por Oscar D'Ambrosio


 

 


      

Marilu Queiroz

A música interior

 

O maior desafio de um aquarelista está no ato de lidar com as manchas e as cores sobre o papel em branco. Nesse ato criativo, o imprevisível desempenha um papel essencial. Surge entre o pintor e a sua criatura um diálogo intangível, que ocorre rapidamente e não admite erros.

Cada ato criativo, portanto, é um desafio que não pode ser repetido, pois trabalha com sensações que não podem surgir da mesma maneira no mesmo instante. Parafraseando Heráclito, o mesmo aquarelista não se banha duas vezes na mesma imagem, porque tanto ele como o papel e as tintas serão diferentes.

A aquarelista Marilu Reinaldi Fernandes Queiroz trabalha com todas essas variáveis nas imagens abstratas que oferece ao público. Licenciada em Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), pós-graduada em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina e mestranda em Educação, Artes e História da Cultura pela Universidade Mackenzie, ela une teoria e prática com desenvoltura.

Talvez a raiz dessa facilidade de lidar com papéis e tintas esteja nas origens da artista. Nascida em Sorocaba, Interior de São Paulo, a menina conviveu com pinturas a óleo do pai e a música dos avôs, imigrantes espanhóis. Surgia assim uma melodia interior, que acompanhará a artista por toda a vida.

Começaram então a ser estabelecidas paisagens de alma plenas de cores em diversas tonalidades. Quando criança. Marilu conta que se maravilhava ao ficar ao sabor do vento, pendurada no galho de uma árvore. Adulta, seus desenhos refletem estados da alma, em que as manchas de cores são o mais relevante.

As imagens que surgem não são oriundas de referenciais concretos, mas sim do diálogo da artista com a própria sensibilidade e seus próprios conceitos de estética, harmonia, distribuição do espaço e relação entre as cores. Nessa concepção, a abstração de Marilu não pode ser vista como uma arte sem vida, reduzida à apreciação de iniciados, mas como uma força que pulsa forte nas pinceladas sobre o papel úmido.

O maior desafio da arte da aquarela está na busca de uma harmonia entre a inquietação que o artista possui e a forma como esse sentimento se concretiza no trabalho com as tintas. Não é raro haver uma sensação de frustração, de sentimento de perda – fato que geralmente leva a uma produção ainda mais esmerada.

Embora essa eterna insatisfação seja uma marca registrada da maioria dos artistas, ao se observar as aquarelas de Marilu Queiroz. Elas se apresentam como trabalhos bem realizados, de uma artista inquieta sempre em busca de novas soluções estéticas. Seu abstracionismo é a manifestação de uma pesquisa constante dominada pela certeza de que a arte oferece as melhores respostas para as indagações da vida.

Nesse exercício permanente de criação, a música que Marilu ouvia desde a infância ganha cores. As melodias espanholas ou as composições clássicas cedem espaço a um ritmo interior, em que o papel, a água e as tintas são soberanos. Sua arte surge assim plena de vigor e energia, como legítima e autêntica resposta ao mundo conturbado em que vivermos.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP) e responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio

 

 

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"Série Sensações Interiores"

aquarela sobre papel  57 x 35,5 cm - 2001 -

Marilu Queiroz

 

 

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