por Oscar D'Ambrosio


 

 


Mari Dias

 

O infinito azul das noites de arraial.

 

O cotidiano tenso das grandes cidades, associado à busca sem limites por uma carreira financeiramente bem sucedida, leva muitas pessoas a deixarem em segundo plano a realização pessoal que, muitas vezes, pode estar presente no prazer de lidar com pincéis e tintas. Esse, porém, não é o caso da artista plástica Mari Dias, que encontrou na pureza popular das festas juninas uma legítima expressão do seu modo de ser e de estar no mundo.

Pós-graduada em Administração Geral e Relações Industriais, pela Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, Maria Dias – cujo nome completo é Marilene Dias dos Santos – ocupou, até 2001, uma série de cargos importantes em bancos, empresas privadas e instituições públicas. A carreira bem sucedida, no entanto, não ofuscou o seu desejo de dedicar-se totalmente às suas pinturas. Apaixonada pelas artes plásticas, de modo geral, Marilene descobriu seus dotes artísticos ainda na infância – período em que viveu entre as cidades de Campos do Jordão, onde nasceu em 07 de julho de 1949, e Pindamonhangaba, Interior de São Paulo.

Quando criança, um de seus passatempos favoritos era o artesanato. Elogiada por suas pequenas obras, é nessa fase que ela começa a sonhar em tornar-se uma artista plástica. “Em minha adolescência não pude contar com o apoio de minha família para seguir a carreira. Mas este sonho permaneceu comigo durante muitos anos”, afirma.

Para Marilene, a oportunidade de voltar-se à sua verdadeira vocação veio mesmo em 1999. Ao saber que poderia obter uma bolsa de estudos na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), prestou o vestibular para o curso de Educação Artística da instituição. “Meu marido é professor de Administração na Faculdade. Por intermédio de uma amiga, soube que havia a possibilidade de cursar o que eu pretendia gratuitamente”, explica. “Mas para isso precisava passar no vestibular”.

Após prestar o exame, Marilene, decepcionada, não encontrou o seu nome na lista de aprovados. Mais tarde, porém, Marilene recebeu um telefonema que mudou a sua vida. Ao contrário do que ela esperava, uma amiga lhe deu a notícia de que o seu nome constava entre os aprovados. “O jornal que consultei tinha trocado as listas de classificação”, lembra. “Ao esclarecer a confusão, ela pediu que eu desse uma olhadinha na Folha de S.Paulo daquela manhã. Vi meu nome. Estava aprovada.”

Marilene matriculou-se no curso de Artes Plásticas justamente no dia em que completou 50 anos. Aluna dedicada, a artista freqüenta as aulas na FAAP com muito entusiasmo. Para ela, a Faculdade é fundamental em sua carreira. “Os artistas mais influentes no meu trabalho são os meus professores. Graças a eles, pude aprimorar a minha técnica e evoluir muito como pintora”.

Em seus trabalhos, Marilene destaca temas quase sempre relacionados às tradicionais festas juninas. Obras como Fogueira Soltando Pipoca, Quadrilha e As Bandeirinhas representam essa temática. Em cores vibrantes, elas retratam os elementos típicos dos arraiais, como fogueiras, quadrilhas e personagens a caráter – as moças de vestidos estampados bem coloridos e lenços no cabelo; e os rapazes, de chapéu de palha, calças remendadas e camisas xadrez. “Cresci fascinada por esse universo”, afirma a artista. “Em minha infância, aprendi a gostar do Brasil não só por tudo o que ele representa para nós, mas também pela riqueza de suas manifestações populares.”

Nos trabalhos Conversa dos Homens, Caipiras e os Fogos, e Conversa das Mulheres, a beleza das festas caipiras é realçada pela maneira peculiar como a artista pinta o fundo de suas telas. Com pinceladas em tons de azul e de branco, elas oferecem uma perspectiva de amplidão e luminosidade.

Em Caipiras e os Fogos, por exemplo, essas qualidades tornam-se ainda mais significativas. Nesta obra, o azul e o branco dividem espaço com diversas outras cores, usadas para representar as luzes emitidas por fogos de artifício. Os personagens desses quadros, por sua vez, são marcados pela ausência de uma base sob seus pés. Envolvidos por cores celestiais, eles parecem flutuar em meio a uma paisagem etérea. Essa característica evoca uma noção de liberdade e desprendimento em relação aos cenários rurais, convencionalmente utilizados em pinturas do gênero.

Já em obras como Maria e o Bebê, o fundo é marcado pela austeridade e o atrativo da tela fica por conta da expressão emotiva de seus personagens. Sob um fundo bege e opaco, o quadro exibe a figura cativante de uma camponesa segurando um bebê. “A obra foi feita em homenagem às mulheres humildes do campo”, diz. “Em virtude das dificuldades que enfrentam, elas podem ser consideradas como um exemplo de coragem e dedicação ao mesmo tempo que aceitam com humildade seu destino inquestionável.”

Apesar da breve carreira, Marilene já apresentou uma série de exposições em diversos pontos da cidade de São Paulo. Entre elas: Festa na Roça, no prédio da Companhia de Processamento de Dados do Município de São Paulo (Prodam) e no Espaço Cultural do Banco Central do Brasil; Genius Loci - O Espírito do Lugar, no Teatro Paiol, por meio do Circuito Vila Buarque de Educação e Cultura; Tudo o que Sei até Agora e Patchworks, apresentadas, respectivamente, nos Fran’s Café da Av. Juscelino Kubitscheck e do Shopping Pátio Higienópolis, entre outras. “Tão importante quanto expor é freqüentar as próprias exposições. Nessas ocasiões, sempre há a possibilidade de dialogar com críticos de arte ou outros artistas”, comenta. “Sentir a reação do público e ouvir as suas opiniões durante a exposição contribuem bastante para o crescimento de qualquer artista.”

Há pouco tempo, uma situação inusitada deu a Marilene uma real dimensão do valor de seu trabalho. Convidada por sua amiga, Leda Kfouri, para um evento beneficente, ela achou que doaria um quadro para ser leiloado. Sem saber que, na verdade, participaria apenas como compradora, ela entregou ao leiloeiro uma gravura da série "A Mulher é azul" – de sua primeira exposição. “Por curiosidade, chequei a lista dos demais doadores. Para meu susto, descobri que só entraram no leilão obras de artistas de renome”.

Nervosa ao perceber que fora convidada ao leilão apenas como compradora – e não como uma das doadoras das obras a serem arrematadas –, Marilene decidiu então encontrar uma maneira de retirar a sua gravura do leilão. “Tive medo de passar por um vexame”, recorda-se. “A Ledinha me disse, então, que, naquele momento, não podia mais retirar a minha obra do leilão. O jeito era encarar. Fui para um canto e transpirei até a oferta do último lote: minha gravura”.

Como prova do talento de Marilene, a gravura foi disputada e comprada por um lance alto. “Fui para casa muito feliz. Cantava no carro e gritava sozinha, comemorando”, conta. “Esta experiência foi importante não só pelo fato de ver o meu trabalho valorizado, mas também pelo prazer que tive ao contribuir para uma causa nobre.”

Em seu ateliê, Marilene também oferece cursos de pintura, mosaicos, história em quadrinhos, confecção de bonecos e auto-retratos. Para participar deste último, o pré-requisito é a leitura do livro Auto-retrato, Espelho de Artista, da crítica de arte Kátia Canton – Editora Cosac & Naif. Após a leitura, os alunos ficam encarregados de reunir ilustrações e fotografias não só das coisas que integram o seu cotidiano, mas também das pessoas e objetos estimados por cada um. “A idéia é que cada um revele a si mesmo por meio desse material”, afirma. “Esse exercício é importante não só como um trabalho artístico, mas também como um meio de promover o autoconhecimento, a autoestima e o prazer.”

Marilene ressalta que a experiência de dar aulas tem sido tão gratificante, que uma de suas maiores vontades consiste em reformar e ampliar o seu ateliê. A sua intenção é a de torná-lo um lugar agradável como a oficina de artes que freqüentou, durante três anos, antes de ingressar no curso de Educação Artística da FAAP: o ateliê das senhoras Utta e Lote. “Quero que o meu ateliê seja um lugar onde todos possam relaxar e sentir prazer enquanto realizam os seus trabalhos”, conta. “Era exatamente como me sentia na época em que freqüentava o ateliê delas.”

A artista também planeja o seu futuro artístico. A prioridade é divulgar as suas telas no Exterior. “Recebi com muita alegria a notícia de que algumas de minhas obras foram dadas de presente a pessoas em outros países. Duas delas, por exemplo, foram compradas em Miami”, comenta. “Mas a minha intenção é ampliar ainda a presença de meus quadros no exterior. Seria ideal se eu pudesse organizar exposições por lá e, com isso, mostrar um pouquinho mais do Brasil para as pessoas no resto do mundo”, finaliza.

Ao longo do seu trabalho, Mari Dias mostra que a coerência aos próprios ideais é a maior qualidade de um artista. Ao tomar as festas juninas como temática e ao apostar em sua vocação, traça um percurso em que os fundos azuis infinitos abrem as portas para uma carreira de possibilidades ilimitadas em que o grande dogma é renovar-se sempre.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica – Seção Brasil) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

 

Ricardo Dias da Costa é estudante de Jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi.

 

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

"Caipiras e os fogos"

acrílica sobr tela 50x50 cm-2002

Mari Dias

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio