por Oscar D'Ambrosio


 

 



María Laura Leanes

A senhora dos azuis

Universalmente considerada a cor do infinito, o azul tem o poder de transformar o real em imaginário. É dessa cor o mítico pássaro da felicidade, cujo encontro propiciaria a realização de todos os sonhos. Perante o azul, segundo o Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, o consciente cede espaço ao inconsciente e a realidade, ao sonho.

O azul acalma e tranqüiliza e, para os egípcios é a cor da verdade, conotação que se amplia no budismo tibetano, onde o azul é ligado à sabedoria transcendente, encontrada simbolicamente na imensidão do céu azul, tema recorrente – e tratado com maestria – pela artista plástica argentina María Laura Leanes.

Nascida em Buenos Aires, em 1967, María Laura morou três anos em Mar del Plata e passava todos os verões em Ayacucho, na província de Buenos Aires. Hoje, mora na cidade de Bariloche, tema constante de seus quadros, mas também viajou para África do Sul, Brasil e vários países europeus.

A artista iniciou sua carreira pintando flores e cabeças de cavalo, primeiro em branco e preto. "Depois, aprendi a incorporar a cor. No começo, pintava com tinta a óleo e, depois, em acrílico", conta. "Me considero naïf desde sempre, pois evocar o sentimento de sossego que se respira na arte ingênua confirma que a vida é o resultado de nossas escolhas."

María Laura, que também se dedica à música, cantando num coro, afirma que "Expressar a fantasia em forma de arte, situando-a na tela, cria uma realidade". De fato, algumas de suas telas, como Antidiluviano, realizam essa ponte, fundindo tempos totalmente díspares.

Em primeiro plano, surge uma volumosa floresta tropical, na qual um conjunto de animais permanece estático, de frente ao espectador, como se estivessem posando para uma fotografia. Estamos perante uma família animal, composta por um leão, zebra, girafa e tigre. No centro, a imagem mais surpreendente do conjunto: uma mulher, com as bochechas avermelhadas, segura um filhote de dinossauro no colo,como se ele fosse um bebê, alheia ao espanto que a cena provoca no espectador.

Atrás desse retrato de família, em meio à água de um lago, surge o reflexo de uma lua azul, enquanto o sol brilha no céu, iluminando diversos animais, como flamingos, mais uma girafa ao fundo e até um dinossauro adulto. Ocorre assim uma integração entre épocas diversas da História sem nenhum tipo de choque.

A naturalidade com que a cena é retratada está de acordo com a postura calma da mulher. Rodeada de animais selvagens, não esboça qualquer reação de temor. Posiciona-se ainda junto a uma flor descomunal de cor rosa, que, mesmo ela estando sentada, ultrapassa a própria cabeça e chega até a metade do pescoço da girafa.

María Laura parece partir do real para introduzir algum elemento fantástico ou imaginário. Pinta assim crenças populares, animais e paisagens. Uma destas últimas lhe valeu a Quarta Menção na III Bienal Internacional Naïf da Fundação Rómulo Raggio, em 1998, na Argentina, com a tela Sinfonia invernal.

O quadro mostra a praça central da cidade de San Carlos de Bariloche em tons de azul e branco, que evocam a bandeira Argentina e geram uma atmosfera de harmonia e calma. Surge assim a bandeira nacional num imenso mastro, além de casas de pedra e madeira, com os típicos relógios no topo.

Turistas batendo fotos em grupo, um cão São Bernardo passeando com a dona, pessoas com roupas de frio e, ao fundo, os picos nevados completam a paisagem. O nome sinfonia ganha então duplo sentido. Por um lado, há um grupo de músicos entoando alguma melodia clássica com seus instrumentos de corda, principalmente violinos. No entanto, o que cativa o espectador é a harmonia da composição, com suas variações de azul.

Até o verde da grama e dos pinheiros ganha tons azulados. Pessoas caminhando sem compromisso ou lendo o jornal na praça são elementos constituintes do equilíbrio criado entre o fragmento do mundo urbano retratado pela artista e o universo selvagem que se descortina ao fundo, no imenso poder silencioso das montanhas brancas.

Com um quadro no Museu Austral Naïf de Esquel, em Neuquén, María Laura, segundo Nilda Marruco Carbonel, redatora, produtora e editora gráfica do livro Arte Naïf: libro de notas, caracteriza-se por "amplos horizontes, de espaços limpos e transparentes". A jornalista também elogia a forma como a artista libera sua fantasia nas telas e o modo como trabalha com as cores.

Um exemplo da atenção com as cores e com a composição é a tela Princípios de outono, também exibida na Bienal de 1998. O azul do céu repete-se agora na cor do lago, onde pessoas passeiam de barco. Ao fundo, uma casa de madeira com a bandeira da Argentina e a riqueza cromática da paisagem, valoriza ainda mais a tela.

Em primeiro plano, um morador da região é apresentado em detalhes. Em roupas típicas, sobre um cavalo, como uma fitinha azul e branca amarrada no chapéu e contemplado por patos, acena para um homem num barco a remo. A riqueza cromática da tela revela o talento da artista para trabalhar com diversos tipos de cores, principalmente o azul, o verde e o amarelo.

Na IV Bienal, realizada em 2000, Maria Laura exibiu um trabalho diferente: As negrinhas. O cenário agora é uma praia em que, sob o céu e junto ao mar, igualmente azuis, duas crianças negras, de biquíni – também azul – fazem um castelo de areia acompanhadas por um cão e observadas, a certa distância, pela mãe – com roupa azul, é claro. À esquerda, há um barco vazio, chamado João II, enquanto o João I está sendo usado para a pesca.

        A desproporção das filhas em relação à macérrima mãe e do pescador em relação ao seu instrumento de pesca não só caracterizam o quadro como naïf, como constroem um universo simbólico de pureza e encantamento, de integração entre o homem simples e trabalhador e a natureza amiga e paradisíaca.

As palmeiras tropicais, o ambiente onírico e a cor muito negra, irreal, das figuras humanas sugerem um espaço de mescla entre a realidade vista e a imaginada. É aí que transita o talento de María Laura. Quando são eliminados os limites entre o que pode ser e não ser, a arte se realiza como resposta do artista perante o mundo.

María Laura, que deu aulas de pintura durante oito anos, consegue esse efeito na grandeza das paisagens de Bariloche, nas cenas da infância passadas no campo e nos verões aproveitados em praias tropicais, três de seus temas preferidos. A tela Férias pertence ao segundo grupo. Uma charrete passa por uma estrada florida, ladeada por vacas manchadas. Pássaros nas árvores, nuvens plácidas no céu e uma atmosfera aconchegante dão ao quadro a dimensão do sonho.

A mesma atmosfera de sonho pode ser observada nos cartões de Natal da artista bonarense. Noite de Paz, por exemplo, enfoca o tema da Natividade de modo criativo. Em meio à neve, um pastor, com imenso cajado, contempla a estrela de Belém. À esquerda, um anjo toca uma corneta, anunciando a chegada do Menino Jesus. Ele se posiciona no ar sobre uma cidade feita de neve ou gelo, com estruturas semelhantes a edifícios construídas na forma de bonecos de neve.

Um dado curioso na composição são os patos próximos ao pastor. Incomuns nas cenas natalinas, eles dão interesse à composição ao se posicionarem num bloco de cinco, cada um olhando para uma direção. O recurso dá movimento ao quadro e pode ser observado principalmente na primeira ave da esquerda, que, com a cabeça erguida, cria uma linha imaginária diagonal, da esquerda para a direita, que atravessa todo o quadro e leva o olhar do espectador a percorrer esse percurso visual.

María Laura Leanes apresenta, em seu trabalho pictórico, uma saudável diversidade temática; porém, é no trabalho com as cores que revela seu ponto mais forte. Seu domínio da cor azul impressiona por saber graduá-lo, de acordo com a sua necessidade interior, para mostrar céus, mares, lagos, ambientes, atmosferas ou roupas.

Dominando o azul e sabendo graduar principalmente os verdes e amarelos, a artista concebe o seu universo artístico. Senhora dos azuis, mescla, em suas telas, o real e o imaginário. Colorista atenta, recria o mundo, escolhendo seletivamente o que está ao seu redor para transformá-lo. Dessa metamorfose, surge uma arte de imagens e paisagens predominantemente estáticas, nas quais o principal movimento é o do olho do espectador, desafiado a observar atentamente as nuances cromáticas que María Laura Leanes oferece.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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