Marilu Queiroz
A música interior
O maior desafio de um aquarelista
está no ato de lidar com as manchas e as cores sobre o papel em
branco. Nesse ato criativo, o imprevisível desempenha um papel
essencial. Surge entre o pintor e a sua criatura um diálogo
intangível, que ocorre rapidamente e não admite erros.
Cada ato criativo, portanto, é um
desafio que não pode ser repetido, pois trabalha com sensações
que não podem surgir da mesma maneira no mesmo instante.
Parafraseando Heráclito, o mesmo aquarelista não se banha duas
vezes na mesma imagem, porque tanto ele como o papel e as tintas
serão diferentes.
A aquarelista Marilu Reinaldi
Fernandes Queiroz trabalha com todas essas variáveis nas imagens
abstratas que oferece ao público. Licenciada em Educação
Artística com Habilitação em Artes Plásticas pela Fundação
Armando Álvares Penteado (FAAP), pós-graduada em Artes
Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina e mestranda em
Educação, Artes e História da Cultura pela Universidade
Mackenzie, ela une teoria e prática com desenvoltura.
Talvez a raiz dessa facilidade de
lidar com papéis e tintas esteja nas origens da artista. Nascida
em Sorocaba, Interior de São Paulo, a menina conviveu com
pinturas a óleo do pai e a música dos avôs, imigrantes
espanhóis. Surgia assim uma melodia interior, que acompanhará a
artista por toda a vida.
Começaram então a ser estabelecidas
paisagens de alma plenas de cores em diversas tonalidades. Quando
criança. Marilu conta que se maravilhava ao ficar ao sabor do
vento, pendurada no galho de uma árvore. Adulta, seus desenhos
refletem estados da alma, em que as manchas de cores são o mais
relevante.
As imagens que surgem não são
oriundas de referenciais concretos, mas sim do diálogo da artista
com a própria sensibilidade e seus próprios conceitos de
estética, harmonia, distribuição do espaço e relação entre
as cores. Nessa concepção, a abstração de Marilu não pode ser
vista como uma arte sem vida, reduzida à apreciação de
iniciados, mas como uma força que pulsa forte nas pinceladas
sobre o papel úmido.
O maior desafio da arte da aquarela
está na busca de uma harmonia entre a inquietação que o artista
possui e a forma como esse sentimento se concretiza no trabalho
com as tintas. Não é raro haver uma sensação de frustração,
de sentimento de perda – fato que geralmente leva a uma
produção ainda mais esmerada.
Embora essa eterna insatisfação seja
uma marca registrada da maioria dos artistas, ao se observar as
aquarelas de Marilu Queiroz. Elas se apresentam como trabalhos bem
realizados, de uma artista inquieta sempre em busca de novas
soluções estéticas. Seu abstracionismo é a manifestação de
uma pesquisa constante dominada pela certeza de que a arte oferece
as melhores respostas para as indagações da vida.
Nesse exercício permanente de
criação, a música que Marilu ouvia desde a infância ganha
cores. As melodias espanholas ou as composições clássicas cedem
espaço a um ritmo interior, em que o papel, a água e as tintas
são soberanos. Sua arte surge assim plena de vigor e energia,
como legítima e autêntica resposta ao mundo conturbado em que
vivermos.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora UNESP) e responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio