museu Austral de Esquel, em
Neuquén, e hoje suas obras estão em coleções particulares de
diversas províncias argentinas, na Alemanha e no Peru.
Atualmente, Marilyn dirige seu próprio
ateliê e conta com dezenas de alunas . "Disfruto com elas o
prazer de plasmar na tela os sentimentos com cores", diz.
"Sou feliz com aquilo que faço. Quando ensino, transmito
tudo o que sei e o entrego com autenticidade, como eu sou, sem
posturas etiquetadas." De fato, Marilyn pinta o passado, a
memória, mas sempre com uma perspectiva futura. "A lembrança
de onde viemos nos leva aonde vamos...’vivimos", afirma.
Além dos carros com
seus velhos condutores, que evocam um passado perdido, Marilyn
pinta locais típicos de Buenos Aires, como a célebre rua
Caminito, além de telas que aludem à região norte da Argentina,
como a série Melodia nortenha, a tela Pueblito norteño e a série
Canavalito, manifestação folclórica da região.
Outra série que
impressiona pela variação visual em torno de um tema é Crianças
de rua, que enfoca o Natal sempre como um momento de esperança e
de redenção, por meio da solidariedade, para todos, mesmo os
socialmente mais marginalizados. É o que se observa em telas como
Caridade, Fé, Esperança, Ilusão, Presentes para todos, Sonho de
moleques. Os próprios títulos indicam o conteúdo dos quadros,
que transmitem a possibilidade da existência de uma sociedade
mais harmônica.
Embora sejam cartões de Natal, que
muitos vêm como um gênero menor, revelam uma preocupação
social elogiável e uma ambigüidade, pois a artista demonstra
dominar tanto as recordações das carroças de um passado como a
miséria que se espalha no espaço urbano presente.
A crítica Elsa afirma
ainda que as principais qualidades de Marilyn são a magia do
excelente desenho e a rica policromia de uma paleta que nunca se
apresenta estridente". As palavras de Marilyn confirmam uma
posição estilística que não deseja chocar o leitor, mas sim
encanta-lo e conquistá-lo pela suavidade e pela delicadeza.
"É no verdadeiramente simples que está o que tanto
buscamos, a paz. Disfruto o caminho do ato de fazer... a vida é
hoje", ensina.
Marilyn Itrat combina
duas qualidades raras: primor técnico e sensibilidade. Suas forma
e cores são colocadas à serviço de viagens nostálgicas por uma
Argentina que não existe mais e que, portanto, é universal. Seus
carroceiros são metáforas bem elaboradas do movimento do tempo.
Enquanto eles mergulham
lentamente no esquecimento a bordo de seu antiquado meio de
transporte, um novo mundo aponta no horizonte. Conhecer o passado
que a artista resgata em suas telas é a melhor forma de saber
como se comportar na realidade que se avizinha. Marilyn realiza,
com imagens nostálgicas, essa ponte, concretizando, em suas
pinturas de hoje, o célebre desafio de pintar o ontem para ser
lembrada no amanhã.