María Laura Leanes
A senhora dos azuis
Universalmente considerada a cor do
infinito, o azul tem o poder de transformar o real em imaginário.
É dessa cor o mítico pássaro da felicidade, cujo encontro
propiciaria a realização de todos os sonhos. Perante o azul,
segundo o Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain
Gheerbrant, o consciente cede espaço ao inconsciente e a
realidade, ao sonho.
O azul acalma e tranqüiliza e, para
os egípcios é a cor da verdade, conotação que se amplia no
budismo tibetano, onde o azul é ligado à sabedoria
transcendente, encontrada simbolicamente na imensidão do céu
azul, tema recorrente – e tratado com maestria – pela artista
plástica argentina María Laura Leanes.
Nascida em Buenos Aires, em 1967, María
Laura morou três anos em Mar del Plata e passava todos os verões
em Ayacucho, na província de Buenos Aires. Hoje, mora na cidade
de Bariloche, tema constante de seus quadros, mas também viajou
para África do Sul, Brasil e vários países europeus.
A artista iniciou sua carreira
pintando flores e cabeças de cavalo, primeiro em branco e preto.
"Depois, aprendi a incorporar a cor. No começo, pintava com
tinta a óleo e, depois, em acrílico", conta. "Me
considero naïf desde sempre, pois evocar o sentimento de sossego
que se respira na arte ingênua confirma que a vida é o resultado
de nossas escolhas."
María Laura, que também se dedica à
música, cantando num coro, afirma que "Expressar a fantasia
em forma de arte, situando-a na tela, cria uma realidade". De
fato, algumas de suas telas, como Antidiluviano, realizam essa
ponte, fundindo tempos totalmente díspares.
Em primeiro plano, surge uma volumosa
floresta tropical, na qual um conjunto de animais permanece estático,
de frente ao espectador, como se estivessem posando para uma
fotografia. Estamos perante uma família animal, composta por um
leão, zebra, girafa e tigre. No centro, a imagem mais
surpreendente do conjunto: uma mulher, com as bochechas
avermelhadas, segura um filhote de dinossauro no colo,como se ele
fosse um bebê, alheia ao espanto que a cena provoca no
espectador.
Atrás desse retrato de família, em
meio à água de um lago, surge o reflexo de uma lua azul,
enquanto o sol brilha no céu, iluminando diversos animais, como
flamingos, mais uma girafa ao fundo e até um dinossauro adulto.
Ocorre assim uma integração entre épocas diversas da História
sem nenhum tipo de choque.
A naturalidade com que a cena é
retratada está de acordo com a postura calma da mulher. Rodeada
de animais selvagens, não esboça qualquer reação de temor.
Posiciona-se ainda junto a uma flor descomunal de cor rosa, que,
mesmo ela estando sentada, ultrapassa a própria cabeça e chega
até a metade do pescoço da girafa.
María Laura parece partir do real
para introduzir algum elemento fantástico ou imaginário. Pinta
assim crenças populares, animais e paisagens. Uma destas últimas
lhe valeu a Quarta Menção na III Bienal Internacional Naïf da
Fundação Rómulo Raggio, em 1998, na Argentina, com a tela
Sinfonia invernal.
O quadro mostra a praça central da
cidade de San Carlos de Bariloche em tons de azul e branco, que
evocam a bandeira Argentina e geram uma atmosfera de harmonia e
calma. Surge assim a bandeira nacional num imenso mastro, além de
casas de pedra e madeira, com os típicos relógios no topo.
Turistas batendo fotos em grupo, um cão
São Bernardo passeando com a dona, pessoas com roupas de frio e,
ao fundo, os picos nevados completam a paisagem. O nome sinfonia
ganha então duplo sentido. Por um lado, há um grupo de músicos
entoando alguma melodia clássica com seus instrumentos de corda,
principalmente violinos. No entanto, o que cativa o espectador é
a harmonia da composição, com suas variações de azul.
Até o verde da grama e dos pinheiros
ganha tons azulados. Pessoas caminhando sem compromisso ou lendo o
jornal na praça são elementos constituintes do equilíbrio
criado entre o fragmento do mundo urbano retratado pela artista e
o universo selvagem que se descortina ao fundo, no imenso poder
silencioso das montanhas brancas.
Com um quadro no Museu Austral Naïf
de Esquel, em Neuquén, María Laura, segundo Nilda Marruco
Carbonel, redatora, produtora e editora gráfica do livro Arte Naïf:
libro de notas, caracteriza-se por "amplos horizontes, de
espaços limpos e transparentes". A jornalista também elogia
a forma como a artista libera sua fantasia nas telas e o modo como
trabalha com as cores.
Um exemplo da atenção com as cores e
com a composição é a tela Princípios de outono, também
exibida na Bienal de 1998. O azul do céu repete-se agora na cor
do lago, onde pessoas passeiam de barco. Ao fundo, uma casa de
madeira com a bandeira da Argentina e a riqueza cromática da
paisagem, valoriza ainda mais a tela.
Em primeiro plano, um morador da região
é apresentado em detalhes. Em roupas típicas, sobre um cavalo,
como uma fitinha azul e branca amarrada no chapéu e contemplado
por patos, acena para um homem num barco a remo. A riqueza cromática
da tela revela o talento da artista para trabalhar com diversos
tipos de cores, principalmente o azul, o verde e o amarelo.
Na IV Bienal, realizada em 2000, Maria
Laura exibiu um trabalho diferente: As negrinhas. O cenário agora
é uma praia em que, sob o céu e junto ao mar, igualmente azuis,
duas crianças negras, de biquíni – também azul – fazem um
castelo de areia acompanhadas por um cão e observadas, a certa
distância, pela mãe – com roupa azul, é claro. À esquerda, há
um barco vazio, chamado João II, enquanto o João I está sendo
usado para a pesca.
A desproporção das
filhas em relação à macérrima mãe e do pescador em relação
ao seu instrumento de pesca não só caracterizam o quadro como naïf,
como constroem um universo simbólico de pureza e encantamento, de
integração entre o homem simples e trabalhador e a natureza
amiga e paradisíaca.
As palmeiras tropicais, o ambiente onírico
e a cor muito negra, irreal, das figuras humanas sugerem um espaço
de mescla entre a realidade vista e a imaginada. É aí que
transita o talento de María Laura. Quando são eliminados os
limites entre o que pode ser e não ser, a arte se realiza como
resposta do artista perante o mundo.
María Laura, que deu aulas de pintura
durante oito anos, consegue esse efeito na grandeza das paisagens
de Bariloche, nas cenas da infância passadas no campo e nos verões
aproveitados em praias tropicais, três de seus temas preferidos.
A tela Férias pertence ao segundo grupo. Uma charrete passa por
uma estrada florida, ladeada por vacas manchadas. Pássaros nas árvores,
nuvens plácidas no céu e uma atmosfera aconchegante dão ao
quadro a dimensão do sonho.
A mesma atmosfera de sonho pode ser
observada nos cartões de Natal da artista bonarense. Noite de
Paz, por exemplo, enfoca o tema da Natividade de modo criativo. Em
meio à neve, um pastor, com imenso cajado, contempla a estrela de
Belém. À esquerda, um anjo toca uma corneta, anunciando a
chegada do Menino Jesus. Ele se posiciona no ar sobre uma cidade
feita de neve ou gelo, com estruturas semelhantes a edifícios
construídas na forma de bonecos de neve.
Um dado curioso na composição são
os patos próximos ao pastor. Incomuns nas cenas natalinas, eles dão
interesse à composição ao se posicionarem num bloco de cinco,
cada um olhando para uma direção. O recurso dá movimento ao
quadro e pode ser observado principalmente na primeira ave da
esquerda, que, com a cabeça erguida, cria uma linha imaginária
diagonal, da esquerda para a direita, que atravessa todo o quadro
e leva o olhar do espectador a percorrer esse percurso visual.
María Laura Leanes apresenta, em seu
trabalho pictórico, uma saudável diversidade temática; porém,
é no trabalho com as cores que revela seu ponto mais forte. Seu
domínio da cor azul impressiona por saber graduá-lo, de acordo
com a sua necessidade interior, para mostrar céus, mares, lagos,
ambientes, atmosferas ou roupas.
Dominando o azul e
sabendo graduar principalmente os verdes e amarelos, a artista
concebe o seu universo artístico. Senhora dos azuis, mescla, em
suas telas, o real e o imaginário. Colorista atenta, recria o
mundo, escolhendo seletivamente o que está ao seu redor para
transformá-lo. Dessa metamorfose, surge uma arte de imagens e
paisagens predominantemente estáticas, nas quais o principal
movimento é o do olho do espectador, desafiado a observar
atentamente as nuances cromáticas que María Laura Leanes
oferece.