Libertação
do olhar
O
dramaturgo francês Musset (1810-1857) intitulou uma de suas comédias
Uma porta há de estar aberta ou fechada. O título, em sua
aparente obviedade, esquece daquilo que talvez as portas tenham de
mais maravilhoso: a possibilidade de estar entreabertas, ou seja,
elas podem não só mostrar ou não-mostrar, mas, talvez,
principalmente sugerir e insinuar.
Orientado
pelo docente Luiz Guimarães Monforte, Através,
livro de artista que constitui o trabalho de conclusão de curso de
Maria Luisa Stock para o bacharelado em Artes Plásticas do
Instituto de Artes da Unesp, campus de São Paulo, trabalha
justamente com a dimensão daquilo que está no meio, entre os mais
diversos elementos, sejam fotografias ou desenhos, que, em alguns
casos, comentam as fotografias, fazendo analogias visuais ou ainda
acrescentando elementos às imagens registradas.
O
universo de Maria Luisa não é, porém, o das portas, mas o das
janelas e dos livros. Seu livro de artista trabalha justamente com o
universo das possibilidades que estão nas janelas. Entreabertas
enquanto metáforas de um livro a ser folheado, elas convidam a
entrar, mas, ao mesmo tempo, nos levam a ter receio de invadir a
privacidade alheia.
As
janelas são ambíguas enquanto barreira a ser vencida e chance de
conhecer o outro. São ainda registros históricos e arquitetônicos
de uma cidade e porta de entrada para uma
reflexão profunda sobre a passagem do tempo que muitas
denunciam, pelo seu desgaste físico.
A quase
total ausência de pessoas não significa que essa dimensão não
esteja presente, já que as fotografias e desenhos não falam apenas
de arquiteturas de residências, mas do ser humano. Nesse sentido,
é possível, independentemente da vontade da artista, encontrar ou
criar uma narrativa a partir do que se vê no livro.
A questão
é que um criador plástico, de forma ou mais ou menos consciente,
não vê o objeto de seu desejo isoladamente. Ele surge
associado a algum tipo de narrativa, evidenciada em graus variáveis.
As três partes de Através, por exemplo, com seus momentos
de Espiar, Conhecer e Sair, comportam perguntas sobre quantas e
quais pessoas se debruçaram nos parapeitos de algumas janelas
mostradas.
Há aí
uma memória afetiva, um valor cultural. Janelas não vêm à tona
isoladas de um todo, mas associadas muitas vezes a paredes e a
objetos. Decadência, poder, preservação ou abandono denunciam a
sua presença. Janelas, assim como livros, contam histórias.
Janelas
desvendam vidas e épocas. Permitem a entrada de luz e de ar numa
casa – e também podem cercear a liberdade de dialogar com o
mundo. Se regulares e equilibradas, indicam ordem; se carcomidas
pelo tempo, por enchentes ou por cupins mostram que o passar dos
segundos do relógio tem a capacidade de destruir absolutamente
tudo.
Se a
janela, está aberta, o ruído entra, mas também cria a
possibilidade de alguém aparecer a qualquer momento. Esse
sentimento desaparece perante a janela fechada, que impossibilita o
diálogo. Se austera, afasta o visitante e cria uma segura distância,
quase intransponível.
No
entanto, quando janelas próximas apresentam diferentes graus de
abertura, instaura-se um mundo novo. É possível até estabelecer
gradações de abertura, assim como ocorre com os seres humanos, que
variam o seu grau de recepção a certos discursos plásticos ou
ideológicos.
Muito
pode então ser dito e quase nada comprovado perante a miríade de
possibilidades de aberturas das janelas, ainda mais quando elas
dialogam com os desenhos da artista. Uma janela fechada e inexpugnável
ou escancarada e convidativa tem um perfil humano. É um convite a
espiar, conhecer ou sair.
Pode
ser tanto um salto para o escuro infinito como um passo rumo à luz
e seu poder de desvendar mundos e olhares. Oferece o risco de
enfrentar o geralmente temido desconhecido ou o apolíneo da ordem
estabelecida, trazido pelo poder da aparente claridade da razão,
como já alertava sabiamente Machado de Assis.
No
capítulo LI de Memórias póstumas de Brás Cubas, o defunto
narrador (narrador defunto?) relata: “... descobri uma lei
sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo
de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral
possa arejar continuamente a consciência”.
No livro
de Maria Luisa Stock, moral e consciência se equilibram. Há um
pressuposto moral, no sentido de realizar uma obra artística com
uma proposta bem definida, que tem um compromisso com a sociedade no
sentido de registrar imagens que o tempo pode vir a corroer.
Existe,
porém, em grau equivalente, como comprova o seu projeto gráfico, a
consciência de que o seu livro possui uma poética própria, que não
passa apenas pelo primor fotográfico, mas pela constante busca do
aperfeiçoamento da própria sensibilidade de captar a riqueza
visual das janelas. E as histórias que elas contam, queiramos ou não.
Janelas
e livros são mundos a serem explorados, pois representam, entre
outras coisas, a permanência da impermanência da presença humana
na face da Terra. Ambos registram entradas e saídas (luz e ar, no
primeiro caso; idéias e conceitos, no segundo). Se são
destruídos pelas décadas, duram mais que as pessoas.
Se
a palavra fotografia, em sua origem, significa “escrita da luz”,
Maria Luisa escolhe um assunto e angulação próprio para
desenvolver (escrever) seu trabalho plástico. Seu livro de artista,
em que cada página funciona como paisagem de um pensamento,
ultrapassa a mera pesquisa estética.
Cada
imagem tem valor pelo estabelecimento de um norte, um caminho, uma
linguagem, uma poética em que cada janela, seja apresentada com ou
sem interferência, é um universo próprio, com seus jogos de luz,
reflexos e significados. Fotografar janelas constitui, nessa óptica,
um exercício mágico de captação de registros.
Muito
mais que uma mera documentação, encontra-se, na forma de clicar
cada janela e de interferir com ela e com o que evoca, a resposta
para uma inquietação que talvez possa ser resumida em uma pergunta
basilar: como a “escrita da luz” pode lidar com essas imagens?
Janelas
– abertas, entreabertas ou fechadas – são caminhos para o mistério.
Delimitam espaços a serem desvendados pelo olhar do observador,
criando novas dimensões ou evocando os mais diversos locais. Através
convida cada observador a percorrer esse imaginário.
No
jogo de velar/revelar a realidade, Maria Luisa concretiza a tarefa
de dar materialidade a um projeto que parte de janelas para atingir,
queira ou não, como aponta Marcel Duchamp, em seu texto O ato
criativo, de 1957, o abstrato, as emoções e lembranças que os
elementos do cotidiano evocam.
Através,
como livro de artista que é, parte do cotidiano, de imagens por
todos muitas vezes vistas e não sentidas, para lançar o alerta de
que as janelas e os espaços que elas instauram ao seu redor, seja
dentro ou fora do ambiente que delimitam, oferecem muito mais do que
pode parecer num primeiro momento.
Maria
Luisa Stock, com suas imagens, gera o sentimento – nunca,
felizmente, a indiferença
–, de que uma janela, com sua capacidade de fazer espiar, conhecer
e sair, está sempre além do que somos capazes de escrever ou
verbalizar. Seu livro, ao ser aberto no presente, liberta o olhar,
deixa-o entreaberto, pronto ao novo. Sem desprezar o antigo, aponta
para as janelas de um futuro promissor.
Oscar
D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).