Maria
Ruiz
Ordem no caos
Na maioria das religiões,
foi do caos que surgiu a ordem universal. Da desordem primordial,
instaurou-se o cosmos. Isso ocorre tanto na mitologia grega como
na tradição judaico-cristã. Após um período conturbado, a
harmonia e o equilíbrio são estabelecidos. Essas duas palavras
justamente qualificam o trabalho da pintora Maria Aparecida da
Silva Ruiz Tavares, conhecida como Maria Ruiz, fora do Brasil, e
Cida Ruiz, no Brasil. “O motivo dessa diferença é simples. Em
países como Espanha Portugal,
o som Cida evoca a Sida, modo como eles conhecem a Aids. É necessário,
portanto, mudar o nome para não ser motivo de piadas o tempo
todo”, afirma a artista.
Nascida em 10 de
setembro de 1958, em Jataizinho, PR, próximo a Londrina, Maria
Aparecida da Silva Ruiz Tavares manifestou sua vocação artística
desde a infância, desenhando em cadernos escolares. No entanto,
seu despertar para a pintura ocorreu no final da década de 1980.
“Eu costurava umas roupas para a Edna de Araraquara, pintora
casada com o também artista Zé Cordeiro. Eles iam para a
Alemanha e ela me pediu algo diferente”, conta. “O casal
gostou muito do resultado e o Zé Cordeiro me perguntou por que eu
não pintava”.
Cordeiro e Edna, que,
na época, eram proprietários da Galeria Casa da Arte Brasileira,
em Campinas, e foram os padrinhos de Maria nas artes plásticas.
Ela participou de sua primeira coletiva em 1989, mostrou seu
trabalho em exposições no Centro de Negócios de São Paulo, em
São Caetano do Sul, SP, e no Festival de Arte Primitiva, em San
José, Costa Rica.
Maria começou a
pintar telas de pequenas dimensões, nas quais extravasava imagens
do interior, sempre equilibradas e repletas de paz. No entanto,
ela não conseguia ser catalogada, porque suas telas eram de
pequenas dimensões. “Passei então a pintar dimensões maiores,
o que me permitiu, por exemplo, entrar no volume Artes
Plásticas Brasil 94, de Júlio Louzada”, afirma.
.
Em telas como Harmonia
entre Homens e Animais, é possível apreender a visão de
mundo da artista. Duas casas humildes surgem em meio a um cercado
de madeira, conectado ao mundo por uma pequena porteira. Em torno,
instaura-se um ambiente paradisíaco, em que aparecem diversos
animais tipicamente brasileiros, tanto num pequeno rio, às suas
margens como na presença de um ninho de joão-de-barro sobre uma
árvore.
A atmosfera é de
total integração. Entre as duas casas, há um poço para retirar
água, rodeado por um varal de roupas coloridas. Próximo a ele,
uma figura do sexo feminino surge diminuta, como se houvesse
receio de que essa presença humana pudesse interromper a harmonia
entre a natureza, as serras, o céu, as árvores, as plantas, a água
cristalina e os animais que perambulam livremente.
Traços
precisos e simples são combinados com extrema delicadeza, como é
possível observar no desenho das casas, poéticas construções
em meio a uma vegetação retratada em diversos tons de verde,
salpicado pela presença de algumas flores. À esquerda, surge a
imagem majestosa de uma árvore, a grande dominadora da situação,
talvez numa alusão ao poder infinito da mãe-natureza de
coordenar harmonicamente o funcionamento de tudo o que existe.
O quadro Férias
no campo espelha essa mesma tranqüilidade. Cruzando a tela
diagonalmente surge um rio. Em suas margens, diversas pessoas
aproveitam seus momentos de descanso. À direita, com uma camisa
amarelo mais quente e calça mais pálida no mesmo tom, um
pescador moreno lança seu anzol. Ao seu lado, um cão descansa.
Ambos desfrutam a sombra propiciada por uma árvore em cujo tronco
se encontram flores coloridas.
Comparecem ainda na
tela mais dois pescadores. No meio do rio, um rapaz loiro se
banha, com água pouco acima dos joelhos. Na margem oposta, uma
mulher de biquíni vermelho responde à saudação do pescador.
Atrás dela, diversas pessoas brincam, numa pequena praia e
embaixo de uma árvore florida, em que há uma cadeira de balanço
pendurada, com uma pessoa sentada.
A vegetação
abundante, o clima de paz entre as pessoas e a natureza transmitem
justamente um universo cosmológico, em que tudo é ordenado e
funciona adequadamente. As quebras de perspectiva e a simplicidade
dos traços se enquadram no estilo naïf, principalmente pelas
soluções próprias encontradas para expressar a possibilidade da
existência de um mundo pleno de harmonia e equilíbrio, bem
distante, portanto, do caos inicial em que o mundo foi criado.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp).