por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Maria Papadimitriou
 

 
 

Um museu para todos
 

 
 

Imagine um cenário em que automóveis abandonados, móveis velhos e pneus usados
se acumulam num ambiente repleto de cores quentes. Homens, mulheres e crianças
vivem nesse local, considerado de passagem, desenvolvendo uma cultura própria,
com ricas manifestações artísticas e vivenciais.  
 

Esse universo, situado em Avliza, área deteriorada na parte ocidental de Atenas,
a 10 km do centro da capital - habitado por populações itinerantes de ciganos e
romenos que se deslocaram da Valáquia, no norte da Grécia - motivou o projeto
Museu Autônomo Temporário para Todos (Temporary Autonomous Museum for All -
T.A.M.A.), apresentado como representação oficial da Grécia na 25ª Bienal de São
Paulo, realizada em 2002.
 

A região, localizada no sopé do monte Parnaso, um dos mais célebres da Grécia,
justamente por ser considerada um ponto de inspiração dos poetas, conta com
aproximadamente 350 pessoas. A descoberta da região pela artista foi acidental e
ocorreu quando ela a visitou pela primeira vez, em 1998, com dois amigos,
procurando móveis antigos a preços baratos. 
 

Papadimitriou, porém, logo ficou atraída não só pelas antiguidades, mas pela
mencionada riqueza cultural e visual. O caráter provisório de Avliza lembra um
cenário de acampamento de guerra, principalmente por elementos característicos
de locais de passagem, como combinações inusitadas de roupas, construções
precárias e convivência de grande variedade de etnias e profissões.
 

Articula-se assim um universo especial, mas não único em escala mundial, que se
insere no processo global de alargamento da periferia das capitais. Os moradores
dessas regiões enfrentam problemas similares em relação a condições de
alojamento, ausência de estrutura básica de higiene, deficiências de ensino,
ilegalidade em termos jurídicos e, principalmente, marginalidade pelo
preconceito social, que impede a aceitação daqueles que não se enquadram nos
padrões estabelecidos pela globalizada sociedade de consumo.
 

O nomadismo dos habitantes de Avliza dificulta o estabelecimento de uma memória
dos habitantes dessa área metropolitana periférica. Papadimitriou teve então a
idéia e a iniciativa concreta de estabelecer um intercâmbio entre os habitantes
provisórios da região, os artistas locais e o público externo.           
 

Essas três instâncias (moradores, artistas locais e interessados em conhecer o
modo de vida do local) acabam por se unir pela criatividade demonstrada no
momento de enfrentar dificuldades. Os moradores de Avliza necessitam estar
sempre prontos para o imprevisto pela sua própria condição de marginalidade em
relação a Atenas e, nesse processo, valem-se de princípios caros aos artistas e
aos defensores da liberdade de expressão: o poder da improvisação e de não se
abater mesmo perante as situações mais difíceis.
 

O projeto do T.A.M.A. recebe hoje, dentro dessa filosofia, o apoio dos mais
variados segmentos sociais, desde artistas populares locais até críticos de
arte, arquitetos, sociólogos e antropólogos. Papadimitriou coordena todos esses
esforços e conta com o auxílio inclusive de uma brasileira, Fabiana de Barros,
com seu projeto "Fiteiro Cultural", obra artística coletiva em que os
participantes são, simultaneamente, atores e espectadores de um processo de
conhecimento interior e de busca de completude no outro. 
 

O resultado é a possibilidade de reatar laços culturais com as próprias raízes e
o conhecimento de outras culturas, numa ação que combate qualquer tipo de
preconceito, seja ele étnico, religioso ou comportamental. Por intermédio do
diálogo constante busca-se preservar a identidade e ampliar a visão de mundo
numa perspectiva que valorize o coletivo sem desrespeitar o individual. 
 

Rebatizado de Períptero de Cultur, o projeto de Fabiana ilustra bem a proposta
do T.A.M.A de criar, em Avliza, atividades educativas e simbólicas que levem a
comunidade a interagir. É criada assim uma forma de diálogo permanente em que o
principal objetivo é criar laços que mantenham as pessoas em contato e evitem
que diversas atividades artísticas e culturais caiam no esquecimento.     
 

Dentro do projeto de Papadimitriou, uma das prioridades é criar locais de
mobilidade e de adaptação social próprios ao combate da situação marginal
imposta àqueles que, por morarem à parte do centro de Atenas, são rejeitados e
até mesmo perseguidos pela sociedade, com seus poderosos enquadramentos
institucionais. 
 

Autônomo, por incluir habitantes de uma região determinada, e provisório, pelo
nomadismo de seus participantes, o T.A.MA. propicia, de maneira concomitante, a
criação de uma memória, a continuação das atividades culturais existentes em
Avliza e uma renovação plena de dinamismo. Tudo isso é feito sem descaracterizar
o local. Não se procura embelezar o que parece hoje feio ou planejar uma utopia
cor-de-rosa, mas sim estabelecer espaços de troca cultural em que as pessoas, os
objetos e as cores existentes se aglutinem. 
 

Artista e comunidade podem, dessa maneira, integrar-se plenamente, seguindo o
pressuposto da palavra T.A.MA., que, em grego, significa tanto uma oferta
realizada aos deuses como um voto, ou seja, a promessa feita a um ser divino de
um presente se algum pedido for aceito. 
 

As fotos que Papadimitriou trouxe à Bienal de São Paulo revelam imagens de
grande impacto estético. Há toalhas coloridas penduradas na varanda de uma casa
branca, além de numerosos registros de moradias provisórias, muitas delas
cercadas por cenários de destruição, com muito lixo. Trailers em péssimo estado
de conservação e barracos precários construídos com madeira compensada completam
esse ambiente, que mistura o fascínio do itinerante com o sombrio ar de
decadência existencial próprio das áreas periféricas metropolitanas.
 

 O grande ensinamento que a proposta do T.A.M.A. traz é como não se deve perder
a oportunidade de registrar manifestações culturais, por mais estranhas ou
efêmeras que elas possam parecer. Maria Papadimitriou, ao desempenhar esse
trabalho, cativa a nossa atenção. Em suas mãos, a região de Avliza se torna um
território que desejamos explorar, pela sua riqueza humana, visual ou cultural,
mas, principalmente, pela possibilidade de encontrar ali uma civilização
perdida, na qual ciganos e romenos se encontram, talvez brevemente em termos
físicos, mas que, por meio do T.A.MA., pode se cristalizar em momentos
inesquecíveis ou, pelo menos, fotografias  deslumbrantes, como as exibidas na
Bienal de São Paulo de 2002, plenas de valor antropológico, social e estético. 
 

 
 

Oscar D'Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (Aica) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).
 

 
 

 

 

 

 

 

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"Temporary Autonomous Museum for All (T.A.M.A.)

Avliza, Atenas, Grécia"
Fotografia - Bienal de São Paulo -2002
 
Maria Papadimitriou


 

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